Aprendemos matemática, mas também devemos aprender a salvar vidas
Apenas 20% dos estudantes portugueses identificam corretamente como iniciar manobras de SBV e menos de 3% sabem usar desfibrilhador automático externo. Países nórdicos como Noruega e Dinamarca integram SBV no currículo escolar há décadas, alcançando 90% de população formada e 75% de reanimação iniciada por testemunhas.
- Apenas 20% dos 174 estudantes portugueses identificam corretamente como iniciar manobras de SBV
- Menos de 3% sabem usar desfibrilhador automático externo
- 68% dos profissionais de emergência pré-hospitalar apresentam níveis moderados a elevados de burnout
- Na Noruega, 90% da população recebeu formação em reanimação cardiopulmonar
- Na Dinamarca, reanimação iniciada por testemunhas aumentou de 20% para 75%
Mónica Azevedo apresenta dois estudos no congresso europeu de medicina de emergência sobre lacunas no ensino de Suporte Básico de Vida entre jovens e impacto do burnout na segurança do doente.
Mónica Azevedo, investigadora e profissional de saúde natural de S. Romão do Coronado, apresentará dois estudos no Congresso Europeu de Medicina de Emergência em Paris este ano. Os seus trabalhos tocam em duas realidades que a preocupam profundamente: o despreparo dos jovens portugueses perante emergências cardiorrespiratórias e o desgaste emocional dos profissionais que trabalham nas linhas da frente do sistema de saúde.
O primeiro estudo partiu de uma constatação simples mas perturbadora. Quando alguém sofre uma paragem cardiorrespiratória, os minutos imediatos são decisivos. A sobrevivência depende frequentemente de quem está ao lado conseguir agir com rapidez e conhecimento. Apesar das recomendações europeias para ensinar Suporte Básico de Vida nas escolas, Azevedo percebeu que ninguém tinha dados concretos sobre o que os estudantes portugueses realmente sabiam. Recrutou 174 jovens entre os 12 e os 18 anos e aplicou um questionário estruturado para avaliar conhecimentos práticos, confiança para atuar e experiências anteriores de formação.
Os resultados foram alarmantes. Apenas cerca de 20% dos estudantes conseguiam identificar corretamente como iniciar manobras de reanimação. Menos de 3% sabiam usar um desfibrilhador automático externo, um equipamento que pode fazer a diferença entre a vida e a morte. Mas o dado que mais preocupou Azevedo foi outro: a maioria dos jovens queria ajudar, apoiava a ideia de aprender estas competências, mas quando chegava o momento prático, a confiança desaparecia. Alguns relataram ter vivido situações de emergência sem qualquer preparação prévia, experiências que descreveram como traumáticas. Em cada dez pessoas que Azevedo forma anualmente — cerca de 400 — uma ou duas contam histórias semelhantes: precisaram de agir e não sabiam o que fazer.
A investigadora defende que o Suporte Básico de Vida deveria ser obrigatório no currículo escolar português. A evidência internacional sustenta esta posição. Na Noruega, o ensino de primeiros socorros integra o currículo desde os anos 1960. Hoje, estima-se que 90% da população norueguesa recebeu formação em reanimação cardiopulmonar ao longo da vida. A Dinamarca foi mais longe: integrou o SBV nas escolas e tornou-o obrigatório para obter carta de condução. O resultado foi dramático. As taxas de reanimação iniciada por testemunhas saltaram de cerca de 20% para mais de 75%, acompanhadas por melhorias significativas na sobrevivência após paragem cardiorrespiratória. Portugal tem iniciativas meritórias dispersas, mas nada comparável à implementação sistemática dos países nórdicos.
O segundo estudo de Azevedo aborda uma questão que afeta diretamente a qualidade dos cuidados. O burnout entre profissionais de emergência pré-hospitalar é frequentemente tratado como um problema de bem-estar individual. Mas Azevedo investigou se também influencia a segurança do doente. Os números são preocupantes: 68% dos profissionais apresentam níveis moderados a elevados de burnout; 64% reportaram impacto negativo na tomada de decisão clínica; 72% referiram aumento da perceção do risco de erro. Em contextos onde as decisões são tomadas em segundos e podem determinar se alguém vive ou morre, isto é relevante.
