Numa disputa em que Lula e Flávio Bolsonaro seguem empatados a poucas semanas do segundo turno, uma fatia pequena mas decisiva do eleitorado ainda não escolheu lado. É nesse intervalo incerto, onde pouco mais de oito em cada cem eleitores hesitam, que campanhas, militantes e cidadãos comuns tentam, cada um a seu modo, transformar dúvida em voto. O que se vê é a velha política de porta em porta reaparecendo em formato digital, com a esperança de que a conversa vença a inércia.
Apoiadores de Lula e Flávio Bolsonaro intensificam campanha para conquistar indecisos
Na esquerda, o discurso é de pânico.
Por que essa história de conversar com indecisos importa tanto agora?
Porque a pesquisa BTG/Nexus mostra Lula e Flávio empatados e 8,4% de indecisos. Numa disputa assim, cada conversa pode pesar.
E quem está se mobilizando?
Os dois lados. Cerca de seis em cada dez convictos tentam convencer outros: 68,5% entre bolsonaristas e 67,8% entre petistas.
Vale lembrar que isso é um recorte de pesquisa com 2.002 entrevistados e margem de 2 pontos. A diferença entre os grupos é empate técnico.
E o que é a ação em Fortaleza?
Nove amigos criaram o "Procuram-se Indecisos". Vão às ruas com uma faixa e miram os 30 milhões que se abstiveram no primeiro turno.
Mas não sabemos quantos indecisos eles realmente alcançaram. O texto não traz resultado, só o esforço.
A estratégia online também é organizada?
Sim, com grupos de WhatsApp como o "Exército do Lula", comandado por Janones, e postagens coordenadas para subir hashtags.
E o efeito disso sobre o voto? Ninguém mediu. O próprio diretor da Nexus diz que não se sabe a quem a mudança de voto favorecerá.
Há diferença de clima entre os lados?
A reportagem descreve a direita mais leve, tentando manter a liderança, e a esquerda em tom de pânico.
Essa é a leitura do jornal, não um dado medido.
Il Polso
- Lula e Flávio Bolsonaro estão empatados, e pouco mais de 8% dos eleitores seguem indecisos, uma margem que pode decidir tudo.
- Nas redes, grupos de WhatsApp, hashtags coordenadas e buscas direcionadas disputam a atenção de quem ainda não se decidiu, enquanto o clima entre apoiadores esquenta.
- Nas ruas, militantes de esquerda e de direita abordam eleitores em praças, cafés e atos, e até uma compra na farmácia virou palco de provocação política.
- A direita aposta em comícios leves e em vídeos de rua para manter a liderança, enquanto a esquerda trabalha com um tom de alarme sobre o futuro do país.
- Nenhum dos lados controla o desfecho: o voto indeciso, ainda sem direção, pode levar qualquer candidato à vitória.
Numa disputa em que Lula e Flávio Bolsonaro seguem empatados a poucas semanas do segundo turno, uma fatia pequena mas decisiva do eleitorado ainda não escolheu lado. É nesse intervalo incerto, onde pouco mais de oito em cada cem eleitores hesitam, que campanhas, militantes e cidadãos comuns tentam, cada um a seu modo, transformar dúvida em voto. O que se vê é a velha política de porta em porta reaparecendo em formato digital, com a esperança de que a conversa vença a inércia.
Num caixa de farmácia, alguém decidiu anunciar em voz alta que pagaria no Pix enquanto ainda era grátis, afirmando que Flávio Bolsonaro entregaria o sistema aos Estados Unidos. Um cliente o encarou com desaprovação, outro sorriu. Pequenas cenas como essa resumem o espírito da reta final: a disputa por quem ainda não escolheu chegou às conversas do dia a dia.
A mobilização vem de todos os lados. A campanha do PT publicou um vídeo com trechos de Lula aconselhando eleitores a dialogar com quem rejeita o seu nome, e iniciativas espontâneas circulam nas redes com guias para abordar indecisos, ouvindo preocupações, apontando falhas do adversário e até fingindo dúvida. Dentro da campanha petista, grupos de WhatsApp coordenam postagens que levam hashtags aos destaques do X.
Em Fortaleza, nove amigos criaram o projeto "Procuram-se Indecisos", que combina edição de vídeos com conversas em espaços públicos. O alvo são os cerca de 30 milhões que se abstiveram no primeiro turno. Para eles, atuar em grupo tem sido um respiro, e as pessoas pessoalmente parecem menos cruéis do que na internet.
Já o músico Vitor Brauer aposta no volume: comenta, responde e compartilha tudo o que seja claro sobre as propostas, enquanto parte de seus seguidores de direita o deixou e outros grupos reagiram com críticas.
Os números dão a dimensão da disputa: segundo a pesquisa BTG/Nexus, cerca de seis em cada dez eleitores convictos de cada lado dizem atuar para converter votos, e Flávio e Lula seguem empatados. À direita, Pablo Marçal tenta convencer eleitores na rua e Tarcísio Freitas pediu a estudantes que mobilizem colegas. O tom, porém, difere: a direita busca manter a liderança com clima leve, enquanto a esquerda fala em pânico. O desfecho depende, afinal, de para onde irá o voto que ainda não tem dono.
