Em junho de 2022, uma pesquisa revelou que a política mineira não se decide apenas entre candidatos, mas entre os símbolos que eles carregam. Quando o nome de Lula era associado a Alexandre Kalil, o eleitor reconfigurava sua escolha de forma dramática — transformando uma derrota iminente em disputa acirrada. O estudo sugere que, em certas conjunturas, a identidade presidencial pode ser mais poderosa do que a trajetória local de quem concorre.
Associação com Lula pode virar jogo e fazer Kalil ultrapassar Zema em Minas
Kalil salta de 22,1% para 40,4% quando associado a Lula
Como uma pesquisa consegue medir algo tão intangível quanto o impacto de um apoio presidencial?
A DATATEMPO apresentou dois cenários diferentes aos mesmos eleitores. Primeiro perguntava intenção de voto sem mencionar apoios. Depois, informava explicitamente que Kalil era candidato de Lula e Viana era candidato de Bolsonaro, e perguntava novamente.
Mas isso não é exatamente como funciona a campanha real. Os eleitores já sabem dos apoios. Você está medindo o efeito de uma informação que já estava circulando, não o efeito puro do apoio.
Verdade. Mas o que a pesquisa mostra é que essa informação, quando explicitada, muda comportamento. Kalil cresce 18,3 pontos percentuais.
E Zema cai 21,3 pontos quando aparece com D'Ávila. Por quê?
Porque D'Ávila era visto como um candidato fraco. Quando Zema era apresentado sozinho, ele era Zema. Quando era apresentado com D'Ávila, ele virava parte de uma chapa que os eleitores não queriam.
Mas a pesquisa não explica por que Zema cai tanto. É porque D'Ávila é impopular? Porque os eleitores não gostam da coligação? Porque associam D'Ávila a Bolsonaro? Não sabemos.
Não, não sabemos. O que sabemos é que o efeito existe e é grande.
E o "Lulema" — eleitores de Lula votando em Zema — isso não contradiz a ideia de que Kalil cresce com Lula?
Não contradiz. Mostra que Zema tem uma base própria forte, independente de Lula. Mas quando você informa aos eleitores que Kalil é candidato de Lula, uma parte daqueles que votariam em Zema migra para Kalil.
Mas 37,5% dos eleitores de Lula ainda preferem Zema mesmo sabendo que Kalil é candidato de Lula. Isso sugere que o apoio presidencial não é determinante para todo mundo.
Exato. Funciona para alguns, não para todos. Mas funciona o suficiente para mudar o resultado.
Le Pouls
- Kalil largava com apenas 22,1% das intenções de voto, enquanto Zema dominava com 45,7% — margem suficiente para encerrar a disputa no primeiro turno.
- Ao ser apresentado como candidato de Lula, Kalil saltou para 40,4% e Zema despencou para 24,4%, invertendo completamente o quadro eleitoral.
- O efeito se repetiu com Carlos Viana: mencionado como apoiado por Bolsonaro, ele quadruplicou sua intenção de voto, de 4% para 15,5%, drenando votos de Zema.
- Em regiões como o Vale do Jequitinhonha, Kalil reverteu uma derrota expressiva para uma vitória de quase 30 pontos quando associado ao ex-presidente.
- Um fenômeno inesperado emergiu: 37,5% dos eleitores de Lula no plano nacional escolheriam Zema para o governo estadual, criando o que a pesquisa batizou de 'Lulema'.
Em junho de 2022, uma pesquisa revelou que a política mineira não se decide apenas entre candidatos, mas entre os símbolos que eles carregam. Quando o nome de Lula era associado a Alexandre Kalil, o eleitor reconfigurava sua escolha de forma dramática — transformando uma derrota iminente em disputa acirrada. O estudo sugere que, em certas conjunturas, a identidade presidencial pode ser mais poderosa do que a trajetória local de quem concorre.
Uma pesquisa do Instituto DATATEMPO, divulgada em junho de 2022, mostrou como os apoios presidenciais poderiam reescrever completamente a disputa pelo governo de Minas Gerais. No cenário sem associações explícitas, Romeu Zema liderava com folga — 45,7% contra 22,1% de Alexandre Kalil —, margem que apontava para uma vitória no primeiro turno. Mas quando os eleitores eram informados de que Kalil era o candidato apoiado por Lula, o quadro se invertia: Kalil subia para 40,4% e Zema caía para 24,4%.
O mesmo mecanismo funcionava em favor de Carlos Viana, que crescia de 4% para 15,5% ao ser apresentado como apoiado por Bolsonaro. Zema, por sua vez, sofria o efeito oposto quando vinculado a Felipe D'Ávila, seu companheiro de chapa pelo União Brasil, perdendo parte significativa de sua força individual. A pesquisa foi realizada com 2 mil entrevistas domiciliares entre 27 de maio e 1º de junho, com margem de erro de 2,19 pontos percentuais.
O impacto regional era ainda mais revelador. No Vale do Jequitinhonha, Kalil revertia uma derrota para uma vitória expressiva quando associado a Lula. No Noroeste, a diferença de mais de 40 pontos entre Zema e Kalil encolhia para menos de 3. Na região metropolitana, onde Kalil já vencia em voo solo, o apoio presidencial o fortalecia ainda mais.