O desgaste emocional reduz a capacidade de concentração, aumenta a fadiga mental, dificulta o processamento de informação. Num turno exigente, torna-se mais difícil priorizar dados, antecipar riscos, manter atenção elevada. Isto não significa que os profissionais deixem de ser competentes, mas que o desempenho humano é influenciado pelas condições em que o trabalho acontece. Azevedo observou ao longo dos anos profissionais altamente experientes enfrentarem dificuldades de desempenho em momentos de pressão extrema — não por falta de conhecimento, mas porque ninguém é imune aos efeitos do cansaço acumulado e da exaustão emocional.
A investigadora insiste que o burnout não é um problema individual a resolver com mais resiliência pessoal. É um problema organizacional. Os profissionais de saúde enfrentam equipas reduzidas, turnos exigentes, acumulação de funções, dificuldade de conciliação entre vida pessoal e profissional. Quando estas condições se prolongam, o desgaste deixa de ser fragilidade individual e passa a ser reflexo de profissionais altamente dedicados que trabalharam demasiado tempo em condições particularmente exigentes. As soluções mais eficazes combinam estratégias individuais e organizacionais: ambientes psicologicamente seguros, formação interna, apoio à liderança, melhoria da comunicação, valorização das equipas. Ouvir os profissionais e envolvê-los nas soluções é fundamental.
A mensagem de Azevedo é clara em ambos os estudos: não estamos perante utopias ou medidas difíceis de implementar. Estamos perante decisões de política educativa e de saúde pública. Os exemplos existem, os resultados são conhecidos, os benefícios estão demonstrados. A questão já não é saber se estas intervenções funcionam. A questão é quanto tempo mais Portugal está disposto a esperar.
Notable Quotes
Enquanto profissional de emergência e formadora, é difícil aceitar que uma pessoa possa perder a vida por ausência de conhecimentos básicos numa situação em que alguém ao lado poderia ter feito a diferença.— Mónica Azevedo
Cuidar dos profissionais não é apenas uma questão de valorização humana, é também uma estratégia fundamental para garantir cuidados mais seguros e de melhor qualidade.— Mónica Azevedo
The Hearth Conversation Another angle on the story
O que a surpreendeu mais nos resultados sobre o conhecimento dos jovens?
A discrepância entre a vontade de ajudar e a preparação real. A maioria dos estudantes reconhecia a importância do tema e apoiava a formação, mas os conhecimentos práticos e a confiança para atuar eram muito reduzidos. Alguns tinham vivido emergências sem qualquer preparação — experiências que descreveram como traumáticas.
Quando olha para os países nórdicos, o que é que eles fizeram diferente?
Trataram o Suporte Básico de Vida como uma competência básica de cidadania, não como um tópico opcional. Na Noruega, está no currículo desde os anos 1960. Na Dinamarca, tornaram-no obrigatório para a carta de condução. Os resultados falam por si: 90% de população formada, 75% de reanimação iniciada por testemunhas.
E quanto ao burnout — por que é que isso importa para a segurança do doente?
Porque o desgaste emocional reduz a concentração, aumenta a fadiga mental, dificulta o processamento de informação. Em emergências, as decisões são tomadas em segundos. Quando existe exaustão acumulada, fica mais difícil priorizar dados, antecipar riscos, manter atenção. Profissionais altamente competentes podem cometer lapsos.
Mas isso não é apenas um problema de bem-estar dos profissionais?
Não. A literatura científica demonstra que influencia a tomada de decisão, a comunicação, o trabalho em equipa e, consequentemente, a segurança dos doentes. No meu estudo, 68% dos profissionais apresentavam níveis moderados a elevados de burnout, e 72% referiram aumento da perceção do risco de erro.
Como é que as instituições podem realmente mudar isto?
Não é apenas aumentar resiliência individual. É criar organizações mais saudáveis — ambientes psicologicamente seguros, formação interna, apoio à liderança, melhoria da comunicação. E ouvir os profissionais. Existem necessidades identificadas pelas próprias equipas que podem ser abordadas através de formação e reforço do apoio organizacional.
Qual é a sua mensagem final para Portugal?
Não estamos perante utopias. Os exemplos existem, os resultados são conhecidos, os benefícios estão demonstrados. A questão já não é saber se funciona. A questão é quanto tempo mais estamos dispostos a esperar.