Por décadas, a medicina celebrou a perda de peso sem questionar o que, exatamente, estava sendo perdido. Agora, à medida que os agonistas de GLP-1 transformam o tratamento da obesidade em escala global, uma pergunta incômoda emerge: e o músculo que vai junto? O apitegromabe, um anticorpo monoclonal testado em estudo publicado na Nature Medicine, sugere que é possível preservar a massa magra enquanto o corpo emagrece — abrindo um capítulo novo na história de como a medicina entende não apenas o peso, mas a qualidade do corpo que permanece.
Apitegromabe preserva massa muscular em tratamento com agonistas de GLP-1
Apenas 14,6% de perda muscular contra 30,2% no placebo
Por que a perda de massa magra é um problema tão grande se a pessoa está emagrecendo?
Porque músculo não é só estética. É o que mantém você forte, ativo, com metabolismo funcionando. Se você perde 20 quilos mas metade disso é músculo, você fica fraco, cansado mais fácil, e seu metabolismo desacelera — o que pode dificultar manter o peso depois.
Mas o estudo mostrou que a perda total de peso foi igual nos dois grupos, certo? Então o apitegromabe não fez ninguém emagrecer mais.
Exato. O que ele fez foi mudar a qualidade dessa perda. Mesma quantidade de peso, mas mais gordura e menos músculo.
E quanto tempo leva para saber se isso realmente melhora a vida das pessoas?
Aí está o ponto. O estudo durou 24 semanas. Os pesquisadores dizem que precisam de estudos maiores e mais longos para saber se essa preservação muscular se traduz em mais força, melhor função física, qualidade de vida melhor a longo prazo.
Então tecnicamente ainda não sabemos se preservar músculo durante o emagrecimento com GLP-1 realmente importa clinicamente.
Não sabemos ainda. É uma prova de conceito promissora, mas não é prova de benefício real.
E esse bimagrumabe que mencionaram, é melhor?
Diferente, não necessariamente melhor. Funciona de forma ligeiramente diferente, bloqueando outro alvo. Mostrou resultados semelhantes em um estudo também de fase 2.
E há uma complicação: o bimagrumabe foi testado com semaglutida, não com tirzepatida. A Eli Lilly está testando a combinação agora, mas os resultados ainda não saíram.
Então estamos em um momento onde temos duas drogas promissoras, mas ainda não sabemos o suficiente.
Exatamente. É pesquisa em movimento. Os resultados são animadores, mas ainda há muitas perguntas sem resposta.
O Pulso
- Medicamentos como tirzepatida e semaglutida causam perda de até 40% de massa muscular junto com a gordura, comprometendo força, metabolismo e mobilidade dos pacientes.
- O apitegromabe, ao bloquear a miostatina — proteína que degrada o músculo —, reduziu a perda de massa magra em 54,9% em comparação ao grupo placebo, sem comprometer o emagrecimento total.
- Pesquisadores de Cambridge e Aberdeen alertam que os resultados, embora promissores, ainda precisam ser confirmados em estudos maiores e mais longos antes de qualquer conclusão sobre força física e qualidade de vida.
- O bimagrumabe, anticorpo rival desenvolvido pela Novartis e agora nas mãos da Eli Lilly, mostrou resultados semelhantes em combinação com semaglutida, com menos de 10% de perda muscular em 72 semanas.
- A corrida farmacêutica para combinar emagrecimento com preservação muscular está em curso, com a Eli Lilly aguardando resultados de testes que unem bimagrumabe ao seu próprio Mounjaro ainda este ano.
Por décadas, a medicina celebrou a perda de peso sem questionar o que, exatamente, estava sendo perdido. Agora, à medida que os agonistas de GLP-1 transformam o tratamento da obesidade em escala global, uma pergunta incômoda emerge: e o músculo que vai junto? O apitegromabe, um anticorpo monoclonal testado em estudo publicado na Nature Medicine, sugere que é possível preservar a massa magra enquanto o corpo emagrece — abrindo um capítulo novo na história de como a medicina entende não apenas o peso, mas a qualidade do corpo que permanece.
Os agonistas de GLP-1 revolucionaram o tratamento da obesidade com perdas de peso superiores a 20% do corpo. Mas há um custo silencioso: cerca de 40% dessa perda não é gordura — é músculo. O músculo esquelético sustenta força, metabolismo e mobilidade, e sua perda compromete a saúde de forma que os números na balança não revelam.
O apitegromabe, anticorpo monoclonal desenvolvido pela Scholar Rock, foi criado originalmente para tratar atrofia muscular espinhal. Com o crescimento das chamadas "canetas emagrecedoras", a empresa enxergou uma nova aplicação e testou o medicamento em pessoas com obesidade. Em um estudo publicado na Nature Medicine, 102 adultos foram divididos entre receber apenas tirzepatida ou tirzepatida combinada com apitegromabe por 24 semanas. A perda de peso total foi equivalente nos dois grupos — mas a composição foi radicalmente diferente. Quem recebeu o novo medicamento perdeu apenas 14,6% de massa magra, contra 30,2% no grupo placebo. Em termos práticos, 1,9 quilo a menos de músculo perdido, com boa tolerabilidade.
Especialistas externos ao estudo reconheceram o potencial, mas pediram cautela. Marie Spreckley, da Universidade de Cambridge, destacou que estudos maiores e mais longos são necessários para confirmar se os ganhos se traduzem em melhoras reais de força e qualidade de vida. Brendan Gabriel, da Universidade de Aberdeen, lembrou que anticorpos monoclonais não funcionam igualmente em todos os contextos clínicos — embora reconheça que para pacientes com obesidade sarcopênica a abordagem pode ser especialmente relevante.
