Aspirina não reduz recidiva após metástases hepáticas do câncer colorretal

Eventos adversos graves ocorreram em 7,8% dos participantes em uso de aspirina, incluindo epistaxe, úlcera duodenal, hemorragia cerebral e infarto do miocárdio.
Sem benefício clínico, os riscos não se justificam
Efeitos colaterais graves ocorreram em 7,8% dos pacientes com aspirina versus 1,9% com placebo, sem melhora na sobrevida livre de doença.
Mark

Por que os pesquisadores testaram aspirina especificamente para esse cenário? Parecia haver uma base racional?

Mimi

A aspirina tem propriedades antitrombóticas e anti-inflamatórias que teoricamente poderiam reduzir recorrência. Há evidência de que ela pode ajudar em prevenção primária de câncer em algumas populações. A lógica era estender isso para prevenção de recorrência após tratamento bem-sucedido.

Luke

Mas o estudo não encontrou benefício no desfecho primário. A sobrevida livre de doença foi praticamente idêntica entre os grupos. Isso é um resultado negativo claro.

Mark

E quanto àquela diferença na sobrevida global — 75,7% versus 84,9%? Isso não é preocupante?

Mimi

É preocupante, sim. Mas os autores reconhecem que esse era um desfecho secundário e o estudo não foi desenhado para avaliar isso com poder estatístico adequado. Além disso, não temos dados sobre quais tratamentos os pacientes receberam após a recorrência, então é difícil saber se a aspirina causou a diferença ou se foi algo que aconteceu depois.

Luke

Exatamente. Essa é uma limitação real. Você não pode explicar uma diferença de 9 pontos percentuais em mortalidade sem entender o que aconteceu com os pacientes após a recorrência. Pode haver confundidores não medidos.

Mark

Os efeitos colaterais parecem significativos — 7,8% versus 1,9%.

Mimi

Sim, e incluem coisas sérias: hemorragia cerebral, infarto do miocárdio, úlcera duodenal. Quando você não tem benefício clínico, esses riscos não se justificam.

Luke

Embora seja justo dizer que nenhuma morte foi atribuída ao tratamento. Os eventos foram graves, mas não foram fatais neste estudo. Ainda assim, o cálculo risco-benefício é claro: sem benefício, por que expor os pacientes a esses riscos?

Mark

Isso muda a prática clínica?

Mimi

Para pacientes que não estavam tomando aspirina antes, sim — não há razão para começar. Mas o estudo deixa uma questão aberta: e se o paciente já estava tomando aspirina por outra indicação? Os autores não responderam isso.

Luke

Certo. O estudo é específico: aspirina iniciada após o tratamento bem-sucedido, em pessoas que não a usavam. Não diz nada sobre continuar ou descontinuar em quem já estava usando. Essa é uma limitação importante que os clínicos precisam entender.

  • A hipótese era sedutora — um comprimido barato e amplamente disponível poderia manter o câncer colorretal metastático à distância após o tratamento curativo, mas o ensaio clínico de fase 3 desfez essa expectativa com dados concretos.
  • O tempo até recorrência ou morte foi menor no grupo que tomou aspirina (1,13 ano) do que no grupo placebo (1,40 ano), uma diferença que, embora não estatisticamente significativa, aponta na direção errada.
  • Um sinal mais perturbador emergiu nos dados secundários: aos 36 meses, a sobrevida global era de 75,7% com aspirina contra 84,9% com placebo, sugerindo que o medicamento pode ter causado dano real a uma população já vulnerável.
  • Os efeitos adversos graves foram quatro vezes mais frequentes no grupo aspirina — hemorragias, úlceras e até infarto do miocárdio afetaram 7,8% dos participantes, contra apenas 1,9% no grupo controle.
  • Diante desses resultados, os autores do estudo concluíram com clareza: aspirina não deve ser iniciada rotineiramente para prevenir recorrência após tratamento curativo de metástases hepáticas de câncer colorretal.

Durante séculos, a medicina buscou na simplicidade das substâncias cotidianas respostas para as doenças mais complexas. O ensaio ASAC, conduzido em centros escandinavos entre 2017 e 2022, testou se a aspirina diária poderia proteger pacientes que superaram metástases hepáticas de câncer colorretal de uma nova recaída — uma esperança razoável, mas que os dados de 428 participantes não confirmaram. A ciência, ao dizer não, cumpre também sua função essencial: poupar pessoas de intervenções que prometem mais do que entregam e que, neste caso, mostraram sinais de dano.

