Mulheres assertivas enfrentam estigma social imediato, sendo catalogadas como autoritárias enquanto homens com comportamento idêntico são valorizados. Fernanda de Almeida Pinheiro cresceu desafiando expectativas de género desde criança, recusando papéis domésticos tradicionais impostos às meninas.
Assertividade feminina como crime: Fernanda Pinheiro desafia normas de género
Deveria ser baseado no mérito, mas é completa treta
Quando Fernanda diz que as mulheres assertivas são catalogadas como autoritárias, está a falar de algo que observou na sua própria vida ou de um padrão mais amplo?
Ambos. Ela viveu isto desde criança — quando contestava a injustiça de só as raparigas terem tarefas domésticas, estava a ser assertiva. Mas o padrão que descreve é sistémico. Viu-o na advocacia, viu-o na Ordem dos Advogados. É uma dinâmica que afeta todas as mulheres que ocupam espaço.
Mas ela não dá exemplos específicos de situações em que foi pessoalmente catalogada como autoritária. Sabemos que isto é a sua perceção, mas não temos casos concretos.
Isso é importante. Porque se não temos exemplos específicos, como sabemos que não é apenas uma interpretação pessoal?
É verdade que o podcast não detalha situações específicas. Mas o que ela está a fazer é nomear um padrão que a investigação social documenta — mulheres em posições de poder são avaliadas de forma diferente. Ela está a falar a partir de uma posição de autoridade, como bastonária.
Sim, mas "investigação social" não é o mesmo que "isto aconteceu-me". Ela mudou de ideias sobre as cotas porque reconheceu que o mérito é uma ficção — isso é claro. Mas o resto é mais diagnóstico do que testemunho.
E quanto à história dela própria? O percurso de trabalhadora-estudante até bastonária — isso contradiz a ideia de que o mérito não funciona?
Não, porque ela conseguiu apesar dos obstáculos, não por causa deles. E ela própria é um exemplo de alguém que teve de trabalhar muito mais do que outros para chegar ao mesmo sítio.
Verdade. Mas o podcast não nos diz se ela sente que foi tratada diferentemente por ser mulher durante esse percurso. Sabemos que o caminho foi pouco convencional, mas não sabemos se a dificuldade foi por ser mulher ou por ser trabalhadora-estudante.
Então o que fica claro é que ela vê a assertividade feminina como um problema estrutural, mas o podcast não nos dá a profundidade de como isso se manifestou na sua vida específica.
Exatamente. É um diagnóstico de um problema, mas não é uma narrativa detalhada de como esse problema a afetou pessoalmente.
Le Pouls
- Fernanda de Almeida Pinheiro nasceu em Caldas da Rainha em outubro de 1969
- Matriculou-se em Direito na Universidade Autónoma seis anos após o ensino secundário, enquanto trabalhava
- Foi bastonária da Ordem dos Advogados
- Conceição Lino nasceu em 4 de junho de 1965 e começou na SIC quando era o primeiro canal privado de televisão em Portugal
Mulheres assertivas enfrentam estigma social imediato, sendo catalogadas como autoritárias enquanto homens com comportamento idêntico são valorizados. Fernanda de Almeida Pinheiro cresceu desafiando expectativas de género desde criança, recusando papéis domésticos tradicionais impostos às meninas.
Fernanda de Almeida Pinheiro, ex-bastonária da Ordem dos Advogados, reflete sobre as pressões sociais que enfrentam as mulheres assertivas, criticando o duplo padrão que as cataloga como autoritárias.
Fernanda de Almeida Pinheiro nasceu em Caldas da Rainha no outono de 1969, filha segunda de uma mãe que esperava uma rapariga bem-comportada. Mas desde cedo ela recusou o papel que lhe estava destinado. Não bordava de bom grado. Não brincava com bonecas. E quando via injustiça — como o facto de apenas as raparigas terem tarefas domésticas — não hesitava em dizer o que pensava. Cresceu rodeada de mulheres fortes, mulheres que ninguém tinha empoderado mas que se tinham tornado poderosas por conta própria. A sua avó foi uma delas. Essa linhagem marcou-a.
Quando chegou a altura de ir para a universidade, o caminho não foi direto. Não havia dinheiro para pagar um curso superior, por isso os planos foram adiados. Seis anos depois, por sugestão da irmã mais nova, matriculou-se em Direito na Universidade Autónoma enquanto trabalhava. Antes de conseguir ser advogada em nome individual, passou por vários papéis — secretária de Administração, Técnica de Recursos Humanos, trabalho em contencioso. Foi este percurso pouco convencional que a levou, eventualmente, a bastonária da Ordem dos Advogados. "A advocacia permite-nos mudar o mundo, nem que seja pessoa a pessoa", diz ela.
Mas há algo que a incomoda profundamente: o modo como a sociedade trata a assertividade feminina. Uma mulher que fala claro, que toma posições, que não se desculpa por ocupar espaço — é imediatamente catalogada como autoritária. Um homem com o mesmo comportamento é visto como confiante, como alguém que sabe o que quer. O duplo padrão é tão automático que nem sempre é nomeado. Pinheiro nomeia-o.
Durante anos, ela foi contra as cotas de género. Parecia-lhe um despropósito, uma admissão de que a sociedade não funcionava com base no mérito. Mas depois mudou de ideias. "Como se a sociedade fosse baseada no mérito. Deveria ser, mas é completa treta. E vendem-nos isto como se fosse verdade", desabafa. A mudança de perspetiva não foi uma capitulação — foi um reconhecimento de que o mérito, tal como nos é vendido, é uma ficção que mascara discriminação sistémica.
Esta conversa acontece no último episódio da temporada do podcast Geração 60, conduzido por Conceição Lino. Lino nasceu a meados dos anos 60, em 4 de junho de 1965, e começou a sua carreira na SIC quando o canal era ainda uma novidade em Portugal. Começou na informação diária mas rapidamente percebeu que queria fazer jornalismo de proximidade, jornalismo que servisse as pessoas. Conduziu programas como "Praça Pública", "Casos de Polícia", e criou formatos como "Nós por Cá", "E Se Fosse Consigo?", "15/25" e "Essencial". Acredita que o jornalismo só é relevante se estiver ao serviço dos cidadãos. O podcast Geração 60 é a sua estreia neste formato, uma série de conversas com personalidades desta geração que se estendeu até ao verão.
O que emerge desta conversa é uma questão que vai além de Pinheiro: como é que uma sociedade que se proclama baseada no mérito consegue, simultaneamente, punir as mulheres por serem assertivas? Como é que a mesma qualidade — clareza, convicção, recusa de compromisso — é valorizada num homem e condenada numa mulher? Pinheiro viveu esta contradição na pele, desde a infância quando contestava tarefas domésticas injustas, até à sua carreira como advogada e bastonária. A sua história não é apenas pessoal. É um espelho para uma estrutura que continua a funcionar com regras diferentes consoante o género de quem as segue.
Citations marquantes
A advocacia permite-nos mudar o mundo, nem que seja pessoa a pessoa— Fernanda de Almeida Pinheiro
Deveria ser baseado no mérito, mas é completa treta. E vendem-nos isto como se fosse verdade— Fernanda de Almeida Pinheiro, sobre a narrativa de meritocracia