Promover acesso democrático a bebidas é promover que não haja diferenciação entre adeptos
Nos estádios portugueses, o acesso a bebidas alcoólicas divide-se há muito entre quem ocupa camarotes e quem ocupa as bancadas comuns — uma distinção que espelha, em miniatura, desigualdades mais amplas na forma como as instituições tratam os seus públicos. A Associação de Adeptos (APDA) apoia a proposta da Liga Portuguesa de expandir esse acesso, mas recusa a linguagem que a envolve: o que está verdadeiramente em causa não é uma concessão nova, mas o reconhecimento de que o adepto comum merece a mesma hospitalidade que o cliente VIP. Neste debate sobre cerveja e sidra nos estádios, Portugal confronta uma questão mais antiga — quem pertence plenamente ao espaço público que diz amar.
- A divisão entre camarotes com bar aberto e bancadas com acesso restrito criou dois tipos de adepto dentro do mesmo recinto, e essa tensão chegou finalmente ao centro do debate futebolístico português.
- A Liga Portuguesa anunciou conversações com o Governo sobre bebidas de baixo teor alcoólico, mas a APDA acusa a organização de apresentar a proposta de forma populista, ocultando que o verdadeiro problema é a discriminação no acesso.
- Muitos adeptos chegam aos jogos já com álcool no sangue, consumido nas ruas próximas sem qualquer regulação — um padrão que a venda controlada dentro dos estádios poderia inverter.
- O Vitória de Guimarães propôs na reunião magna da Liga que clubes e organização subscrevam uma petição à Assembleia da República para legalizar a venda regulada em todas as bancadas, alinhando Portugal com as ligas inglesa, alemã e holandesa.
- A presidente da APDA, Martha Gens, apoia a medida mas avisa que há prioridades mais urgentes: casas de banho adequadas para mulheres e sistemas de segurança que não submetam crianças a revistas invasivas.
Nos estádios portugueses, a lei já permite venda de bebidas alcoólicas — mas apenas nos camarotes e zonas VIP. Nas bancadas comuns, onde se senta a maioria dos espectadores, o acesso é restrito ou inexistente. Esta divisão tornou-se o centro de um debate que ganhou força quando o presidente da Liga Portuguesa anunciou conversações com o Governo sobre expandir a venda de bebidas de baixo teor alcoólico a todos os setores.
A Associação de Adeptos (APDA) respondeu com apoio, mas com uma correção de fundo. Martha Gens, presidente da organização, sublinha que o problema não é técnico — bebidas de baixo teor já são permitidas em certas zonas. O que está em causa é a democratização do acesso: oferecer ao adepto comum o que está disponível para quem paga lugares premium. Gens acusa a Liga de apresentar a proposta de forma imprecisa, escondendo que a verdadeira questão é eliminar a diferenciação entre adeptos de primeira e segunda classe.
O argumento da APDA tem também uma dimensão de segurança. Atualmente, muitos adeptos chegam aos estádios com níveis elevados de álcool no sangue, consumido nas ruas próximas sem regulação. Permitir venda controlada dentro dos recintos combateria este padrão e reduziria o risco de violência no espaço público. Gens cita o exemplo do Bayern Munique, onde uma cerveja custa entre cinco e seis euros, e aponta as receitas geradas nas ligas inglesa, alemã e holandesa como oportunidade que Portugal desperdiça.
O Vitória de Guimarães levou a proposta à reunião magna da Liga, sugerindo que clubes e organização subscrevam uma petição pública à Assembleia da República para legalizar a venda regulada em todas as bancadas. Gens apoia a iniciativa, mas lembra que a APDA tem prioridades mais imediatas: casas de banho com papel higiénico e fraldários para mulheres, e sistemas de segurança que não submetam crianças a revistas invasivas.
Para a presidente da APDA, o debate sobre bebidas é um sintoma de algo maior: a necessidade de colocar a hospitalidade do adepto comum no centro das preocupações dos clubes e da Liga. Uma boa liga, diz Gens, não se constrói apenas com bom futebol — constrói-se também com o cuidado que se tem por quem enche os estádios.
A venda de bebidas alcoólicas nos estádios portugueses já é legal — mas apenas em certos lugares. Nos camarotes e zonas VIP, os adeptos encontram vinho, cerveja e bebidas de qualquer teor alcoólico. Nas bancadas comuns, onde fica a maioria dos espectadores, a lei restringe o acesso apenas a bebidas de baixo teor alcoólico, ou nem isso. Esta divisão é o ponto de partida de um debate que ganhou força quando o presidente da Liga Portuguesa de Futebol Profissional anunciou conversações com o Governo sobre expandir a venda de bebidas de baixo teor alcoólico para todas as áreas dos estádios.
A Associação de Adeptos (APDA) respondeu com apoio à ideia, mas com uma correção importante. Martha Gens, presidente da organização, insiste que o problema não é permitir bebidas de baixo teor alcoólico — isso já é permitido em zonas específicas. O que está realmente em questão é a democratização do acesso, ou seja, oferecer as mesmas bebidas aos adeptos comuns que estão disponíveis para os que ocupam lugares premium. Gens acusa a Liga de apresentar a questão de forma populista e imprecisa, escondendo a verdadeira natureza da proposta: eliminar a diferenciação entre adeptos de primeira e segunda classe.