A coordenadora do estudo, Audrey Dias, doutora em ciência política, destacou que os dados expunham a força bruta dos vínculos presidenciais na política estadual. Ela observou que a associação com Lula abria a Kalil a possibilidade de conquistar votos em regiões que antes pertenciam a Zema. Um dado paradoxal completava o retrato: 37,5% dos eleitores de Lula no plano nacional escolheriam Zema para o governo do estado — fenômeno que a pesquisa chamou de 'Lulema' —, revelando que a transferência de votos entre esferas raramente é automática ou previsível.
Uma pesquisa do Instituto DATATEMPO revelou em junho de 2022 como a política presidencial pode reescrever a disputa pelo governo de Minas Gerais. Quando Alexandre Kalil, ex-prefeito de Belo Horizonte, era apresentado aos eleitores sem qualquer vínculo explícito, ele recebia apenas 22,1% das intenções de voto, enquanto Romeu Zema, o governador em exercício, dominava com 45,7% — margem suficiente para vencer no primeiro turno. Mas quando o mesmo eleitor era informado de que Kalil era o candidato apoiado pelo ex-presidente Lula, o cenário se invertia dramaticamente: Kalil saltava para 40,4%, enquanto Zema despenava para 24,4%.
Este movimento não era exclusivo de Kalil. O senador Carlos Viana, apoiado pelo presidente Jair Bolsonaro, experimentava transformação semelhante, crescendo de 4% para 15,5% quando sua associação com Bolsonaro era explicitada aos entrevistados. Zema, por sua vez, sofria o efeito oposto: sua força pessoal se dissipava quando vinculado a Felipe D'Ávila, seu companheiro de chapa pelo União Brasil. A pesquisa, encomendada pela Sempre Editora, foi realizada entre 27 de maio e 1º de junho de 2022, com 2 mil entrevistas domiciliares e margem de erro de 2,19 pontos percentuais.
A coordenadora da pesquisa, Audrey Dias, doutora em ciência política, explicou que os dados revelavam a força bruta dos apoios presidenciais na política estadual mineira. "O que se vislumbra é que as definições acerca dos apoios políticos podem impactar os resultados das eleições, em especial para Kalil, já que se verifica uma possibilidade de crescimento para o candidato quando se associa ao nome de Lula, e ele tem grandes chances de conquistar votos em regiões do Estado em que antes era de Zema", afirmou.
O impacto regional era ainda mais pronunciado. Na região Noroeste, onde Zema dominava com 53,85% contra apenas 10,26% de Kalil no cenário sem associações presidenciais, a diferença caía para apenas 2,57 pontos percentuais quando Kalil era apresentado como candidato de Lula. No Vale do Jequitinhonha, Kalil revertia uma derrota de 35,21% contra 29,58% para uma vitória de 49,30% contra 21,13%. Na região metropolitana, onde Kalil já vencia Zema em voo solo com 41,18%, ele crescia ainda mais para 46,10% quando associado a Lula. A aliança entre o petista e o pessedista havia sido formalizada publicamente no dia 19 de maio.
Quando se observava a transferência de votos entre candidatos, o padrão se confirmava. Kalil mantinha 79,4% de seus eleitores quando não era associado a Lula, mas recebia 24,18% dos votos de Zema e 32,10% dos votos de Viana quando os apoios presidenciais eram revelados. Zema, por sua vez, conseguia manter 46,8% de sua base em um cenário de primeiro turno, mas perdia 24,2% para Kalil e 17,4% para Viana apoiado por Bolsonaro.
Um fenômeno particular emergiu entre os eleitores que votavam em Lula nacionalmente. Enquanto 31% desse público escolheria Kalil para o governo estadual, 37,50% votaria em Zema — formando o que a pesquisa chamou de "Lulema". Entre os eleitores de Bolsonaro, 65,36% preferiam Zema e apenas 13,04% escolhiam Kalil. Dos eleitores de Felipe D'Ávila, nenhum selecionava Kalil: 80% preferiam o governador e 20% escolhiam Viana.
Audrey Dias resumiu o mecanismo em ação: "O que parece acontecer é que, quando informamos aos eleitores sobre os apoios políticos já definidos, Kalil, que é o candidato do Lula ao governo do Estado, conquista os votos antes direcionados a Zema. A mesma coisa ocorre quando informamos o apoio de Bolsonaro a Carlos Viana – votos que antes eram de Zema, migram para Viana". A pesquisa foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-00448/2022 e no Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais sob MG-05705/2022, com intervalo de confiança de 95%.
Citations marquantes
O que se vislumbra é que as definições acerca dos apoios políticos podem impactar os resultados das eleições, em especial para Kalil, já que se verifica uma possibilidade de crescimento para o candidato quando se associa ao nome de Lula— Audrey Dias, coordenadora da pesquisa DATATEMPO
O que parece acontecer é que, quando informamos aos eleitores sobre os apoios políticos já definidos, Kalil, que é o candidato do Lula ao governo do Estado, conquista os votos antes direcionados a Zema— Audrey Dias, doutora em ciência política