Anvisa aprova 5 novas marcas de semaglutida; preços e entrada no SUS ainda em aberto

Aproximadamente 6 milhões de pessoas aguardam cirurgia bariátrica no SUS, enquanto cerca de um quarto da população brasileira vive com obesidade, afetando principalmente pessoas de menor renda.
Não podemos ter apenas uma classe social com acesso a tratamento de verdade
Endocrinologista defende que ampliação de oferta de semaglutida deve facilitar inclusão no SUS para todos.
Mark

Por que a Anvisa aprovou cinco marcas de uma vez? Isso é comum?

Mimi

Não é comum, mas faz sentido neste momento. A patente caiu há cinco meses, e havia uma fila de fabricantes esperando aprovação. A Anvisa provavelmente acelerou o processo porque o Ministério da Saúde pediu celeridade — há interesse político em ampliar a oferta antes da discussão sobre o SUS em setembro.

Mark

E os preços? Vão cair mesmo?

Mimi

Tudo indica que sim. A semaglutida da EMS já derrubou o preço de R$ 1 mil para R$ 300 mensais. Com cinco novos concorrentes, a pressão por preços menores é inevitável. Mas a CMED ainda precisa estabelecer um teto, e cada empresa pode vender abaixo disso.

Mark

Qual é o real obstáculo para entrar no SUS?

Mimi

O custo. No ano passado, o SUS rejeitou a incorporação porque custaria R$ 4,1 bilhões em cinco anos. Agora, com preços caindo e mais fabricantes, esse número deve ser menor. Mas a Conitec ainda precisa avaliar se vale a pena — e se há orçamento.

Mark

E se não entrar no SUS?

Mimi

Então continua sendo um medicamento para quem pode pagar. Hoje, cerca de um quarto da população brasileira tem obesidade, e a maioria são pessoas de menor renda. Elas dependem do SUS e não têm acesso a esses medicamentos. A alternativa é cirurgia bariátrica, mas há 6 milhões de pessoas na fila.

Mark

Seis milhões?

Mimi

Sim. E alguns esperam mais de cinco anos. A rede pública tem apenas 120 centros habilitados, concentrados no Sul e Sudeste. Na Região Norte, são apenas cinco. É um gargalo enorme.

Mark

Então a questão é realmente de justiça social?

Mimi

Exatamente. Não é só sobre emagrecimento. Obesidade aumenta risco de diabetes, infarto, AVC. Essas doenças custam muito caro ao SUS — um AVC custa mais de R$ 57 mil por paciente. Se a semaglutida pudesse prevenir essas complicações, talvez o investimento se pagasse. Mas tudo depende de como a Conitec avalia isso em setembro.

  • Cinco novas marcas aprovadas: Zempneo (Brainfarma), Semavy (Cosmed), Orsema (Ranbaxy), Seemasun (Sun Farmacêutica), Owozy (Ávita Care)
  • Preço caiu de R$ 1 mil para R$ 300 mensais após queda de patente com semaglutida da EMS
  • Mercado movimentou R$ 11,45 bilhões em 2025; R$ 5,54 bilhões apenas entre janeiro e abril de 2026
  • Mais de 6 milhões de pessoas aguardam cirurgia bariátrica no SUS
  • Conitec fará nova avaliação em setembro para possível incorporação ao SUS

Cinco novas marcas de semaglutida (Zempneo, Semavy, Orsema, Seemasun, Owozy) foram aprovadas pela Anvisa, expandindo opções de tratamento para emagrecimento no Brasil. Preços devem cair significativamente com concorrência: semaglutida da EMS reduziu custos de R$ 1 mil para R$ 300 mensais após queda de patente.

Anvisa autoriza cinco novas marcas de semaglutida cinco meses após queda de patente, ampliando competição e pressão por preços menores, com potencial inclusão no SUS em setembro.

Na quarta-feira 29 de julho, a Anvisa autorizou o registro de cinco novas marcas de semaglutida — Zempneo, Semavy, Orsema, Seemasun e Owozy — expandindo significativamente o mercado de medicamentos para emagrecimento no Brasil. A decisão chega cinco meses após a queda da patente original, um marco que abriu espaço para que fabricantes nacionais e internacionais desenvolvessem suas próprias versões do fármaco. Mas a aprovação regulatória é apenas o primeiro passo. Antes que esses medicamentos cheguem às prateleiras das farmácias, uma etapa crucial ainda precisa ser cumprida: a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) precisa estabelecer o preço máximo de venda. O Ministério da Saúde pediu celeridade nessa análise, e fontes indicam que a definição deve sair em algumas semanas, possivelmente ainda em agosto.