O argumento da APDA vai além da igualdade simbólica. Gens defende que melhorar a hospitalidade nos estádios — oferecendo bebidas a preços acessíveis em todos os setores — cria um efeito em cascata que beneficia toda a experiência do adepto e, por extensão, a segurança. Quando as pessoas têm acesso a bebidas controladas dentro do recinto, deixam de consumir no exterior em condições menos reguladas. Atualmente, muitos adeptos chegam aos estádios já com níveis elevados de álcool no sangue, tendo consumido bebidas de maior teor alcoólico nas ruas próximas. Permitir venda regulada dentro do estádio combateria este padrão e evitaria que pessoas entrassem tarde nos recintos, perturbando o início dos jogos.
A presidente da APDA aponta exemplos internacionais para sustentar a posição. No estádio do Bayern Munique, uma cerveja custa entre cinco e seis euros — um preço que torna a bebida acessível mas não gratuita. Nas ligas inglesa, alemã e holandesa, a venda de cerveja e sidra nos estádios gera receitas que podem chegar a centenas de milhares de euros por jogo. Portugal fica para trás nesta oportunidade económica e, mais importante, numa oportunidade de criar um ambiente mais acolhedor e seguro.
Mas Gens é clara: apoiar a medida não significa que seja a prioridade máxima da APDA. Há outras questões que considera mais urgentes — papel higiénico e fraldários nas casas de banho das mulheres, sistemas de segurança melhorados à entrada dos estádios para evitar revistas invasivas de crianças pequenas. A democratização de bebidas alcoólicas é um passo numa direção mais ampla, a de colocar a hospitalidade do adepto no centro das preocupações dos clubes e da Liga.
O Vitória de Guimarães levou a questão à reunião magna da Liga na terça-feira, propondo que a organização e os clubes subscrevam uma petição pública a apresentar à Assembleia da República. O objetivo é legalizar a venda regulada de bebidas em todas as bancadas dos estádios, alinhando Portugal com as práticas das principais ligas europeias. O clube argumenta que a atual restrição empurra os adeptos para o consumo descontrolado no exterior, aumentando o risco de violência no espaço público — um problema que a regulação interna poderia mitigar.
O debate revela uma tensão entre a forma como a Liga apresenta a proposta e o que os adeptos realmente querem. Não se trata apenas de permitir bebidas de baixo teor alcoólico, mas de reconhecer que a experiência do adepto comum merece o mesmo cuidado e acesso que a do cliente VIP. Para Gens, uma boa liga não se constrói apenas com bom futebol — os suecos têm um futebol mediocre e raramente competem na Europa, mas têm adeptos excelentes. Portugal pode aprender com isso.
Notable Quotes
O que está em causa não é permitir bebidas de baixo teor alcoólico, mas que se possa beber em todos os setores dos estádios e que estejam ao alcance dos adeptos comuns— Martha Gens, presidente da APDA
Se promovemos acesso democrático a bebidas de baixo teor alcoólico promovemos que não haja diferenciação entre adeptos de primeira e de segunda— Martha Gens, presidente da APDA
The Hearth Conversation Another angle on the story
A APDA diz que apoia a proposta, mas não é uma prioridade. Como é que se apoia algo que não é prioritário?
Porque há diferença entre concordar que algo é bom e achar que é o mais urgente. A APDA quer bebidas acessíveis em todos os setores, mas preferia primeiro papel higiénico nas casas de banho e segurança melhorada à entrada. São batalhas diferentes.
Martha Gens critica a Liga por apresentar a questão de forma populista. O que quer dizer com isso?
Que a Liga está a fazer parecer que está a permitir algo novo, quando na verdade já é legal vender bebidas alcoólicas nos estádios. O que falta é expandir o acesso aos adeptos comuns, não criar uma permissão do zero. É uma diferença importante.
Por que razão é que permitir bebidas nos estádios reduz a violência?
Porque agora os adeptos bebem fora, em bares e ruas, sem controlo. Chegam ao estádio já embriagados. Se pudessem beber dentro, de forma regulada e a preços razoáveis, entrariam mais calmamente e com níveis de álcool mais baixos.
O exemplo do Bayern Munique — cerveja a cinco ou seis euros — é caro ou barato?
É acessível. Não é grátis, portanto as pessoas escolhem. Mas está ali, disponível, sem diferença entre quem tem lugar VIP e quem está na bancada comum. Isso é o que a APDA quer.
A APDA fala em "adeptos de primeira e segunda classe". Isso é mesmo sobre bebidas?
É sobre isso e sobre muito mais. É sobre o recado que se envia: alguns adeptos merecem conforto e acesso, outros não. Melhorar a hospitalidade para todos muda essa mensagem e, segundo Gens, melhora tudo o resto — segurança, comportamento, experiência geral.