Da mesma forma que a gente vai vender arroz para o resto da vida, também podemos vender remédio
Em julho de 2026, o Assaí inaugurou a primeira farmácia instalada dentro de um supermercado no Brasil, abrindo um novo capítulo na história do varejo nacional. A iniciativa, viabilizada por lei sancionada apenas quatro meses antes, revela como grandes redes de atacarejo buscam aprofundar sua presença na vida cotidiana dos brasileiros — não apenas como fornecedoras de alimentos, mas como guardiãs de dados e relacionamentos duradouros. Num mercado farmacêutico de R$ 243 bilhões, a vantagem não vem do tamanho, mas da inteligência estrutural: usar o que já existe para reduzir o que custa.
- Uma lei sancionada há menos de quatro meses abriu uma brecha legal que o Assaí aproveitou com velocidade incomum para o setor.
- O modelo ameaça diretamente gigantes como RD Saúde e DPSP ao eliminar até 40% dos custos fixos que tornam o varejo farmacêutico tão concentrado.
- Com 40 milhões de clientes mensais e espaços ociosos herdados de antigos hipermercados, a infraestrutura já existente vira arma competitiva.
- A captura de dados de saúde dos consumidores é o verdadeiro prêmio estratégico — mais valioso, segundo o CEO, do que qualquer parceria com as redes tradicionais.
- O plano de 25 farmácias até dezembro em São Paulo é apenas o primeiro passo de uma expansão que pode chegar a 250 unidades em todo o Brasil.
Na quinta-feira, 16 de julho, o Assaí abriu sua primeira farmácia dentro de uma loja de atacarejo, num espaço próximo à Marginal Tietê, em São Paulo. A operação foi viabilizada por uma lei sancionada em março pelo presidente Lula, após meses de negociação com o setor. A rede não esperou: já planeja 25 unidades até o fim do ano, todas em São Paulo, com horizonte de 250 farmácias em todo o país.
Para o CEO Belmiro Gomes, o movimento vai além de vender remédios. A prioridade é construir um relacionamento mais profundo com os clientes e capturar dados de saúde — algo que uma parceria com RD Saúde, DPSP ou Pague Menos não permitiria com a mesma profundidade. Cada farmácia terá cerca de 10 mil itens, volume comparável ao de uma loja de rua das grandes concorrentes, e já abre com estoque de canetas emagrecedoras.
O diferencial competitivo está na estrutura de custos. O Assaí já arca com aluguel, IPTU, limpeza e segurança em suas lojas — despesas que representam aproximadamente 40% dos custos operacionais de uma farmácia tradicional. Somado ao fluxo de 40 milhões de clientes mensais em 313 lojas, e ao dado de que 78% dos entrevistados numa pesquisa da Bain & Company disseram ter intenção de comprar remédios em supermercados, a aposta ganha contornos concretos.
As farmácias ocuparão cerca de 120 metros quadrados em áreas que já estavam ociosas — espaços liberados com o enxugamento de eletroeletrônicos nos antigos hipermercados. A distribuição será feita por acordos diretos com indústrias farmacêuticas, sem necessidade de centro de distribuição próprio. Entre julho e agosto, mais seis unidades serão abertas em bairros de São Paulo e em São Bernardo do Campo.
O Assaí não revelou o investimento por unidade nem as projeções de faturamento para o novo negócio. No primeiro trimestre de 2026, a companhia registrou receita líquida de R$ 18,6 bilhões e Ebitda ajustado de R$ 1,02 bilhão. As ações ASAI3 acumulam alta de 20% no ano, com valor de mercado de R$ 11,8 bilhões. Os resultados do segundo trimestre serão divulgados em 6 de agosto.
Na quinta-feira, 16 de julho, o Assaí abriu as portas da primeira farmácia instalada dentro de um supermercado no Brasil. O espaço fica numa loja próxima à Marginal Tietê, em São Paulo, e marca o início de uma aposta que a varejista de atacarejo pretende expandir rapidamente: 25 farmácias até o fim deste ano, todas no estado de São Paulo, com potencial para chegar a 250 unidades em todo o país num futuro ainda indefinido.
A lei que autorizou essa operação foi sancionada há menos de quatro meses, em março, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, após negociações com associações do setor. O Assaí não perdeu tempo. Segundo Belmiro Gomes, CEO da companhia, a estratégia não é apenas ampliar a oferta de produtos. É uma jogada para capturar dados de clientes e criar relacionamento mais profundo com quem passa por suas lojas — algo que seria mais complicado fazer através de uma parceria com as gigantes do varejo farmacêutico, como RD Saúde, DPSP, Pague Menos e Panvel.
