Ausência de come-cotas impulsiona explosão dos ETFs de renda fixa no Brasil

Juros sobre juros, criando a diferença que cresce com o tempo
Como a ausência do come-cotas semestral permite que investidores acumulem patrimônio adicional em ambiente de juros elevados.
Mark

Por que o come-cotas é tão prejudicial se é só 15% a cada semestre?

Mimi

Porque você paga duas vezes por ano, e o imposto incide sobre ganhos que você ainda não sacou. É como se o governo tirasse uma parte do seu patrimônio para recolher imposto sobre lucro que continua investido. No ETF, você só paga quando vende.

Mark

Mas então por que os fundos tradicionais ainda existem?

Mimi

Existem por inércia. Muita gente não sabe que existe alternativa, ou não entende a diferença. Os bancos também ganham mais com fundos tradicionais porque cobram taxa de administração maior. O ETF é mais barato.

Mark

Esse crescimento de R$ 59 bilhões em menos de um ano é sustentável?

Mimi

Depende. A classe é nova, então há muito espaço para crescer. Mas também há um efeito de descoberta — pessoas estão percebendo que existem ETFs de renda fixa agora. Quando a novidade passar, o crescimento pode normalizar.

Mark

E se o governo decidir cobrar come-cotas em ETFs também?

Mimi

Aí a vantagem desaparece. Mas por enquanto, a lei é clara: ETFs não têm come-cotas. É uma brecha que o mercado está aproveitando.

Mark

Por que levou tanto tempo para chegar o ETF de renda fixa?

Mimi

Porque o mercado brasileiro era pequeno e focado em ações. Renda fixa é mais complexa de estruturar em um ETF. Mas quando chegou, em 2018, encontrou um mercado pronto para receber — juros altos, investidores buscando alternativas aos fundos tradicionais.

  • Um fundo tradicional rendendo 107% do CDI perde, ao longo de dez anos, para um ETF que rende apenas 100% — a matemática do come-cotas inverte o senso comum sobre rentabilidade.
  • Duas vezes por ano, a Receita Federal retira silenciosamente 15% dos ganhos acumulados dos fundos comuns, um imposto que não aparece nos extratos e que os ETFs simplesmente não pagam.
  • Em um ambiente de juros entre 14% e 15% ao ano, escapar dessa cobrança semestral equivale a entrar em cada novo ano com cerca de 2% a mais de patrimônio — vantagem que se multiplica pelo efeito dos juros compostos.
  • Os ETFs de renda fixa triplicaram em menos de um ano, chegando a R$ 59 bilhões, mas ainda representam apenas 1% da indústria brasileira de fundos, sinalizando um potencial de expansão expressivo.
  • A liquidez em bolsa e o recolhimento automático de impostos pela corretora eliminam duas das maiores fontes de ansiedade do investidor brasileiro: o risco de ficar preso e a burocracia fiscal.

No Brasil, onde os juros elevados tornam cada décimo de rendimento uma questão de destino patrimonial, os ETFs de renda fixa emergem não como uma moda passageira, mas como uma resposta estrutural a uma distorção fiscal antiga. A ausência do come-cotas — imposto semestral que corrói silenciosamente os fundos tradicionais — permite que o tempo trabalhe a favor do investidor, transformando uma vantagem aparentemente pequena em diferença substancial ao longo dos anos. Com R$ 59 bilhões alocados e crescimento vertiginoso em menos de um ano, esses instrumentos revelam que, quando a eficiência tributária encontra a simplicidade operacional, o mercado responde com velocidade.

Leonardo Vasques, gestor da XP Asset Management, resume o fenômeno com uma conta que desafia a intuição: um fundo tradicional rendendo 107% do CDI perde, em dez anos, para um ETF que rende apenas 100%. O segredo está no come-cotas, imposto semestral que a Receita Federal cobra dos fundos comuns em maio e novembro, reduzindo silenciosamente as cotas do investidor em 15% sobre o ganho acumulado. Nos ETFs, esse mecanismo simplesmente não existe.

O efeito prático é poderoso. Com juros brasileiros entre 14% e 15% ao ano, deixar de pagar esse tributo a cada semestre equivale a iniciar o ano seguinte com aproximadamente 2% a mais de patrimônio. Multiplicado pelo tempo e pelos juros compostos, a diferença se torna difícil de ignorar. Não por acaso, os ETFs de renda fixa triplicaram em menos de um ano, chegando a R$ 59 bilhões — crescimento que o próprio Vasques descreve como acentuado e muito rápido.

Além da vantagem fiscal, a estrutura operacional contribui para a atratividade. O ETF é negociado na B3 como uma ação, pode ser comprado e vendido a qualquer momento do dia, e o recolhimento de imposto é feito automaticamente pela corretora, sem a necessidade de emitir guias de pagamento. A alíquota é conhecida desde o início — 15% ou 25% —, sem prazos mínimos que gerem incerteza.