O mercado brasileiro demonstra apetite voraz por esses medicamentos. Em 2025, os GLPs movimentaram R$ 11,45 bilhões no país. Apenas entre janeiro e abril de 2026, as vendas já somaram R$ 5,54 bilhões — quase metade de todo o volume do ano anterior. Essa demanda explosiva reflete uma realidade: cerca de um quarto da população brasileira vive com obesidade, condição mais frequente entre pessoas de menor renda, justamente aquelas que dependem do SUS. A chegada da semaglutida da EMS já transformou o cenário de preços. Antes da queda da patente, uma caneta podia custar R$ 1 mil para um mês de tratamento. Hoje, esse valor está em pouco mais de R$ 300. A Novo Nordisk, fabricante original, também revisou seus preços e ampliou descontos em programas de fidelidade.

Com cinco novos concorrentes entrando no mercado, especialistas esperam que a lógica da oferta e da demanda pressione os preços ainda mais para baixo. A CMED tende a estabelecer um teto proporcional ao preço do Ozivy, a primeira versão nacional da EMS, mas cada fabricante poderá vender por valores inferiores. As empresas que responderam ao G1 ainda não divulgaram seus preços, embora a Ávita Care tenha afirmado que o Owozy será competitivo em relação ao medicamento original e aos novos entrantes. Para o setor farmacêutico, a definição de preços será estratégica — cada marca buscará se posicionar em um mercado que acaba de ganhar novos competidores.

Mas o verdadeiro ponto de inflexão pode vir em setembro, quando a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) fará uma nova avaliação sobre a inclusão da semaglutida na rede pública. No ano passado, a comissão rejeitou a incorporação, apontando o preço como principal entrave: o custo estimado para atender à demanda do SUS chegava a R$ 4,1 bilhões em cinco anos. Agora, o cenário é diferente. A Novo Nordisk apresentou uma nova proposta com desconto de 59% sobre o preço anterior, oferecendo doses de 0,25 mg a 1 mg por R$ 396,88, 1,7 mg por R$ 594,49 e 2,4 mg por R$ 764,64. Mais importante ainda, a ampliação da oferta com cinco novos fabricantes deve criar pressão adicional para redução de custos. O Ministério da Saúde iniciou também um projeto-piloto com semaglutida no Grupo Hospitalar Conceição em Porto Alegre, acompanhando cerca de 250 pacientes com obesidade grave até o próximo ano para subsidiar a construção de um protocolo para uso na rede pública.

A necessidade é urgente. Mais de 6 milhões de pessoas aguardam cirurgia bariátrica no SUS, a principal alternativa atual para pacientes com obesidade atendidos pela rede pública. A rede tem apenas 120 centros habilitados para o procedimento, concentrados principalmente nas regiões Sul e Sudeste. Na Região Norte, existem apenas cinco serviços. Como não há fila nacional única, o tempo de espera varia conforme o município e pode ultrapassar cinco anos. Enquanto isso, pessoas com obesidade enfrentam riscos aumentados de diabetes, doenças cardiovasculares e acidentes vasculares cerebrais — condições que pressionam o sistema de saúde com custos significativos. Um paciente que sofre AVC custa mais de R$ 57 mil ao sistema; um em diálise custa quase R$ 73 mil apenas no primeiro ano; um infarto gera custo médio de R$ 4.900; uma internação por insuficiência cardíaca custa quase R$ 17,8 mil.

Médicos e pesquisadores enfatizam que o acesso não pode ser questão de status social. Clayton Macedo, endocrinologista e coordenador na Sociedade Brasileira de Endocrinologia, afirma que a chegada de novas opções amplia a oferta, reduz preço e facilita a inclusão pelo SUS. "Não podemos ter apenas uma classe social com acesso a tratamento de verdade", diz. Maria Laura Precinotto, doutoranda em Saúde Pública pela USP, concorda que os medicamentos são demanda importante no tratamento da obesidade, mas defende que uma eventual incorporação seja acompanhada da estruturação de uma política pública com equipes multidisciplinares, centros especializados e um plano nacional para o tratamento da obesidade. "É preciso que o Ministério da Saúde debata o acesso ao tratamento e ao acompanhamento, mas sem reducionismo. Não dá para achar que falar de obesidade no SUS é apenas inserir os GLP-1 e que isso resolve o problema no país", reforça. Setembro chegará em breve, e com ele, a possibilidade de transformar o acesso a esses medicamentos para milhões de brasileiros.

A chegada de novas opções no mercado amplia a oferta, reduz preço e facilita uma inclusão pelo SUS
— Clayton Macedo, endocrinologista e coordenador na Sociedade Brasileira de Endocrinologia
O acesso a esses medicamentos não pode ser uma questão de status social
— Maria Laura Precinotto, doutoranda em Saúde Pública pela USP
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