No caixa de uma farmácia, uma pessoa anunciou em voz alta que pagaria no Pix "enquanto é grátis", porque, na sua versão, Flávio Bolsonaro (PL) entregaria o sistema aos Estados Unidos, que passariam a cobrar. Contou depois, numa postagem no X, que um cliente a olhou feio e outro sorriu. Essa tática, falar em público que o candidato do PL acabaria com o Pix, é uma das usadas hoje na disputa por votos indecisos no segundo turno.
A mobilização para "virar votos" vem de todos os lados. Em 17 de outubro, cerca de duas semanas depois do primeiro turno, a campanha do PT publicou um vídeo vertical com recortes de Lula aconselhando eleitores a conversar com quem rejeita sua figura. Com animações em estilo videogame e música eletrônica ao fundo, o vídeo funciona como um manual de conversa.
Iniciativas espontâneas, sem vínculo com a campanha oficial, seguem o mesmo caminho. Nos stories do Instagram, no X e no TikTok circulam guias de como abordar indecisos: ouvir as preocupações da pessoa, apontar defeitos de Flávio, falar das propostas de Lula e até fingir-se indeciso ou dizer que votou em candidatos derrotados no primeiro turno, como Renan Santos (Missão) ou Augusto Cury (Avante).
Lula terminou o primeiro turno atrás de Flávio por cerca de 3 milhões de votos. Desde então, a campanha petista tenta conquistar indecisos, nulos e eleitores de outros candidatos. A orientação sai da campanha, centralizada em grupos de WhatsApp como o "Exército do Lula", comandado pelo deputado André Janones (Rede-MG), mas aparece também de modo orgânico. Apoiadores orientados por Janones fazem postagens coordenadas para levar hashtags aos destaques do X e tentam influenciar buscas na internet: milhares de publicações pedem que se pesquise no Google "Flávio caso Ana Clara".
Em Fortaleza, nove amigos — Rosana Braga Reis, Naiana Gomes, Pâmela Canário, Tiego Campos, Brenda Louise, Raquel Gomes, Fernanda Costa, Hermínia Vieira e Aloísio Macedo — fundaram o projeto "Procuram-se Indecisos". Jornalistas, artistas, pedagogos e advogados, dividem-se entre tarefas online, como editar vídeos para o perfil do projeto no Instagram, e offline: levam uma faixa com o nome da iniciativa a espaços públicos e conversam com quem se interessa. O alvo são os 30 milhões de eleitores que se abstiveram no primeiro turno. Em nota, dizem que atuar em grupo tem sido "um respiro em meio ao caos" e que as pessoas, na vida real, são menos cruéis que na internet.
O músico independente Vitor Brauer, com cerca de 28 mil seguidores no Instagram, passa ainda mais tempo nas telas. Sua estratégia é o volume: comentar, responder, compartilhar e curtir tudo o que seja simples e claro sobre as posições dos candidatos, além de apontar hipocrisias do outro lado e incentivar os fãs, em sua maioria jovens, a votar. Segundo ele, a maioria o recebeu bem, mas cerca de mil dos 24 mil seguidores, de direita, deixaram de segui-lo no início, e houve reações negativas também de parte da extrema esquerda, de anarquistas e de apolíticos.
Um recorte da pesquisa BTG/Nexus, publicado no Estado de S. Paulo na terça-feira (20), indica que cerca de seis em cada dez eleitores convictos de Flávio e de Lula atuam para virar votos: 68,5% entre os bolsonaristas e 67,8% entre os petistas, empate técnico. Foram ouvidas 2.002 pessoas em todo o país, com confiança de 95% e margem de erro de 2 pontos percentuais. Flávio e Lula aparecem empatados no segundo turno, e 8,4% seguem indecisos. Para Marcelo Tokarski, diretor da Nexus, o número mostra que a eleição não está definida; há predisposição, não pequena, de mudar de voto, e não se sabe quem ela favorecerá.
Na direita, o incentivo aparece em discursos em atos. Pablo Marçal, que concorreu à Prefeitura de São Paulo em 2024 e está inelegível até 2028, publicou vídeos em que tenta virar votos na rua. Num deles, gastou oito minutos com um eleitor que votaria nulo. "Vamos só tirar o PT", disse; o eleitor respondeu: "Vou pensar". Em ato de estudantes de direita no Insper, em São Paulo, o governador Tarcísio Freitas (Republicanos) pediu aos jovens que virassem votos, e o grupo Direita Mackenzista diz fazer rodas de conversa na faculdade.
O tom difere: a direita busca manter a liderança, com clima mais leve; na esquerda, o discurso é de pânico. O desfecho depende de para onde irá o voto indeciso.
Citazioni salienti
O dado de 8,4% de eleitores não convictos mostra que a eleição não está definida; não sabemos se a mudança favorecerá Lula ou Flávio.— Marcelo Tokarski, diretor da Nexus
Atuar coletivamente tem sido um respiro em meio ao caos; as pessoas na vida real são menos cruéis que na internet.— Grupo Procuram-se Indecisos, em nota