Em um momento em que o capitalismo busca reconciliar lucro e responsabilidade, a Anbima ampliou, em junho de 2023, as regras de seu selo de investimento sustentável para abranger multimercados, FIDCs e ETFs — segmentos antes deixados à margem de critérios claros. A iniciativa não é apenas técnica: é uma resposta institucional ao greenwashing, prática que corrói a confiança dos investidores e esvazia o sentido das certificações. Com um mecanismo de supervisão contínua e inspiração na regulação europeia, a associação sinaliza que sustentabilidade, no mercado financeiro brasileiro, deixa de ser r
Anbima expande selo sustentável para multimercados, FIDCs e ETFs
Criou-se um freio contra a desonestidade que transforma a certificação em responsabilidade contínua
Por que a Anbima decidiu expandir o selo agora, um ano depois de começar?
Porque o programa inicial cobria apenas renda fixa e ações, que concentram o maior volume. Agora que essas bases estão estabelecidas, faz sentido trazer os multimercados, FIDCs e ETFs para o mesmo padrão.
Mas quanto desse crescimento de R$ 7 bilhões para R$ 8,1 bilhões é realmente novo interesse, e quanto é apenas reclassificação de fundos que já existiam?
O formulário de supervisão parece importante. Como funciona na prática?
Os gestores precisam apresentar um relatório ao fim de cada ano mostrando como alocaram os recursos. Se houver desvios, recebem orientação e prazo para se ajustar. Se não corrigirem, perdem o selo.
E quem fiscaliza se os gestores estão preenchendo o formulário corretamente? A Anbima tem recursos para auditar 51 fundos com rigor?
Qual é o risco real do greenwashing que a Anbima está tentando evitar?
Antes, um fundo podia simplesmente se chamar ESG sem nenhuma comprovação. Isso permitia que gestores atraíssem investidores interessados em sustentabilidade sem realmente fazer nada diferente.
Verdade, mas a nova regulação ainda depende da metodologia que cada fundo declara. Se um fundo disser que sua metodologia é sustentável, como a Anbima valida isso?
Le Pouls
- Sem regras claras, fundos se autodeclaravam ESG livremente, abrindo caminho para o greenwashing e minando a credibilidade do segmento sustentável no Brasil.
- A expansão das normas para multimercados, FIDCs e ETFs pressiona gestores a demonstrarem, com metodologia concreta, que suas alocações correspondem ao que prometem.
- Um novo formulário de supervisão transforma o selo de certificação estática em responsabilidade contínua: gestores em desconformidade têm prazo para se ajustar ou perdem o reconhecimento.
- O patrimônio dos fundos certificados saltou de R$ 7 bilhões para R$ 8,1 bilhões em poucos meses, com o número de cotistas mais que dobrando — sinal de apetite crescente, ainda que modesto diante dos R$ 7,6 trilhões da indústria.
- Fundos imobiliários e de participações ainda aguardam regulação específica, mantendo lacunas que a Anbima promete fechar nos próximos ciclos do programa.
Em um momento em que o capitalismo busca reconciliar lucro e responsabilidade, a Anbima ampliou, em junho de 2023, as regras de seu selo de investimento sustentável para abranger multimercados, FIDCs e ETFs — segmentos antes deixados à margem de critérios claros. A iniciativa não é apenas técnica: é uma resposta institucional ao greenwashing, prática que corrói a confiança dos investidores e esvazia o sentido das certificações. Com um mecanismo de supervisão contínua e inspiração na regulação europeia, a associação sinaliza que sustentabilidade, no mercado financeiro brasileiro, deixa de ser rótulo para se tornar compromisso verificável.
Um ano após criar as primeiras regras para seu selo de investimento sustentável, a Anbima decidiu ampliar o programa. Em junho de 2023, a associação publicou critérios específicos para que fundos multimercados, FIDCs e ETFs pudessem obter a certificação — segmentos que, até então, operavam sem balizas claras e dependiam de autodeclarações dos próprios gestores.
A prioridade inicial havia sido dada aos fundos de renda fixa e ações, por concentrarem o maior volume de recursos da indústria. Agora, com a inclusão dos multimercados, a Anbima mira especialmente os fundos que replicam carteiras ESG do exterior, um segmento em expansão acelerada, segundo Carlos Takahashi, vice-presidente da associação e coordenador do grupo consultivo de sustentabilidade.
