Em um tempo em que a promessa de corpos transformados se tornou um dos maiores fenômenos farmacêuticos da história, a Anvisa se vê diante de uma questão que toca o limite entre o benefício e o dano invisível: 13 pacientes que usavam agonistas de GLP-1 desenvolveram uma condição rara que pode apagar a visão de forma súbita e permanente. A neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica age como um infarto silencioso no nervo que une o olho ao cérebro, e sua possível ligação com medicamentos como Ozempic e Wegovy ainda não foi provada — mas tampouco descartada. A ciência caminha com cautela,
Anvisa investiga 13 casos de cegueira súbita ligados a canetas emagrecedoras
Quando os pequenos vasos entopem, as células nervosas morrem
Por que essa investigação da Anvisa está acontecendo agora? Esses medicamentos estão no mercado há anos.
Porque os casos começaram a se acumular no sistema de farmacovigilância, e um estudo científico publicado em uma revista respeitada encontrou um risco quatro a sete vezes maior de Noia em pacientes usando semaglutida. Isso chamou atenção.
Mas o próprio estudo admite que não prova causa e efeito, certo? Os pacientes tinham diabetes e outras condições que já causam essa doença.
Exato. Por isso a Anvisa ainda classifica todos os 13 casos como suspeitos. Ninguém está dizendo que o medicamento definitivamente causa a cegueira.
E as fabricantes? O que elas dizem?
Que fizeram análises internas e não encontraram aumento de casos. Que o balanço benefício-risco continua favorável.
Análises internas delas mesmas. Não é exatamente uma fonte independente.
Verdade. Por isso a Anvisa está investigando, não aceitando simplesmente o que as empresas dizem.
Quantas pessoas estamos falando aqui? Treze casos em quantos usuários?
Ótima pergunta. A reportagem não diz. Sabemos que há 13 casos suspeitos de Noia, mas não sabemos quantas pessoas usam esses medicamentos no Brasil.
O que sabemos é que desde 2018 foram registradas 24 suspeitas de neuropatia óptica no total, e 74 outras complicações visuais. Então há um padrão sendo monitorado.
Isso significa que o medicamento deve ser retirado do mercado?
Não necessariamente. A Anvisa já colocou a Noia na bula como reação adversa muito rara. Agora está investigando se a relação é real.
El Pulso
- Treze pacientes brasileiros desenvolveram uma lesão que funciona como um infarto no nervo óptico após usar canetas emagrecedoras, com risco de perda permanente da visão em um dos olhos.
- Um estudo publicado na JAMA Ophthalmology aponta risco quatro a sete vezes maior de Noia entre usuários de semaglutida, acendendo um alerta que a comunidade médica ainda não sabe como dimensionar.
- Novo Nordisk e Eli Lilly contestam qualquer relação causal, enquanto nos Estados Unidos um grupo de pacientes já ingressou com processos judiciais contra a fabricante do Ozempic.
- A Anvisa antecipou uma resposta regulatória em junho de 2025, exigindo que a Noia constasse na bula como reação adversa muito rara — mas todos os 13 casos seguem classificados como suspeitos, sem causalidade confirmada.
- A investigação permanece aberta, com 74 outros registros de complicações visuais associadas a esses medicamentos no painel de farmacovigilância da agência, sinalizando que o monitoramento está longe do fim.
Em um tempo em que a promessa de corpos transformados se tornou um dos maiores fenômenos farmacêuticos da história, a Anvisa se vê diante de uma questão que toca o limite entre o benefício e o dano invisível: 13 pacientes que usavam agonistas de GLP-1 desenvolveram uma condição rara que pode apagar a visão de forma súbita e permanente. A neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica age como um infarto silencioso no nervo que une o olho ao cérebro, e sua possível ligação com medicamentos como Ozempic e Wegovy ainda não foi provada — mas tampouco descartada. A ciência caminha com cautela, os fabricantes negam causalidade, e os pacientes aguardam respostas em um território onde a certeza ainda não chegou.
A Anvisa investiga 13 notificações de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica — a Noia — em pacientes que usavam agonistas de GLP-1, a classe de medicamentos que inclui as populares canetas emagrecedoras. A condição funciona como um infarto no nervo óptico: quando os pequenos vasos que o alimentam entopem, as células nervosas morrem e a visão piora de forma abrupta, muitas vezes sem recuperação completa.
O Ozempic lidera as notificações com cinco casos, seguido por Wegovy com três, Rybelsus com dois e Mounjaro com um. No sistema da agência, doze casos estão vinculados à semaglutida e um à tirzepatida. As fabricantes Novo Nordisk e Eli Lilly contestam qualquer relação causal, citando análises internas que não identificaram aumento da doença em seus ensaios clínicos. A Anvisa reforça que a coincidência entre o uso do medicamento e o surgimento da doença não constitui, por si só, prova de causalidade.
