Anvisa aprova Kisunla para retardar Alzheimer; medicamento chega em 3 meses

Primeiro medicamento que vai na causa, não nos sintomas
O neurologista Wyllians Vendramini Borelli explica por que o Kisunla marca uma mudança fundamental no tratamento do Alzheimer.

Pela primeira vez na história do tratamento do Alzheimer, o Brasil aprovou um medicamento que age na origem da doença — e não apenas em seus sintomas. O Kisunla, desenvolvido pela Eli Lilly e aprovado pela Anvisa em 23 de abril de 2025, remove as placas de proteína beta-amiloide que iniciam o processo degenerativo, desacelerando o avanço da doença em seus estágios mais precoces. É um passo significativo, mas também um espelho das tensões que cercam a medicina moderna: a promessa de intervenção causal convive com limitações terapêuticas, restrições de acesso e um preço que, nos Estados Unidos, ultrapassa 32 mil dólares por ano.

  • O Alzheimer afeta milhões de brasileiros, e até agora todos os medicamentos disponíveis apenas mascaravam os sintomas — o Kisunla é o primeiro a atacar a causa.
  • A aprovação é restrita a pacientes em estágios iniciais da doença, excluindo a maioria dos que já convivem com perda severa de memória ou dependência funcional.
  • O tratamento exige infusões intravenosas mensais em centros especializados, com monitoramento rigoroso e contraindicações que limitam ainda mais o público elegível.
  • O preço americano de US$ 32 mil por ano acende o alerta sobre acessibilidade no Brasil, onde o valor ainda será negociado com órgãos regulatórios.
  • A comercialização no país deve começar em cerca de três meses, mas a questão de quem poderá, de fato, pagar pelo tratamento permanece sem resposta.

A Anvisa aprovou em 23 de abril o Kisunla (donanemabe), um anticorpo monoclonal desenvolvido pela Eli Lilly que representa uma mudança de paradigma no tratamento do Alzheimer. Enquanto todos os medicamentos anteriores apenas amenizavam os efeitos da doença, o Kisunla age diretamente sobre as placas de proteína beta-amiloide — o primeiro marcador biológico do Alzheimer e o gatilho do processo degenerativo. Ao se ligar a essas aglomerações e fragmentá-las, o fármaco desacelera o avanço do comprometimento cognitivo. Após cerca de um ano e meio de tratamento, as placas podem desaparecer completamente.

Mas há limites claros. O medicamento não reverte sintomas já instalados: não recupera memória perdida, não desfaz desorientação. Seu objetivo é retardar o avanço da doença. Além disso, a proteína tau — responsável pelos danos neuronais mais graves — continua agindo, e ainda não existe tratamento para ela. O neurologista Wyllians Vendramini Borelli, do Hospital Moinhos de Vento em Porto Alegre, explica que o Kisunla é indicado apenas para pacientes em estágio leve, com queixa de memória confirmada em testes cognitivos, mas que ainda preservam quase total independência. Quem já perdeu autonomia está além da janela terapêutica do medicamento.

O tratamento é administrado por infusão intravenosa mensal em centros especializados, com doses que variam de 700 mg iniciais a 1.400 mg nas aplicações seguintes. Há contraindicações relevantes: uso de anticoagulantes como varfarina, diagnóstico de angiopatia amiloide cerebral e cautela especial para portadores do gene da apolipoproteína E4. Quando as placas desaparecem — confirmado por exame de PET amiloide —, o tratamento pode ser interrompido.

Apesar da aprovação, o Kisunla ainda não tem data de chegada às farmácias brasileiras. A Eli Lilly precisa concluir etapas regulatórias e definir o preço com a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos. Borelli estima que em três meses o medicamento esteja disponível, mas a questão do acesso permanece aberta: nos Estados Unidos, o tratamento custa cerca de 32 mil dólares por ano — aproximadamente 182 mil reais. Outro fármaco de mecanismo semelhante, o Lecanemab, já foi aprovado nos EUA e na Europa, mas ainda aguarda aprovação no Brasil, e ambos seguem no centro de debates sobre custo, eficácia e equidade no acesso à saúde.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária aprovou na quarta-feira, 23 de abril, o Kisunla, um medicamento que marca um ponto de virada no tratamento do Alzheimer. Diferentemente de tudo que estava disponível até agora, este fármaco não trata os sintomas da doença — não devolve memória perdida, não desfaz a confusão mental. Em vez disso, ele vai direto à raiz do problema: as placas de proteína beta-amiloide que se acumulam no cérebro e desencadeiam o processo degenerativo.

O Kisunla é um anticorpo monoclonal desenvolvido pela farmacêutica Eli Lilly. Já havia recebido aprovação da FDA, a agência reguladora americana, em julho do ano anterior. Seu mecanismo é direto: a droga se liga às aglomerações de proteína beta-amiloide e as remove, desacelerando o avanço do comprometimento cognitivo e funcional. Segundo Wyllians Vendramini Borelli, neurologista e coordenador de pesquisa do Centro da Memória do Hospital Moinhos de Vento em Porto Alegre, trata-se do primeiro medicamento que ataca a causa raiz da doença, enquanto todos os anteriores apenas amenizavam as consequências.

