Cenografia motorizada e giratória sincroniza com narrativa de advogada que desmonta vítimas de estupro em tribunal, criando desequilíbrio físico que reflete trauma. Melissa abandonou carreira consolidada no Brasil em 2018 para integrar companhia suíça do diretor Daniele Finzi Pasca, especializada em teatro físico e circense.
Atriz brasileira Melissa Vettore protagoniza 'Prima Facie' na Itália com cenografia radical e giratória
A peça vai formando uma rede de pessoas que precisavam contar suas histórias
Por que a cenografia giratória funciona tão bem para contar essa história específica?
Porque o corpo da atriz vira a própria metáfora. Quando você está sendo girado, desequilibrado, você não consegue pensar direito. É exatamente o que acontece com uma vítima de violência — você perde o chão. A cenografia não é decoração, é a experiência.
Melissa deixou uma carreira consolidada no Brasil para isso. Não foi arriscado demais?
Foi impulsivo, ela mesma diz isso. Mas ela estava procurando algo diferente. Um teatro mais físico, mais de grupo. No Brasil ela era protagonista de peças de prosa. Aqui ela entrou em uma companhia onde o trabalho é coletivo, onde o corpo fala tanto quanto as palavras.
Como é memorizar um monólogo inteiro em uma quinta língua enquanto a mesa gira sob seus pés?
Desesperador, segundo ela. Seis meses só decorando. Mas o italiano é uma língua muito oratória, as frases são enormes. Ela teve que dividir tudo em blocos, gravar, corrigir sotaque. E depois aprender a pensar como personagem enquanto o corpo está completamente desequilibrado.
O que a peça faz com o público?
Forma uma rede. Advogados saem dizendo que nunca mais querem defender certos casos. Homens dizem que suas vidas vão mudar. Mulheres contam situações pessoais. Na Itália, a reação é mais explosiva que no Brasil — talvez porque o Brasil tenha tomado tanta pancada vendo injustiça que esteja um pouco anestesiado.
E para Melissa pessoalmente?
Mudou sua posição profissional na Europa. Ela era estrangeira, precisava provar que podia ocupar aquele lugar. Essa peça lhe deu um respeito muito grande pelo trabalho. Acho que foi isso o que mais mudou.
El Pulso
- Melissa Vettore protagoniza versão italiana de 'Prima Facie', monólogo sobre violência sexual com cenografia giratória
- Peça foi montada em cerca de 50 países, com atrizes como Jodie Comer e Débora Falabella
- Melissa abandonou carreira consolidada no Brasil em 2018 para integrar companhia suíça do diretor Daniele Finzi Pasca
- Levou seis meses apenas memorizando o monólogo em italiano, sua quinta língua de atuação
- Estreia em Lugano terminou com mais de oito minutos de aplausos em pé
Cenografia motorizada e giratória sincroniza com narrativa de advogada que desmonta vítimas de estupro em tribunal, criando desequilíbrio físico que reflete trauma. Melissa abandonou carreira consolidada no Brasil em 2018 para integrar companhia suíça do diretor Daniele Finzi Pasca, especializada em teatro físico e circense.
Melissa Vettore protagoniza versão italiana de 'Prima Facie', monólogo sobre violência sexual que usa cenografia giratória para intensificar a experiência do público. A peça já foi montada em cerca de 50 países.
A mesa começa a girar devagar. Depois mais rápido. Melissa Vettore está sentada nela, falando em italiano sobre os argumentos que uma advogada usa para desmontar vítimas de estupro em tribunal. Quando a cena termina, ela desce tonta, como quem acaba de sair de um táxi em movimento. Essa é a experiência de assistir a "Prima Facie" na versão italiana, onde a cenografia não apenas acompanha a história — ela a encarna.
O monólogo foi escrito em 2022 pela australiana Suzie Miller, ex-advogada criminalista que observou casos de violência sexual no sistema judicial e decidiu transformar aquela experiência em teatro. A peça acompanha Tessa, uma especialista em defender acusados de crimes sexuais, uma mulher que construiu sua carreira aprendendo a desmontar depoimentos de mulheres usando lacunas da lei — até sofrer uma violência semelhante. O texto viajou pelo mundo. Jodie Comer, a atriz de "O Último Duelo" e "Killing Eve", fez a versão em inglês que conquistou plateias internacionais. No Brasil, Débora Falabella levou cerca de 150 mil espectadores desde 2024. Hoje, quase 50 atrizes em países tão diversos quanto Sérvia, Turquia, Islândia, China, México e Portugal estão fazendo o mesmo papel.