O contraste com o mercado internacional é revelador. Nos Estados Unidos, os ETFs somam cerca de US$ 15,5 trilhões, com captação superior a US$ 1 trilhão apenas neste ano. Um único fundo, o VOO, que replica o S&P 500, ultrapassou US$ 1 trilhão. No Brasil, os ETFs ainda representam apenas 1% da indústria de fundos, que gira em torno de R$ 10 trilhões — um indicativo claro de que o crescimento recente pode ser apenas o começo de uma transformação mais profunda no comportamento do investidor brasileiro.

Leonardo Vasques, gestor de carteiras da XP Asset Management, faz uma conta simples que resume por que os ETFs de renda fixa viraram febre no mercado brasileiro. Um fundo tradicional que rende 107% do CDI perde, ao longo de dez anos, para um ETF que rende apenas 100%. O dinheiro que chega nas mãos do investidor é maior no segundo caso. A explicação está em um detalhe que passa invisível na maioria dos extratos: a ausência do come-cotas.

Os números impressionam. Há cerca de R$ 59 bilhões alocados em ETFs de renda fixa hoje. Menos de um ano atrás, esse montante era um terço disso. O crescimento foi acentuado e muito rápido, como reconhece o próprio Vasques. A classe de investimento que mais cresce no mercado brasileiro ganhou essa velocidade por uma razão tributária simples: esses fundos não sofrem a redução semestral de cotas que afeta os fundos comuns.

Duas vezes por ano, no fim de maio e no fim de novembro, a Receita Federal reduz a quantidade de cotas do investidor para recolher 15% sobre o ganho acumulado. É um imposto que não aparece na rentabilidade divulgada do fundo — daí o termo "invisível". No ETF, esse mecanismo não existe. A diferença se acumula ano após ano. Num país onde os juros giram em torno de 14% a 15% ao ano, deixar de pagar esse imposto a cada semestre faz o investidor entrar no ano seguinte com aproximadamente 2% de patrimônio a mais. É juros sobre juros, criando uma vantagem que cresce com o tempo.

Há outras vantagens práticas. O ETF de renda fixa não exige a emissão de uma guia de imposto (DARF) a cada venda, porque o recolhimento é automático, feito pela corretora. A alíquota também é conhecida desde o primeiro dia — o investidor sabe se vai pagar 15% ou 25%, sem prazos mínimos que criem incerteza. Mas o crescimento recente tem uma explicação ainda mais simples: a classe é nova. O primeiro ETF brasileiro surgiu em 2004, mas o de renda fixa só chegou em 2018. Levou tempo para que o mercado chegasse à classe que realmente atrai o investidor brasileiro.

Um ETF é, na definição de Vasques, "um fundo, a coisa mais simples possível". A diferença crucial é que ele é negociado em bolsa, na B3, e pode ser comprado e vendido a qualquer momento do dia, como uma ação. Ao contrário de outros fundos listados, o ETF é aberto — a quantidade de cotas sobe e desce todos os dias. Por isso negocia sempre perto do valor real da carteira, sem os descontos que costumam castigar fundos imobiliários e outros produtos listados. Isso elimina o medo mais comum entre investidores: o da falta de liquidez. Com ativos líquidos por trás, é possível negociar valores grandes sem mexer no preço.

O gestor de um ETF não escolhe os ativos individuais, mas escolhe o índice que o fundo vai replicar. Foi Vasques quem estruturou o primeiro ETF do país, o PIBB11, numa iniciativa do BNDES, com emissão de R$ 600 milhões. O contraste com o mercado internacional é notável. Nos Estados Unidos, o mercado de ETFs soma cerca de US$ 15,5 trilhões e cresce a dois dígitos há uma década. Só neste ano, já captou mais de US$ 1 trilhão. Um único fundo, o VOO, que replica o índice S&P 500, passou de US$ 1 trilhão. Os três maiores ETFs de S&P 500 somados valem mais que toda a indústria brasileira de fundos, que gira em torno de R$ 10 trilhões.

Aqui, o potencial é enorme. Os ETFs representam apenas 1% da indústria de fundos brasileira. Para os apresentadores do programa Carteiros do Condado, Lucas Collazo e Davi Fontenele, o ETF é também um atalho para acessar temas difíceis — como a corrida por empresas de memória da Coreia do Sul, no rastro da inteligência artificial. A força dos números aparece no dia a dia. Vasques cita fundos com R$ 50 milhões a R$ 60 milhões de patrimônio que já receberam ordens de R$ 100 milhões, maiores que o próprio fundo, sem sustos. Isso ajuda a dar segurança para quem vai operar.

Um fundo que rende 107% do CDI perde, em dez anos, para um ETF que rende apenas 100%. Chega mais dinheiro para o cliente.
— Leonardo Vasques, gestor de carteiras da XP Asset Management
O come-cotas é perverso porque é um imposto invisível. O cliente não vê na rentabilidade do fundo.
— Leonardo Vasques
Quer a matéria completa? Leia o original em InfoMoney ↗
Fale Conosco FAQ