Mais de 80% da fauna australiana é única no planeta, mas o país perde cerca de quatro espécies por década, liderando extinções globais. Gatos ferais, raposas, plantas invasoras e mudanças climáticas são as principais ameaças, agravadas por falta de financiamento e vontade política.
Austrália se torna epicentro das extinções com mais de cem espécies desaparecidas
Para cada dólar em conservação, 26 vão para subsídios que prejudicam a natureza
Por que a Austrália, sendo um país rico e com muitos cientistas de excelência, se tornou o epicentro das extinções?
Porque a riqueza do país foi construída sobre seus recursos naturais — mineração, agricultura, exploração de madeira — e esses setores continuam gerando receita que financia saúde, moradia, outras prioridades. Quando há conflito entre economia e natureza, a natureza cede.
Os voluntários e pesquisadores parecem fazer um trabalho extraordinário. Por que não é suficiente?
Porque é como tentar conter uma enchente com um balde. Eles conseguem salvar espécies individuais — o numbat é um exemplo — mas não conseguem enfrentar as causas estruturais: habitat sendo destruído, subsídios que prejudicam a natureza, espécies invasoras se multiplicando, mudanças climáticas acelerando tudo.
O governo prometeu interromper extinções até 2030. Isso é realista?
Não. As novas leis são apenas estrutura inicial. O conteúdo ainda está sendo definido. E há ceticismo de que o governo vá priorizar o meio ambiente diante de outras demandas, a menos que os eleitores o pressionem — e a maioria das pessoas diz que quer proteção ambiental, mas não quer abrir mão de nada para conseguir isso.
Qual é o custo real dessa perda de biodiversidade?
Vai além da economia. Para os povos originários australianos, é uma perda cultural profunda — eles se veem como guardiões de toda a vida na Terra. Para o país, ameaça turismo, produção de alimentos, construção civil. E há conhecimento científico que pode estar desaparecendo para sempre.
O numbat representa esperança real ou é apenas uma exceção que prova a regra?
Um pouco dos dois. Mostra que recuperação é possível com dedicação. Mas também mostra o problema: a melhora do numbat pode fazer as pessoas pensarem que está tudo bem e reduzir o financiamento. Uma espécie semelhante, o woylie, saiu da lista de ameaçadas e voltou dez anos depois em pior situação.
El Pulso
- Mais de 100 espécies extintas na Austrália; país lidera mundo em extinções de mamíferos
- Gatos ferais matam aproximadamente 3 bilhões de animais por ano
- Governo federal gasta A$ 700 milhões em proteção; conservacionistas dizem ser necessários A$ 33 bilhões (1% do PIB)
- Incêndios do Verão Negro (2019-2020) mataram 3 bilhões de animais
- Numbat retirado da Lista Vermelha Internacional este ano após décadas de recuperação
Mais de 80% da fauna australiana é única no planeta, mas o país perde cerca de quatro espécies por década, liderando extinções globais. Gatos ferais, raposas, plantas invasoras e mudanças climáticas são as principais ameaças, agravadas por falta de financiamento e vontade política.
A Austrália lidera o mundo em extinções de mamíferos, com mais de cem espécies desaparecidas. Espécies invasoras, destruição de habitat, doenças e mudanças climáticas ameaçam a biodiversidade única do país.
Na floresta de Dryandra, no sudoeste australiano, uma equipe de pesquisadores e voluntários percorre trilhas estreitas duas vezes por semana durante a primavera, os olhos fixos em galhos e vegetação rasteira. Procuram pelo numbat, um marsupial raro do tamanho de um esquilo que parece uma mistura improvável de tamanduá com roedor. Encontrá-lo é difícil — o animal é especialista em camuflagem — mas quando a equipe consegue avistar um, registra coordenadas de GPS, mede distâncias e alimenta uma equação complexa que estima a população total. Este trabalho meticuloso, feito com recursos limitados por voluntários dedicados, representa um dos poucos sinais de esperança em um país que se tornou o epicentro mundial da extinção de espécies.
A Austrália sempre foi celebrada como um santuário natural. Mais de 80% de sua fauna existe em nenhum outro lugar do planeta — coalas, cangurus, equidnas, uma profusão de papagaios e marsupiais únicos. Mas essa riqueza biológica está desaparecendo em ritmo alarmante. Pesquisadores estimam que mais de cem espécies já foram extintas, embora o governo australiano reconheça oficialmente apenas 67. O país perde cerca de quatro espécies por década e lidera o mundo em extinções de mamíferos. Enquanto isso, o número de espécies ameaçadas continua crescendo rapidamente, e a situação de muitas delas piora cada vez mais depressa.
