Uma semana de caminhada se tornou uma ligação rodoviária direta
Nas montanhas de Yunnan, onde o isolamento durou mais de treze séculos, um homem converteu uma ferida de infância em obra coletiva. Si Na Dingzhu, que perdeu parte da visão aos dez anos por não conseguir chegar a tempo a um médico, investiu quase toda a sua fortuna na construção de uma estrada de 59 quilômetros que conectou sua aldeia natal, Balagezong, ao restante da China. O que começou como memória de uma semana de caminhada solitária tornou-se o catalisador de uma transformação econômica, cultural e ambiental que alcança comunidades inteiras — lembrando que infraestrutura, em sua forma mais humana, é também um ato de memória e reparação.
- Por 1.300 anos, Balagezong viveu fechada sobre si mesma — sem médicos acessíveis, sem mercados, sem futuro para os produtos que a terra gerava em abundância.
- Maçãs orgânicas, cogumelos raros e ervas medicinais apodreciam nas montanhas porque não havia como transportá-los, condenando famílias inteiras a uma pobreza silenciosa e invisível.
- Dingzhu apostou quase toda a sua riqueza acumulada em Guangdong em uma única obra que levou dez anos para ser concluída, enfrentando terreno montanhoso e a escala de um projeto que nenhum investidor convencional ousaria assumir.
- Com a abertura da estrada em 2008, produtos antes desperdiçados passaram a gerar renda mensal estável, casas antigas viraram pousadas e museus, e Balagezong foi integrada ao Patrimônio Mundial da Unesco.
- O modelo se expande: aldeias vizinhas acessam empregos sem exigência de escolaridade, e o ecoturismo combina preservação ambiental com revitalização econômica em uma das regiões de maior biodiversidade do planeta.
Si Na Dingzhu tinha dez anos quando uma lesão nos olhos o obrigou a caminhar quase uma semana pelas trilhas de terra de Balagezong até a sede do condado. Quando chegou, o momento crítico do tratamento havia passado. Sua visão nunca se recuperaria completamente. No caminho de volta, o menino começou a imaginar uma estrada.
Décadas depois, já enriquecido após anos de trabalho em Guangdong, Dingzhu retornou à terra natal com um plano e quase toda a sua fortuna. Investiu tudo em uma estrada de 59 quilômetros que atravessaria as montanhas e ligaria Balagezong ao restante da China. O projeto durou dez anos. Em 2008, a estrada foi aberta. Em dezembro de 2009, a região recebeu a segunda classificação mais alta do país para áreas de ecoturismo.
A mudança foi imediata para moradores como Pang Zhuoma, que cultivava maçãs orgânicas que antes apodreciam por falta de transporte. Com a estrada, seus produtos chegaram aos mercados e ela passou a receber uma renda mensal estável — o suficiente para construir uma casa nova. O mesmo ocorreu com cogumelos matsutake, ervas medicinais e outros produtos silvestres que a montanha sempre ofereceu, mas que nunca haviam chegado a compradores.
A transformação foi além da economia. Antigas casas viraram pousadas boutique. As residências tradicionais mais bem conservadas tornaram-se um museu residencial. Canções e costumes do povo Bala, antes confinados às montanhas, passaram a ser compartilhados com visitantes de todo o país e do exterior. Balagezong foi integrada à área dos Três Rios Paralelos, Patrimônio Mundial da Unesco e uma das regiões de maior biodiversidade do planeta.
Os efeitos ultrapassaram os limites da aldeia. Comunidades vizinhas encontraram oportunidades de trabalho ligadas ao turismo, sem exigências de escolaridade que pudessem excluir trabalhadores rurais. O que começou com a memória de um menino que perdeu parte da visão por não haver estrada tornou-se um modelo de redução da pobreza enraizado na história pessoal de quem o construiu.
Si Na Dingzhu era uma criança quando a montanha o cegou. Aos dez anos, uma lesão nos olhos exigiu tratamento urgente, mas Balagezong — sua aldeia natal nas montanhas de Shangri-la, na província de Yunnan — não tinha médicos. Ele caminhou durante quase uma semana pelas trilhas de terra até a sede do condado. Quando chegou, era tarde demais. O momento crítico do tratamento havia passado, e sua visão nunca se recuperaria completamente. No caminho de volta, segundo relatos de Den Zing, um guia local, o menino começou a imaginar algo diferente: uma estrada que conectasse Bala — como os moradores chamam o vilarejo — ao mundo exterior.
