Em um mesmo dia, a Anvisa abriu dois caminhos distintos para a ciência brasileira diante da pandemia: um estudo robusto sobre o reforço vacinal da AstraZeneca, com dez mil voluntários em cinco estados, e outro sobre a proxalutamida, medicamento promovido por Bolsonaro que ainda carece de evidências sólidas. A aprovação regulatória não equivale a eficácia comprovada — ela autoriza a busca pela resposta, não anuncia sua chegada. O contraste entre os dois estudos revela a tensão permanente entre urgência política e rigor científico que marcou a gestão da pandemia no Brasil.
Anvisa aprova estudos com 3ª dose da AstraZeneca e com proxalutamida
Medicamento sem comprovação científica, mas com respaldo político
Por que a Anvisa aprovou esses dois estudos agora, especificamente nesta segunda-feira?
A agência não explicita o timing, mas ambos representam fases avançadas de pesquisa — fase 3, quando você já tem dados preliminares suficientes para testar em populações maiores.
Exato. E isso é importante: a aprovação não significa que os medicamentos funcionam. Significa que a agência permitiu que os testes aconteçam. São coisas diferentes.
E quanto à terceira dose da AstraZeneca? Isso é algo que já se esperava?
Faz sentido. Vários países estavam explorando reforços naquela época. O Brasil testaria com pessoas que já tinham recebido as duas doses iniciais.
Mas note: dez mil voluntários é um número significativo, mas o estudo é simples-cego, não duplo-cego. Os pesquisadores sabem quem recebeu o quê, mesmo que os voluntários não saibam.
E a proxalutamida? Por que isso gera tanta desconfiança?
Porque não há publicações revisadas por pares comprovando que funciona contra Covid. É um medicamento que existe, testado para outras coisas, mas para essa doença específica, os dados públicos são escassos.
E há algo mais: a Conep já questiona uma pesquisa anterior com essa droga. Então quando a Anvisa aprova um novo estudo, você tem que perguntar: por quê agora? Qual é o fundamento científico novo?
Bolsonaro mencionou isso publicamente. Isso influencia a decisão da Anvisa?
A Anvisa é uma agência técnica. Teoricamente, suas decisões baseiam-se em critérios científicos, não em declarações políticas. Mas a realidade é mais complexa.
O que sabemos é que a empresa chinesa Kintor patrocina o estudo. Não sabemos se houve pressão política. Não sabemos qual foi o critério específico que levou à aprovação naquele dia. Esses são os vazios na reportagem.
O Pulso
- A Anvisa autorizou simultaneamente dois ensaios clínicos de naturezas muito diferentes, criando um momento de ambiguidade entre avanço científico e pressão política.
- O estudo da terceira dose da AstraZeneca segue protocolo rigoroso — randomizado, controlado e simples-cego — com dez mil voluntários em cinco estados, focado em grupos de maior risco como profissionais de saúde.
- A proxalutamida, bloqueador hormonal sem estudos publicados em revistas científicas de prestígio, ganhou visibilidade pelas declarações de Bolsonaro, que a citou ao lado de substâncias já descartadas como a cloroquina.
- Especialistas e a própria Conep já questionam pesquisa anterior com o medicamento, e a ausência de dados robustos alimenta desconfiança na comunidade científica.
- O novo ensaio da proxalutamida será patrocinado por empresa chinesa e ocorrerá em sete países, com apenas cinquenta voluntários brasileiros — em Roraima e São Paulo — dentro de um universo global ainda sem número total divulgado.
Em um mesmo dia, a Anvisa abriu dois caminhos distintos para a ciência brasileira diante da pandemia: um estudo robusto sobre o reforço vacinal da AstraZeneca, com dez mil voluntários em cinco estados, e outro sobre a proxalutamida, medicamento promovido por Bolsonaro que ainda carece de evidências sólidas. A aprovação regulatória não equivale a eficácia comprovada — ela autoriza a busca pela resposta, não anuncia sua chegada. O contraste entre os dois estudos revela a tensão permanente entre urgência política e rigor científico que marcou a gestão da pandemia no Brasil.
A Anvisa autorizou nesta segunda-feira dois estudos clínicos distintos relacionados à Covid-19, revelando em um só gesto a complexidade do momento científico e político brasileiro.
O primeiro envolve a terceira dose da vacina AstraZeneca. Dez mil voluntários serão recrutados em São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Bahia e Rio Grande do Norte — todos entre 18 e 55 anos, já vacinados com as duas doses iniciais, e pertencentes a grupos de maior risco, como profissionais de saúde. O reforço será aplicado entre onze e treze meses após a segunda dose. O ensaio é randomizado e simples-cego: os participantes receberão vacina ou placebo sem saber qual, e ao final todos serão imunizados. A Anvisa classificou o estudo como fase 3.