As ameaças são múltiplas e se reforçam mutuamente. Gatos ferais matam aproximadamente três bilhões de animais por ano na Austrália. Raposas, coelhos, sapos-cururu e formigas-de-fogo — todas espécies introduzidas — deixam rastros de destruição. Plantas invasoras como a lantana sufocam a vegetação nativa. A clamídia levou coalas à beira da extinção em grande parte do país, enquanto um fungo quitrídio já causou o desaparecimento de sete espécies de sapos. As mudanças climáticas criam condições inabitáveis para algumas espécies, como as raposas-voadoras nativas, que caem das árvores aos milhares durante temperaturas extremas. Os incêndios florestais do chamado Verão Negro, em 2019 e 2020, mataram três bilhões de animais. Enchentes recordes nos anos seguintes atingiram áreas tão extensas que é impossível estimar o impacto total sobre a vida selvagem. Grandes áreas de habitat essencial continuam sendo desmatadas para agricultura, mineração e exploração de madeira.
Esforços de conservação existem, mas enfrentam obstáculos estruturais. Programas de reprodução em cativeiro, como o do zoológico de Perth, conseguem criar novas populações de espécies ameaçadas e aumentar a diversidade genética. Projetos de proteção e recuperação de habitats vêm aumentando. Cientistas trabalham para combater doenças e preservar material genético. Voluntários como Rob McLean, presidente da Numbat Taskforce, dedicam semanas inteiras a monitoramento de campo. Mas muitas espécies não conseguem sobreviver em ambientes totalmente abertos, exigindo reservas cercadas que demandam manejo intensivo e enfrentam problemas como endogamia e superpopulação. O trabalho de conservação depende largamente de doações de filantropos e empenho voluntário.
O financiamento é insuficiente. O governo federal gasta cerca de 700 milhões de dólares australianos por ano com proteção da natureza — uma fração dos 33 bilhões que conservacionistas afirmam ser necessários, equivalente a 1% do PIB. Enquanto isso, pesquisas indicam que mais de 26 bilhões de dólares australianos ainda são gastos em subsídios a atividades como mineração, agricultura intensiva e combustíveis, apesar de a Austrália ter assinado compromissos internacionais para reduzi-los. Para cada dólar investido em conservação, 26 dólares vão para subsídios que prejudicam a natureza. O governo do primeiro-ministro Anthony Albanese chegou ao poder em 2022 prometendo que nenhuma nova espécie seria extinta durante seu mandato e ampliou significativamente os esforços para reduzir emissões de carbono. Aprovou uma reforma das leis ambientais apresentada como a mudança mais importante em uma geração e estabeleceu a meta ambiciosa de interromper e reverter a perda de biodiversidade até 2030. Mas há pouco otimismo de que essas medidas representem uma verdadeira virada.
Os obstáculos políticos são profundos. A riqueza australiana foi construída em grande parte sobre seus recursos naturais, frequentemente às custas do meio ambiente, e essas riquezas continuam sustentando a economia. Há pressão constante de setores econômicos e interesses concorrentes dos estados, tornando menos clara a divisão de responsabilidades e aumentando entraves burocráticos. No ano passado, o governo de Albanese aprovou às pressas leis para proteger a criação de salmão após pressão de autoridades da Tasmânia, abafando oposição interna e ignorando recomendações de seu próprio departamento sobre o impacto dessa indústria, avaliada em 1,4 bilhão de dólares australianos, na sobrevivência da raia-de-maugean, uma espécie ameaçada. Quando há uma alternativa econômica, o meio ambiente cede. Muitos no setor argumentam que o problema não é a falta de instrumentos regulatórios, mas a falta de vontade política para usá-los.
Para os povos originários australianos, essa crise tem dimensão ainda mais profunda. Jack Pascoe, membro do povo aborígene yuin, explica que seu povo se vê como guardião de toda a vida na Terra, e o desaparecimento de espécies representa uma perda pessoal e coletiva que ameaça a cultura. A biodiversidade australiana sustenta tudo — produção de alimentos, turismo, construção civil, que representam boa parte da economia do país. Possíveis avanços científicos em medicina, agricultura e adaptação às mudanças climáticas também podem ser prejudicados.
O numbat oferece uma rara nota de esperança. Quando o biólogo Tony Friend chegou à floresta de Dryandra na década de 1980, encontrou menos de 50 numbats. Décadas de trabalho dedicado permitiram que a população se recuperasse o suficiente para que a espécie fosse retirada da Lista Vermelha Internacional de Espécies Ameaçadas este ano. Mas Friend adverte que a melhora traz uma armadilha: a recuperação pode dificultar a obtenção do financiamento necessário para garantir que a espécie continue se recuperando. O woylie, também conhecido como bettong-de-cauda-de-escova, serve de alerta — apresentou pequena recuperação, saiu da lista de ameaçadas, mas voltou a ser incluído dez anos depois em situação ainda pior. O trabalho contínuo é necessário para manter esses animais no planeta, e a Austrália ainda não demonstrou ter a vontade política ou os recursos para fazer isso em escala que acompanhe o ritmo da destruição.
Citas Notables
Nem é preciso imaginar. Isso está acontecendo diante dos nossos olhos— Professor Euan Ritchie, ecólogo especializado em mamíferos
Para cada dólar que o governo gasta em ações positivas de conservação da biodiversidade, A$ 26 são destinados a subsídios que prejudicam a natureza— Paul Elton, pesquisador sobre financiamento ambiental