Dingzhu saiu de Balagezong e construiu uma fortuna trabalhando em Guangdong. Mas a imagem daquela semana de caminhada nunca o abandonou. Quando retornou à terra natal, já era um homem de negócios bem-sucedido, e tinha um plano. Investiu quase toda a sua riqueza acumulada em uma única obra: uma estrada de 59 quilômetros que atravessaria as montanhas e ligaria Balagezong ao resto da China. O projeto levou dez anos. Em 2008, a estrada foi aberta. Em dezembro de 2009, Balagezong recebeu a segunda classificação mais alta do país para áreas de ecoturismo — uma distinção que exige padrões rigorosos de preservação ambiental e gestão ecológica.
Antes da estrada, a vida econômica de Balagezong era um ciclo de desperdício. Pang Zhuoma, uma moradora, cultivava maçãs frescas e orgânicas, mas não havia forma de levá-las aos mercados. Sem compradores e sem transporte, as frutas apodreciam ou eram destinadas aos porcos. O mesmo acontecia com cogumelos matsutake, ervas medicinais raras e outros produtos silvestres que cresciam abundantemente nas montanhas. A estrada mudou tudo. Produtos que antes se perdiam começaram a gerar renda. Pang passou a receber uma renda mensal estável de alguns milhares de yuans — aproximadamente entre dois mil e quatro mil reais — o suficiente para que sua família construísse uma casa nova.
A transformação de Balagezong não foi apenas infraestrutura. O governo chinês havia lançado políticas de revitalização rural, e a estrada de Dingzhu se tornou o catalisador. Antigas casas foram renovadas e transformadas em pousadas boutique. As duas residências tradicionais mais bem conservadas viraram um museu residencial popular, onde visitantes chineses e estrangeiros aprendem sobre os costumes e o modo de vida do povo Bala — práticas culturais preservadas durante séculos. Canções tradicionais de velório e outros patrimônios imateriais, antes confinados às montanhas, começaram a ser compartilhados com pessoas de outras regiões. Balagezong também foi integrada à área do Patrimônio Mundial da Unesco conhecida como "Três Rios Paralelos", um território que reúne os cursos paralelos dos rios Yangtze, Mekong e Saluém, apontado como uma das áreas de maior biodiversidade do planeta.
Os efeitos da estrada ultrapassaram os limites de Balagezong. Moradores de comunidades vizinhas começaram a encontrar oportunidades de trabalho ligadas ao turismo e às atividades locais. Segundo Pang, as contratações não exigem escolaridade nem estabelecem critérios que excluam trabalhadores das aldeias próximas — um modelo que se aproxima de um programa direcionado de redução da pobreza. Uma viagem que antes exigia vários dias de caminhada agora é feita por uma ligação rodoviária direta. Para Pang, a obra trouxe mais do que renda: trouxe conexão com outras regiões, melhoria nas condições de vida e a possibilidade de construir um futuro para as próximas gerações. Tudo começou com um menino que perdeu parte da visão porque não havia estrada. Treze séculos de isolamento terminaram porque um homem se lembrou daquele menino.
Notable Quotes
As maçãs cultivadas na comunidade, apesar de frescas e orgânicas, não conseguiam chegar aos mercados. Sem compradores e sem transporte, parte das frutas era destinada aos porcos ou deixada para apodrecer.— Pang Zhuoma, moradora de Balagezong
A obra trouxe mais do que renda. A estrada significou conexão com outras regiões, melhoria das condições de vida e a possibilidade de construir um futuro para as próximas gerações.— Pang Zhuoma
The Hearth Conversation Another angle on the story
O que levou Si Na Dingzhu a investir quase toda sua fortuna em uma única estrada?
Uma lesão nos olhos aos dez anos. Ele caminhou uma semana inteira para buscar tratamento médico e chegou tarde demais. Aquela experiência nunca saiu de sua mente.
Mas por que esperar décadas? Por que não construir a estrada mais cedo, quando ficou rico?
Talvez precisasse primeiro sair de lá, ganhar distância, acumular recursos. Às vezes a gente só consegue ver o valor do que perdemos quando estamos longe o suficiente.
E funcionou? A estrada realmente transformou a vida das pessoas?
Maçãs que apodreciam agora geram renda. Famílias construíram casas novas. Mas o mais importante é que as pessoas deixaram de estar presas. Podem estudar, trabalhar, conhecer outras cidades.
Parece quase utópico. Há alguma tensão nessa história?
A tensão está no fato de que tudo dependeu de um homem rico que voltou. E na realidade de que 1.300 anos de isolamento não desaparecem em uma década. Mas a estrada abriu a porta.
E agora? O que vem depois?
Agora Balagezong é patrimônio mundial, recebe turistas, preserva sua cultura enquanto gera renda. O desafio é manter isso sustentável — que a modernidade não apague o que as montanhas protegeram por séculos.