O Alzheimer envolve duas proteínas problemáticas: a beta-amiloide e a tau. O Kisunla age sobre a primeira, fragmentando-a. O aparecimento das placas de beta-amiloide é o primeiro marcador da doença e está necessariamente presente em qualquer paciente com Alzheimer. Depois vem a neuroinflamação, seguida pelo acúmulo da proteína tau, que leva à degradação neuronal mais severa e aos sintomas mais graves, como o esquecimento. Quando o medicamento destrói a placa, as micróglias — as células limpas do cérebro — entram em ação. Após cerca de um ano e meio de tratamento, as placas desaparecem. Mas há um limite: remover a placa causa alguma melhora, porém não tanta quanto se desejaria, porque a proteína tau continua danificando os neurônios, e ainda não existe medicamento que atue sobre ela.

A aprovação do Kisunla é restrita. Destina-se apenas a pacientes com comprometimento cognitivo leve e demência leve relacionados ao Alzheimer — os estágios iniciais da doença, quando ainda há autonomia parcial e o diagnóstico foi confirmado pela presença comprovada da proteína beta-amiloide. Borelli ressalta que o remédio não é indicado para quem não tem sintomas. É aprovado para pacientes que apresentem queixa de memória confirmada em teste cognitivo realizado em consultório, mas que ainda sejam quase totalmente independentes. Se a pessoa já começou a perder independência, está em estágio mais avançado, e o benefício seria menor. O medicamento também não reverte sintomas já instalados — não recupera memória perdida, não desfaz desorientação ou alterações comportamentais. Seu objetivo é apenas retardar o avanço, reduzindo a velocidade com que os sintomas pioram.

Há contraindicações importantes. O Kisunla não deve ser usado por pacientes que tomam anticoagulantes como varfarina, ou que foram diagnosticados com angiopatia amiloide cerebral. Há também cautela no uso em portadores do gene da apolipoproteína E4, devido ao maior risco de efeitos adversos. O medicamento é administrado por infusão intravenosa mensal em centros especializados sob supervisão médica. Nos estudos clínicos, os pacientes receberam uma dose inicial de 700 mg nas três primeiras aplicações, seguida de 1.400 mg a cada quatro semanas. O Kisunla é comercializado em ampolas de 20 ml, cada uma contendo 350 mg de donanemabe. Após atingir a dose máxima — quatro ampolas por aplicação mensal — realiza-se um novo exame de PET amiloide. Se não houver mais placas, é possível interromper o tratamento.

Apesar da aprovação da Anvisa, ainda não há data definida para o início da comercialização no Brasil. A Eli Lilly precisa cumprir etapas regulatórias e logísticas, incluindo a definição de preço com a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos. Borelli estima que em cerca de três meses o medicamento já esteja no mercado. O preço no Brasil ainda será definido, mas nos Estados Unidos o tratamento custa aproximadamente 32 mil dólares por ano — cerca de 182 mil reais. Lá, cada ampola custa cerca de 750 dólares, um valor extremamente alto considerando que a partir da quarta dose são utilizadas quatro ampolas por aplicação. Borelli pondera que às vezes o preço praticado no Brasil é muito menor que o americano, mas a questão da acessibilidade permanece preocupante.

Outro medicamento semelhante, o Lecanemab, já foi aprovado nos Estados Unidos e na Europa, atuando de forma parecida sobre as placas de beta-amiloide, mas ainda não recebeu aprovação no Brasil. Ambos os fármacos têm gerado debates sobre custo, eficácia clínica e acesso universal. Segundo Borelli, ainda são poucas as pessoas com Alzheimer que seriam beneficiadas por essa nova droga, dado que ela funciona apenas nos estágios iniciais da doença.

Este é o primeiro medicamento que vai na causa, que são as placas amiloides, enquanto todas as outras medicações disponíveis até agora tratam sintomas que são consequências da doença
— Wyllians Vendramini Borelli, neurologista e coordenador de pesquisa do Centro da Memória do Hospital Moinhos de Vento
O medicamento destrói a placa, depois vêm as células limpadoras do cérebro, as micróglias, e em cerca de um ano e meio de tratamento já não há mais placa no paciente
— Wyllians Vendramini Borelli
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que esse medicamento é tão diferente do que existia antes?

Model

Porque finalmente temos algo que ataca o problema de verdade, não apenas os sintomas. Tudo que tínhamos tentava aliviar a perda de memória, a confusão. O Kisunla vai lá e remove as placas que causam tudo isso.

Inventor

Mas se remove as placas, não cura a doença?

Model

Não. A doença é mais complicada que isso. Tem a proteína tau também, que continua matando neurônios mesmo depois que você tira a placa. É como apagar um incêndio mas deixar a estrutura queimada.

Inventor

Então para quem funciona mesmo?

Model

Para quem está no começo. Alguém que começou a esquecer coisas, mas ainda consegue viver sozinho. Se você já perdeu muita independência, já é tarde demais para esse remédio fazer diferença.

Inventor

E quanto custa?

Model

Nos Estados Unidos, 32 mil dólares por ano. Aqui no Brasil ainda não sabemos, mas a gente espera que seja mais barato. Mesmo assim, vai ser caro.

Inventor

Quando chega ao Brasil?

Model

Oficialmente, ninguém sabe. Mas o neurologista que acompanha isso acredita que em três meses esteja nas farmácias.

Inventor

Qual é o maior problema agora?

Model

Acesso. Nem todo mundo que poderia se beneficiar vai conseguir pagar. E tem gente demais em estágios avançados da doença, para quem isso não vai fazer diferença nenhuma.

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