O segundo estudo aprovado trata da proxalutamida, um bloqueador hormonal desenvolvido originalmente para tumores de mama e próstata. O medicamento ganhou notoriedade pública após o presidente Bolsonaro mencioná-lo em declarações recentes como aposta promissora — por vezes ao lado da cloroquina, já comprovadamente ineficaz contra a Covid. O ensaio, patrocinado pela empresa chinesa Suzhou Kintor Pharmaceuticals, avaliará a eficácia e segurança do medicamento em homens com Covid leve a moderada. No Brasil, participarão apenas cinquenta voluntários, em Roraima e São Paulo. Os testes ocorrerão simultaneamente em outros seis países.
O problema é que não existem estudos publicados em revistas científicas revisadas por pares que confirmem a eficácia da proxalutamida contra a Covid-19. Uma pesquisa anterior com o medicamento já enfrenta questionamentos na Conep, e especialistas mantêm ceticismo diante da ausência de dados robustos. A aprovação da Anvisa autoriza a investigação — não valida a promessa política que a antecedeu.
A Anvisa liberou nesta segunda-feira dois caminhos distintos para a pesquisa clínica brasileira: um estudo sobre reforço vacinal e outro sobre um medicamento que ganhou proeminência política mas permanece cercado de incerteza científica.
O primeiro projeto envolve a terceira dose da vacina AstraZeneca contra Covid-19. A agência autorizou testes com dez mil voluntários distribuídos por cinco estados — São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Bahia e Rio Grande do Norte. Os participantes serão recrutados entre pessoas que já receberam as duas doses iniciais do imunizante com intervalo de quatro semanas, e receberão o reforço entre onze e treze meses após a segunda aplicação. O estudo se concentrará em indivíduos entre dezoito e cinquenta e cinco anos com maior risco de exposição ao coronavírus, como profissionais de saúde. Gestantes e pessoas com doenças pré-existentes ficarão de fora. Trata-se de uma pesquisa randomizada, controlada e simples-cega — os voluntários serão divididos aleatoriamente em grupos, um recebendo a vacina e outro placebo, sem saber qual deles recebem. Ao final, todos receberão o imunizante. A Anvisa classificou isso como fase 3, o estágio onde se avalia a eficácia de um novo medicamento ou vacina.
O segundo estudo aprovado envolve a proxalutamida, um bloqueador de hormônios masculinos originalmente desenvolvido para tumores de mama e próstata. Agora será testado como possível tratamento para Covid-19, com o objetivo de verificar se reduz a infecção pelo coronavírus e o processo inflamatório gerado pela doença. O medicamento ganhou visibilidade pública através do presidente Jair Bolsonaro, que o mencionou em declarações recentes como uma aposta promissora contra a pandemia — em algumas ocasiões, citando-o ao lado de outras substâncias comprovadamente ineficazes, como a cloroquina. "Tem uma coisa que eu acompanho há algum tempo, e nós temos que estudar aqui no Brasil. Chama-se proxalutamida. Já tem uns três meses que isso aí... Não tá no mercado, é uma droga ainda em estudo, sendo estudada", afirmou Bolsonaro no domingo anterior ao anúncio da Anvisa.
A aposta no medicamento também circula entre grupos bolsonaristas, conforme reportagem anterior mostrou. Porém, não existem estudos publicados em revistas científicas de prestígio ou revisados por pares que confirmem a eficácia da droga contra Covid-19. A falta de dados robustos gerou desconfiança entre especialistas. Uma pesquisa anterior com a proxalutamida já enfrenta questionamentos em órgãos como a Conep, a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa.
O novo ensaio será patrocinado pela empresa Suzhou Kintor Pharmaceuticals, sediada na China, e também corresponde à fase 3 dos testes clínicos. Avaliará a eficácia e segurança do medicamento em voluntários do sexo masculino com Covid leve a moderada. No Brasil, participarão cinquenta voluntários em Roraima e São Paulo. Os testes ocorrerão simultaneamente em mais seis países: Alemanha, Argentina, África do Sul, Ucrânia, México e Estados Unidos. O número total de participantes em todos os países não foi divulgado.
A aprovação da Anvisa marca um ponto de inflexão: enquanto o estudo da terceira dose segue o caminho estabelecido da pesquisa vacinal, a proxalutamida permanece em território menos mapeado, com a comunidade científica aguardando dados que justifiquem a confiança depositada nela por figuras políticas.
Citações Notáveis
Tem uma coisa que eu acompanho há algum tempo, e nós temos que estudar aqui no Brasil. Chama-se proxalutamida. Já tem uns três meses que isso aí... Não tá no mercado, é uma droga ainda em estudo, sendo estudada— Jair Bolsonaro, presidente