O tema voltou aos holofotes esta semana com a revelação, pelo Wall Street Journal, de que um grupo de pacientes americanos processou a Novo Nordisk alegando risco de perda de visão. A evidência científica mais robusta vem de um estudo na JAMA Ophthalmology que analisou mais de 1,6 mil prontuários e encontrou risco quatro a sete vezes maior de Noia entre usuários de semaglutida — mas os próprios autores reconhecem limitações, já que muitos pacientes também tinham diabetes, condição que por si só pode provocar a doença.
Mesmo sem comprovação definitiva, a Anvisa determinou em junho de 2025 que a Noia fosse incluída na bula da semaglutida como reação adversa muito rara. Desde 2018, o painel de farmacovigilância da agência acumula 24 suspeitas de neuropatia isquêmica óptica no total, além de 74 registros de outras complicações visuais associadas a esses medicamentos. A investigação segue aberta enquanto a ciência busca respostas que ainda não chegaram.
A Anvisa está investigando 13 casos de uma doença rara que causa cegueira súbita em pacientes que usam medicamentos emagrecedores populares. A condição em questão é a neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica, conhecida como Noia — uma lesão que funciona como um infarto no nervo óptico, aquele que conecta o olho ao cérebro. Quando os pequenos vasos sanguíneos que alimentam essa região entopem, as células nervosas morrem, provocando uma piora abrupta da visão em um dos olhos, muitas vezes sem recuperação completa.
Os 13 casos suspeitos envolvem pacientes que faziam uso de agonistas de GLP-1, a classe de medicamentos que inclui as famosas canetas emagrecedoras. O levantamento mostra que Ozempic lidera com cinco notificações, seguido por Wegovy com três, Wegovy FlexTouch com duas, Rybelsus com duas e Mounjaro com uma. A Anvisa esclarece que esses números podem ser reorganizados conforme o critério utilizado: no sistema da agência, doze casos estão ligados à semaglutida, o princípio ativo de Ozempic, Wegovy e Rybelsus, enquanto um caso envolve tirzepatida, o princípio ativo do Mounjaro.
As fabricantes contestam qualquer relação causal. A Novo Nordisk, que produz Ozempic, Wegovy e Rybelsus, afirma que uma análise interna de seus ensaios clínicos não identificou aumento de casos da doença associado à semaglutida, e que o balanço entre benefícios e riscos do medicamento permanece favorável. A Eli Lilly, responsável pelo Mounjaro, diz que mantém monitoramento constante dos dados de segurança de seus produtos, incluindo eventos oftalmológicos. A Anvisa reforça que os casos ainda estão em fase de apuração e que o simples fato de um paciente ter usado o medicamento e desenvolvido a doença não constitui, por si só, prova de causalidade.
A discussão ganhou novo impulso esta semana quando um grupo de pacientes americanos processou a Novo Nordisk alegando risco de perda de visão provocado pela Noia. Os processos foram revelados em reportagem do jornal The Wall Street Journal, trazendo o tema de volta aos holofotes.
A evidência científica mais forte até agora vem de um estudo publicado na revista JAMA Ophthalmology, que analisou mais de 1,6 mil prontuários e encontrou um risco de quatro a sete vezes maior de Noia entre pacientes tratados com semaglutida quando comparados com usuários de outros medicamentos. Os próprios autores do estudo, porém, apontam limitações importantes para estabelecer uma relação direta de causa e efeito, já que os pacientes analisados também tinham outras condições, como diabetes, que por si só podem provocar a doença. Não existe, até o momento, um estudo que comprove definitivamente a ligação entre os medicamentos e a Noia.
Mesmo diante dessa incerteza científica, desde junho de 2025 a Anvisa determinou que a Noia passasse a constar na bula dos medicamentos à base de semaglutida como uma reação adversa muito rara. Os 13 casos atuais fazem parte de um universo maior monitorado pela agência. Desde 2018, o painel de farmacovigilância da Anvisa já registrou 24 suspeitas de neuropatia isquêmica óptica no total. Essas notificações chegam à Anvisa por meio de relatos de pacientes, médicos e das próprias indústrias farmacêuticas, e cada caso passa por investigação para tentar estabelecer ou descartar uma relação com o medicamento utilizado. Até o momento, todos seguem classificados como suspeitos.
Além da neuropatia óptica, o painel da Anvisa reúne 74 registros de outras complicações visuais associadas ao uso dessas canetas emagrecedoras, distribuídos entre pacientes que usavam Rybelsus (22), Wegovy (19), Mounjaro (17) e Ozempic (16). A investigação continua em aberto, e a agência segue monitorando novos relatos enquanto a comunidade científica trabalha para esclarecer se existe de fato uma relação causal entre esses medicamentos amplamente utilizados e o risco de perda permanente da visão.
Citas Notables
O fato de um paciente ter usado o medicamento e desenvolvido a doença não é, por si só, prova de que um tenha causado o outro— Anvisa
Uma análise interna de seus ensaios clínicos não identificou aumento de casos da doença associado à semaglutida— Novo Nordisk