Cada farmácia terá aproximadamente 10 mil itens em estoque, volume equivalente ao de uma loja de rua média das principais concorrentes. A primeira unidade já abre inclusive com estoque de canetas emagrecedoras. Mas o diferencial competitivo não está na escala — pelo menos não ainda. Está na estrutura de custos. O Assaí já possui infraestrutura de aluguel, IPTU, limpeza e segurança em suas lojas. Segundo Gomes, isso representa aproximadamente 40% das despesas operacionais de uma farmácia tradicional. "Boa parte do custo que elas têm, nós não teremos", explica o executivo. Essa vantagem permite que a companhia compita num mercado que movimentou R$ 243 bilhões no ano passado, com metade desse faturamento concentrado nas grandes redes.
O modelo também se apoia numa realidade demográfica. O Assaí recebe 40 milhões de clientes por mês em suas 313 lojas — um fluxo que Gomes compara ao movimento anual do Aeroporto de Guarulhos distribuído entre todos os estratos sociais. Um estudo da Bain & Company encomendado pelo Assaí revelou que 80% dos medicamentos vendidos no Brasil são para uso crônico, e 78% das pessoas entrevistadas demonstraram intenção de comprar em farmácias de supermercados. A conveniência de levar remédio e arroz no mesmo carrinho é o ponto de partida dessa aposta.
Nem todas as lojas do Assaí receberão uma farmácia. Cada espaço ocupará cerca de 120 metros quadrados, instalado em áreas que já estavam ociosas. Os antigos hipermercados da rede tinham eletroeletrônicos e outros itens que foram sendo reduzidos ao longo do tempo, liberando espaço sem necessidade de grandes reformas operacionais. A legislação exige que cada farmácia tenha um farmacêutico em período integral, uma preocupação que a Associação Brasileira de Drogarias e Farmácias (Abrafarma) levantou durante a discussão da lei e que depois participou da construção do modelo aprovado.
Entre julho e agosto, o Assaí abrirá mais seis farmácias em Vila Maria, Tatuapé, Penha, Jaguaré, Avenida Teotônio Vilela (em São Paulo) e nas unidades Anchieta Pauliceia e Alvarengas (em São Bernardo do Campo). A distribuição de medicamentos funcionará de forma diferente da alimentar. Sem necessidade de um centro de distribuição próprio, o Assaí estabelecerá acordos diretos com indústrias farmacêuticas. Gomes aponta que, diferentemente de alimentos, não há marcas regionais de medicamentos, o que torna essa distribuição mais eficiente.
A companhia não divulgou o volume de investimento em cada farmácia nem suas expectativas de faturamento com essa nova unidade de negócios. No primeiro trimestre de 2026, o Assaí reportou receita líquida de R$ 18,6 bilhões, alta de 0,5% em relação ao mesmo período do ano anterior, com Ebitda ajustado de R$ 1,02 bilhão. As ações ASAI3 acumulam valorização de 20% em 2026, embora registrem queda de 14% em 12 meses. O valor de mercado da companhia é de R$ 11,8 bilhões. O segundo trimestre será divulgado em 6 de agosto.
Notable Quotes
Boa parte do custo que elas têm, nós não teremos. Aproximadamente 40% da despesa de uma farmácia hoje a gente já tem dentro da operação— Belmiro Gomes, CEO do Assaí
A farmácia faz parte da nossa estratégia de ampliação de relacionamento com o cliente e de interligar no futuro um programa de pontos. Nós queremos ter esse dado do cliente— Belmiro Gomes, CEO do Assaí
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que o Assaí não simplesmente fez uma parceria com uma das grandes redes de farmácia em vez de entrar sozinho nesse negócio?
Porque dados. Se você faz parceria, quem tem o relacionamento com o cliente é a rede farmacêutica, não você. O Assaí quer saber quem compra remédio, com que frequência, que tipo. Quer conectar isso a um programa de pontos no futuro. Isso só funciona se você é o dono da operação.
Mas o Assaí não tem experiência em farmácia. Como compete com RD Saúde ou DPSP, que têm décadas nisso?
Não compete no mesmo jogo. Essas redes pagam aluguel, IPTU, segurança, limpeza em cada loja. O Assaí já tem tudo isso. Quarenta por cento dos custos de uma farmácia tradicional ele já carrega. Isso muda a equação econômica completamente.
E se as pessoas não quiserem comprar remédio no supermercado? Se acharem estranho?
O estudo que encomendaram diz que 78% das pessoas têm intenção de fazer isso. E faz sentido: 80% dos medicamentos vendidos são para uso crônico. Você vai na farmácia todo mês de qualquer forma. Por que não ir no supermercado e resolver tudo de uma vez?
Qual é o risco real aqui?
Escala. Eles abrem 25 farmácias até dezembro, todas em São Paulo. Mas têm 313 lojas no Brasil. Se o modelo funcionar, precisam expandir rápido. Se não funcionar, é muito dinheiro parado em espaço que poderia ser usado para outra coisa.
A lei foi sancionada há menos de quatro meses. Isso é muito rápido para abrir a primeira unidade.
É. Significa que o Assaí estava pronto, esperando só a aprovação. Provavelmente já tinha tudo planejado, já tinha conversado com fornecedores. Quando a lei saiu, foi só ligar o interruptor.