Ativistas da HealthGAP tomaram o microfone durante evento do governo americano, denunciando interrupções mortais em programas de combate ao HIV e exclusão de grupos de risco. Estudo recente identificou 1.714 unidades de serviço de HIV fechadas globalmente após mudanças na política Trump, contradizendo admissão oficial de que populações-chave não podem ser negligenciadas.
Ativistas interrompem apresentação dos EUA sobre política de HIV na conferência de Aids do Rio
Não conseguiremos deter a epidemia se não tivermos serviços para todas as pessoas em risco
Por que os ativistas sentiram que precisavam interromper a apresentação? Não havia outros canais para essa crítica?
Porque a contradição era tão gritante que palavras sussurradas não funcionariam. O governo estava apresentando uma estratégia que seus próprios funcionários admitiam estar quebrada, e ninguém parecia notar. Às vezes você precisa gritar para ser ouvido.
Mas Graham negou que os memorandos tivessem a ver com minerais. Você acredita nele?
Acreditar é uma coisa. Os fatos são outra. Quando você assina acordos de saúde com a República Democrática do Congo no mesmo mês em que assina acordos minerais, e quando a Zâmbia rejeita o acordo justamente por questões de minerais, as coincidências começam a parecer padrões.
E quanto ao cofinanciamento? A Nigéria está investindo 3 bilhões. Isso não mostra comprometimento?
Mostra que a Nigéria está sendo pressionada a pagar por um programa que os EUA estão reduzindo. É fácil chamar isso de "autossuficiência" quando você está saindo da porta.
Mas Bunnell disse que nenhum grupo pode ser esquecido. Isso não contradiz a política?
Exatamente. Ela disse a verdade científica e epidemiológica. Mas a política não segue a verdade. A política segue outra coisa. E é por isso que os ativistas estavam furiosos.
O que acontece agora? Os memorandos vão mudar?
Provavelmente não. Mas agora está registrado em público que o governo sabe que sua estratégia não funciona. Às vezes, expor a contradição é tudo o que você consegue fazer.
El Pulso
- 1.714 unidades de serviço de HIV fechadas globalmente após mudanças na política Trump
- Mais de 1 em cada 5 parceiros suspendeu permanentemente atividades de cuidado clínico relacionadas ao HIV
- Nigéria investindo US$ 3 bilhões contra US$ 2 bilhões dos EUA em memorando de cofinanciamento
- Ativistas da HealthGAP interromperam apresentação da 'America First Global Health Strategy' no Rio de Janeiro
Ativistas da HealthGAP tomaram o microfone durante evento do governo americano, denunciando interrupções mortais em programas de combate ao HIV e exclusão de grupos de risco. Estudo recente identificou 1.714 unidades de serviço de HIV fechadas globalmente após mudanças na política Trump, contradizendo admissão oficial de que populações-chave não podem ser negligenciadas.
Ativistas interromperam apresentação da estratégia de saúde global dos EUA na Conferência de Aids no Rio, criticando cortes no programa Pepfar e exclusão de populações vulneráveis ao HIV.
No domingo 26 de julho, durante a Conferência Internacional de Aids no Rio de Janeiro, ativistas invadiram uma sessão do governo americano e tomaram o microfone das mãos de Jeff Graham, coordenador interino de Aids global dos EUA. Gritos e apitos ecoaram pela sala enquanto os manifestantes denunciavam o que chamavam de "mentiras" e exigiam a restauração do Pepfar, o Plano de Emergência do Presidente dos EUA para o Alívio da Aids. Asia Russell, da organização HealthGAP, discursou após tomar a palavra, acusando o governo americano de causar uma emergência de saúde pública através de interrupções mortais em programas de HIV e ajuda global de saúde. Ela criticou duramente o que descreveu como uma agenda anticiência, anti-LGBTQ e contrária à participação das comunidades afetadas.