Melissa Vettore, aos 54 anos, protagoniza a versão italiana. Ela vive desde 2018 em Lugano, na região suíça da Itália, integrada à companhia do diretor suíço Daniele Finzi Pasca, conhecido por espetáculos que mesclam teatro físico, dança e elementos circenses. A decisão de se mudar foi impulsiva. Na época, ela fazia duas peças em cartaz em São Paulo e participava da série "Os Dias Eram Assim" na Globo. Deixou tudo para entrar em um teatro de grupo, de companhia — um mundo muito diferente do teatro de prosa que sempre havia praticado. Ouviu falar de "Prima Facie" por um amigo em Londres e descobriu que dezenas de atrizes já estavam montando a peça. O alcance a atraiu. "Não conheço nenhuma peça de prosa contemporânea que tenha viajado tanto", diz.
A versão italiana é radicalmente física. Papéis caem do teto. Objetos aparecem nas mãos da atriz como truques de ilusionismo. Sapatos ficam suspensos sobre o palco por ímãs. Uma escrivaninha motorizada atravessa a cena comandada por controle remoto, operada por um técnico escondido que funciona quase como um bonequeiro invisível. Em uma cena particularmente perturbadora, Melissa senta em um objeto que parece uma mistura de gangorra e centrífuga. Enquanto a personagem narra uma noite romântica com um colega de trabalho, o mecanismo começa a se mover lentamente. Conforme a situação fica desconfortável e a relação sexual se transforma em violência, o aparelho acelera até deixá-la praticamente girando no ar. O desafio não era apenas decorar o monólogo. Era conseguir continuar pensando como personagem enquanto o corpo estava completamente desequilibrado.
Melissa levou seis meses apenas memorizando o texto em italiano, sua quinta língua de atuação. Estudou exaustivamente as versões em inglês e português, depois os termos jurídicos. O italiano não abrevia nada — é uma língua muito oratória, então as frases ficam enormes. Suzie Miller escreve quase como um rap, cortando frases no meio para dar velocidade. Melissa dividiu tudo em blocos, repetiu palavra por palavra, gravou, voltou, corrigiu sotaque. O processo foi tão intenso que funcionou como um isolamento. Sua mãe, Márcia Dias, referência na defesa dos direitos de crianças e adolescentes, estava doente no Brasil. Melissa viajava muito nesse período. Virou uma obsessão.
A estreia em Lugano terminou com mais de oito minutos de aplausos em pé. Ela tinha certeza de que ia acabar com a carreira do marido — ele estava fazendo teatro de prosa pela primeira vez. Mas ao longo da peça, o público ficou cada vez mais silencioso, num silêncio muito atento. Quando acabou, começaram a aplaudir antes mesmo dela sair de cena. Depois, formou-se uma fila de espectadores querendo conversar. Vieram advogados dizendo que nunca mais queriam defender certos casos. Vieram homens dizendo: "Minha vida vai mudar depois disso". Muitas mulheres contando situações pessoais. A peça foi formando uma rede.
Em Milão, a produção passou a ser ligada a campanhas por educação afetiva nas escolas. Em Pádua, sessões foram organizadas junto à ordem local dos advogados. Em Lugano, policiais, psicólogos, enfermeiras e associações femininas passaram a frequentar debates depois das apresentações. Segundo Melissa, a reação italiana ao tema costuma ser mais explosiva do que a brasileira. "No Brasil a gente tomou tanta pancada vendo injustiça que talvez esteja um pouco anestesiado. Na Itália eu sinto mais indignação imediata. O público reage muito." Na adaptação italiana, a personagem ganhou origem latino-americana para justificar o sotaque da atriz. Em algumas cenas, Melissa fala português ao conversar com a mãe da personagem — isso traz uma fragilidade diferente para ela, uma conexão com aquele lugar humilde e caótico de onde ela vem. O espetáculo mudou também a posição profissional de Melissa na Europa. Entrar em outro mercado já é difícil. Sendo estrangeira, mais ainda. Ela sabia que precisava provar que podia ocupar aquele lugar. Essa peça acabou lhe dando um respeito muito grande pelo trabalho.
Citas Notables
Não conheço nenhuma peça de prosa contemporânea que tenha viajado tanto— Melissa Vettore, sobre o alcance global de 'Prima Facie'
No Brasil a gente tomou tanta pancada vendo injustiça que talvez esteja um pouco anestesiado. Na Itália eu sinto mais indignação imediata— Melissa Vettore, comparando reações do público brasileiro e italiano