O apitegromabe não está sozinho. O bimagrumabe, outro anticorpo monoclonal com mecanismo ligeiramente diferente, mostrou resultados semelhantes em combinação com semaglutida: perda de 22,1% do peso em 72 semanas, com menos de 10% sendo massa muscular. Desenvolvido pela Novartis, o medicamento passou pela Versanis Bio até chegar à Eli Lilly — fabricante do Mounjaro —, que agora testa sua combinação com tirzepatida. Os resultados são esperados ainda este ano. O horizonte que se desenha não é apenas o de emagrecer, mas o de emagrecer preservando o que realmente importa.
Os medicamentos para emagrecimento conhecidos como agonistas de GLP-1 conquistaram a medicina com resultados impressionantes — reduções de peso que ultrapassam 20% do corpo. Mas há um problema incômodo escondido nessas cifras: cerca de 40% dessa perda não é gordura. É músculo. Um novo medicamento chamado apitegromabe pode mudar essa equação.
O músculo esquelético não é apenas uma questão de aparência. É o que sustenta a força, o metabolismo, a capacidade de se mover. Quando alguém toma tirzepatida — o princípio ativo do Mounjaro — ou semaglutida, do Ozempic e Wegovy, o corpo emagrece, mas perde músculo junto. Laboratórios ao redor do mundo começaram a perguntar: e se pudéssemos bloquear essa perda muscular enquanto mantemos o emagrecimento?
O apitegromabe é um anticorpo monoclonal desenvolvido pela empresa americana Scholar Rock. Sua estratégia é simples: bloquear a miostatina, uma proteína que degrada o músculo. Inicialmente, o medicamento foi concebido para tratar atrofia muscular espinhal, uma doença genética rara. Mas com o boom das "canetas emagrecedoras", Scholar Rock viu uma oportunidade maior e começou a testar a droga também em pessoas com obesidade.
Em um estudo publicado na revista Nature Medicine, 102 adultos com sobrepeso ou obesidade foram divididos em dois grupos. Um recebeu apenas tirzepatida durante 24 semanas. O outro recebeu tirzepatida mais apitegromabe — uma infusão intravenosa a cada quatro semanas. Ninguém sabia em qual grupo estava, para evitar que expectativas influenciassem os resultados. Ao final, a perda total de peso foi praticamente igual entre os dois grupos. Mas a composição dessa perda foi radicalmente diferente. No grupo que recebeu apitegromabe, apenas 14,6% da perda de peso veio de massa magra. No grupo placebo, foram 30,2%. Em números absolutos: as pessoas que receberam o novo medicamento perderam 1,9 quilos menos de músculo — uma retenção 54,9% maior. E o apitegromabe foi bem tolerado, com efeitos colaterais semelhantes ao placebo.
Marie Spreckley, pesquisadora de diabetes e distúrbios metabólicos da Universidade de Cambridge, que não participou do estudo, chamou os resultados de promissores. Mas fez uma ressalva importante: "Serão necessários estudos maiores e mais longos para determinar se essas mudanças se traduzem em melhorias significativas de força, função física, qualidade de vida ou outros desfechos de saúde de longo prazo." Brendan Gabriel, professor do Instituto Rowett de Nutrição e Saúde da Universidade de Aberdeen, foi mais cauteloso ainda. Lembrou que anticorpos monoclonais "podem ser eficazes em algumas situações clínicas, mas não em todas", e que talvez não sejam tão amplamente aplicáveis quanto outras terapias para obesidade. Ainda assim, reconheceu que para pessoas com obesidade sarcopênica — aquelas que perdem músculo mais rapidamente que o normal — essa abordagem pode ser promissora.
O apitegromabe não está sozinho nessa corrida. Outro medicamento, o bimagrumabe, também um anticorpo monoclonal, foi testado com semaglutida e mostrou resultados semelhantes em um estudo publicado em março deste ano, também na Nature Medicine. Com a combinação, a perda de peso chegou a 22,1% após 72 semanas, com menos de 10% sendo massa muscular — contra quase 30% entre quem recebeu apenas semaglutida. O bimagrumabe funciona de forma ligeiramente diferente: bloqueia as vias de sinalização de um receptor no tecido muscular chamado activina.
A história do bimagrumabe é um mapa das consolidações farmacêuticas. Desenvolvido pela Novartis, foi adquirido pela Versanis Bio, que depois foi comprada pela Eli Lilly — fabricante do Mounjaro. Por isso o estudo usou semaglutida, não tirzepatida. Mas a Eli Lilly agora conduz seus próprios testes combinando bimagrumabe com tirzepatida, e os resultados são esperados para este ano. A expectativa é alta porque o Mounjaro promove uma perda de peso maior que o Wegovy. O que vem pela frente é um refinamento da medicina da obesidade: não apenas emagrecer, mas emagrecer preservando o que importa.
Citações Notáveis
Serão necessários estudos maiores e mais longos para determinar se essas mudanças se traduzem em melhorias significativas de força, função física, qualidade de vida ou outros desfechos de saúde de longo prazo.— Marie Spreckley, pesquisadora da Universidade de Cambridge
Para pessoas que vivem com obesidade sarcopênica, esta pode ser uma abordagem promissora.— Brendan Gabriel, professor do Instituto Rowett de Nutrição e Saúde