O protesto expôs uma contradição que o próprio governo americano reconheceria horas depois. Durante o mesmo evento, Rebecca Bunnell, vice-coordenadora da implementação do Pepfar, respondeu a uma pergunta sobre a exclusão das chamadas populações-chave — trabalhadoras sexuais, homens que fazem sexo com homens e pessoas que usam drogas injetáveis — do novo modelo americano, que agora se concentra principalmente na prevenção da transmissão de mãe para bebê. Bunnell admitiu que nenhum grupo pode ser esquecido, porque se forem, o governo fracassará em deter a epidemia. Não é possível conter o HIV sem oferecer serviços para todas as pessoas em risco, afirmou.
Para os ativistas, essa declaração revelou o cerne da contradição: o mesmo governo que escolhe um recorte estreito de beneficiários reconhece publicamente que essa escolha compromete o objetivo fundamental de controlar o HIV. Uma semana antes do protesto, a amfAR (Foundation for Aids Research) e a IAS (International Aids Society) haviam divulgado o Pepfar Pulse Study, um levantamento que mediu o impacto real das mudanças promovidas pela administração Trump no programa. Os números eram alarmantes: 1.714 unidades de serviço de HIV foram fechadas em todo o mundo, das quais mais de mil eram estabelecimentos públicos de saúde. Entre os parceiros que ofereciam tratamento de HIV, mais de um em cada cinco suspendeu de forma permanente ao menos uma atividade de cuidado clínico relacionada à doença.
Temitope Ilori, diretora-geral da Agência Nacional de Controle da Aids da Nigéria, estava presente na sessão e confirmou que a nova política havia interrompido programas voltados a essas populações em seu país, embora vários tenham sido posteriormente absorvidos por programas do governo nigeriano. Mas a questão que os ativistas levantaram ia além dos números de fechamentos. Eles apontavam para a estrutura dos memorandos de entendimento bilaterais que o governo americano estava assinando com países parceiros, apresentados sob a promessa de "propriedade do país" e "autossuficiência" na resposta à Aids. Russell denunciou esses acordos como "coercitivos", acusando-os de expulsar propositalmente pessoas com HIV das negociações para extrair riqueza mineral, dados e outros recursos que a administração Trump desejasse.
Graham negou qualquer vínculo entre os memorandos e a exploração de minerais críticos, afirmando que não havia menção a minerais em nenhum dos acordos. Mas os fatos contavam uma história diferente. Alguns desses memorandos de saúde — como os assinados com a República Democrática do Congo e a Guiné — foram celebrados paralelamente a acordos minerais com os mesmos países. O memorando com a Zâmbia havia fracassado justamente por divergências sobre os termos de acesso dos EUA a minerais no território zambiano. Todos os memorandos preveem cofinanciamento por parte dos países parceiros. No caso da Nigéria, o governo local está investindo 3 bilhões de dólares contra um aporte de 2 bilhões dos Estados Unidos.
Graham reconheceu que os memorandos são "não vinculantes", mas alertou que se um país não cumprir suas promessas de cofinanciamento, o governo americano "terá que avaliar isso, porque estamos tentando avançar juntos". Ele defendeu o modelo de coinvestimento como positivo, argumentando que a capacidade dos países de financiar suas próprias respostas de saúde é, em última análise, um ganho. Para dificuldades durante a transição prevista nos acordos rumo à autossuficiência, Graham citou a existência de um fundo de resiliência de transição como rede de apoio. Mas para os ativistas e para os milhões de pessoas que dependem dos serviços de HIV que foram fechados, essas garantias soavam vazias diante da realidade dos números: mais de mil unidades de saúde pública desaparecidas, e populações inteiras deixadas de fora de uma estratégia que seus próprios arquitetos admitem não funcionar sem elas.
Citas Notables
Há meses existe uma emergência de saúde pública causada pelas interrupções mortais do seu governo na programação do Pepfar e na ajuda global de saúde, e não vamos permitir que esse fato seja apagado— Asia Russell, HealthGAP
Não podemos esquecer nenhum grupo, porque se esquecermos, vamos fracassar. Não conseguiremos deter a epidemia se não tivermos serviços para todas as pessoas em risco— Rebecca Bunnell, vice-coordenadora da implementação do Pepfar