Um grande ensaio clínico europeu partiu de uma pergunta direta: a aspirina tomada diariamente poderia impedir que o câncer colorretal voltasse após o tratamento bem-sucedido de metástases no fígado? O estudo ASAC acompanhou 428 pacientes na Noruega, Suécia e Dinamarca entre 2017 e 2022, divididos igualmente entre 160 mg de aspirina por dia e placebo, monitorados por até três anos.

Os resultados, publicados na revista The Lancet Gastroenterology & Hepatology, não sustentaram a hipótese. O tempo mediano até recorrência ou morte foi de 1,13 ano no grupo aspirina e 1,40 ano no grupo placebo — diferença que a análise estatística não considerou significativa. Investigações sobre mutações em PIK3CA e KRAS, que poderiam indicar subgrupos mais responsivos ao medicamento, também não revelaram padrões relevantes.

Mais preocupante foi o dado de sobrevida global: aos 36 meses, 75,7% dos pacientes no grupo aspirina ainda estavam vivos, contra 84,9% no grupo placebo — um risco de morte 64% maior com o medicamento. Os autores reconhecem que a ausência de dados detalhados sobre tratamentos pós-recorrência dificulta a interpretação desse achado, mas o sinal é suficientemente sério para merecer atenção.

Os efeitos adversos graves reforçaram a preocupação: 7,8% dos participantes que tomaram aspirina sofreram eventos sérios, incluindo hemorragias nasais, úlceras duodenais, hemorragia cerebral e infarto do miocárdio, contra apenas 1,9% no grupo placebo. A conclusão dos pesquisadores foi inequívoca: aspirina não deve ser adicionada rotineiramente ao manejo de pacientes nesse contexto específico, pois não oferece o benefício esperado e pode introduzir riscos desnecessários.

Um grande ensaio clínico europeu testou uma ideia simples: poderia a aspirina, tomada diariamente após o tratamento bem-sucedido do câncer colorretal que se espalhou para o fígado, evitar que a doença voltasse? A resposta, publicada na revista The Lancet Gastroenterology & Hepatology, foi não.

O estudo ASAC acompanhou 428 pacientes em centros médicos da Noruega, Suécia e Dinamarca entre dezembro de 2017 e janeiro de 2022. Metade recebeu 160 miligramas de aspirina por dia; a outra metade recebeu placebo. Os pesquisadores os acompanharam por até três anos, ou até que a doença reaparecesse, o paciente morresse ou interrompesse o tratamento. A questão central era clara: a aspirina prolongaria o tempo até a recorrência ou morte?

Os números não apoiaram a hipótese. No grupo que tomou aspirina, o tempo mediano até recorrência ou morte foi de 1,13 ano. No grupo placebo, foi de 1,40 ano — uma diferença que a análise estatística não considerou significativa. O tempo até recorrência isoladamente também não diferiu entre os grupos. Os pesquisadores verificaram se mutações genéticas específicas em PIK3CA ou KRAS poderiam explicar respostas diferentes à aspirina, mas não encontraram evidência disso.

O que preocupou mais foi um achado secundário. Aos 36 meses, 75,7% dos pacientes que tomaram aspirina ainda estavam vivos, comparado com 84,9% daqueles que receberam placebo. O risco de morte foi 64% maior no grupo aspirina — uma diferença que, embora o estudo não tenha sido dimensionado para avaliar esse desfecho com precisão, levanta questões. Os autores reconhecem uma limitação importante: não coletaram dados detalhados sobre quais tratamentos os pacientes receberam após a doença reaparecer, o que dificulta explicar por que a sobrevida global foi pior com aspirina.

Os efeitos colaterais graves também foram mais comuns com aspirina. Dezessete dos 217 pacientes no grupo aspirina (7,8%) sofreram eventos adversos graves, comparado com apenas quatro dos 211 no grupo placebo (1,9%). Hemorragias nasais, úlceras duodenais, hemorragia cerebral e infarto do miocárdio apareceram com maior frequência entre os que tomaram o medicamento. Nenhuma morte foi atribuída diretamente ao tratamento.

Os autores foram claros em suas conclusões: não recomendam iniciar aspirina rotineiramente apenas para prevenir recorrência após o tratamento bem-sucedido de metástases hepáticas de câncer colorretal. É importante notar que o estudo incluiu apenas pessoas que não tomavam aspirina antes — portanto, os resultados não orientam o manejo de pacientes que já estavam usando o medicamento por outra razão médica. O que o ASAC demonstra é que adicionar aspirina como medida preventiva, nesse contexto específico, não oferece o benefício que se esperava e pode trazer riscos desnecessários.

Os autores não apoiam iniciar aspirina rotineiramente apenas para prevenir recorrência após tratamento com intenção curativa das metástases hepáticas
— Conclusão do estudo ASAC publicado no The Lancet Gastroenterology & Hepatology
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