Além das novas regras de enquadramento, foi criado um formulário de supervisão para identificar desvios nas alocações de fundos já certificados. O documento deve ser apresentado ao final de cada exercício social. Gestores em desconformidade recebem orientação e prazo para se ajustar; quem não cumprir perde o selo. A certificação deixa de ser um rótulo fixo e passa a exigir responsabilidade permanente.
Os números mostram crescimento consistente: quando a autorregulamentação começou, os fundos sustentáveis somavam R$ 7 bilhões em patrimônio líquido, com 32 fundos e 3,5 mil cotistas. Em junho de 2023, esses valores saltaram para R$ 8,1 bilhões, 51 fundos e 8 mil cotistas. O montante ainda representa uma fração pequena dos R$ 7,6 trilhões da indústria brasileira de fundos, mas a trajetória é de expansão.
As regras foram inspiradas na regulação europeia SFDR e buscam eliminar o espaço para o greenwashing — prática em que fundos afirmam falsamente compromissos sustentáveis. O formulário de enquadramento também foi revisado para exigir maior detalhamento metodológico. Fundos imobiliários e de participações ainda aguardam critérios próprios, e a Anbima sinalizou que esses serão os próximos passos de um processo que, nas palavras de Takahashi, é deliberadamente gradual e educativo.
Um ano depois de estabelecer as primeiras regras para seu selo de investimento sustentável, a Anbima decidiu expandir o programa. A associação que representa as entidades dos mercados financeiro e de capitais brasileiros lançou, em junho de 2023, novos critérios para que fundos multimercados, fundos de direitos creditórios (FIDCs) e ETFs pudessem se enquadrar na modalidade. A medida marca um passo importante na tentativa de trazer ordem a um segmento que, até então, operava sob regras vagas e autodeclarações.
O primeiro grupo a receber um conjunto claro de regras foi o dos fundos de renda fixa e ações, em julho do ano anterior. Essa priorização fazia sentido: esses segmentos concentram o maior volume de recursos da indústria. Agora, com a inclusão dos multimercados, FIDCs e ETFs, a Anbima busca cobrir os fundos mais líquidos e de maior circulação. Carlos Takahashi, vice-presidente da Anbima e coordenador do grupo consultivo de sustentabilidade, destacou que a expansão é especialmente importante para os multimercados que replicam fundos ESG do exterior, um segmento em crescimento acelerado.
Além das novas regras de enquadramento, a Anbima criou um mecanismo de supervisão que funciona como um freio contra a desonestidade. Um formulário foi desenvolvido para identificar desvios nas alocações de fundos que já receberam o selo. Esse relatório deve ser apresentado ao final de cada exercício social do fundo. Se um gestor for encontrado em desconformidade, receberá orientação e um prazo para se ajustar. Caso não cumpra, perde o selo. É um sistema que transforma a certificação de um rótulo estático em uma responsabilidade contínua.
O crescimento do segmento é visível nos números. Quando a autorregulamentação começou, os fundos com identificação sustentável somavam patrimônio líquido de R$ 7 bilhões, distribuídos entre 32 fundos e 3,5 mil cotistas. Alguns meses depois, em junho, esses números saltaram para R$ 8,1 bilhões de patrimônio líquido, 51 fundos e 8 mil cotistas. Ainda assim, esse montante representa uma fração pequena dos R$ 7,6 trilhões que circulam na indústria de fundos brasileira como um todo.
Takahashi descreveu o processo como natural e gradual, envolvendo educação tanto de investidores quanto de gestores. Ele apontou que um dos cursos sobre ESG oferecidos pela Anbima é o terceiro mais acessado na plataforma de educação da instituição, um sinal de que o interesse existe. O vice-presidente também mencionou que o formulário inicial de enquadramento foi revisado para exigir um detalhamento maior da metodologia dos fundos e das ações concretas realizadas para atingir objetivos de sustentabilidade. A Anbima oferece um guia e um documento de perguntas e respostas para orientar o registro, que pode ser feito como fundo IS (com propósito específico de investimento sustentável) ou como fundo que integra questões ESG.
As regras adotadas pela Anbima foram inspiradas na regulação europeia conhecida como Sustainable Finance Disclosure Regulation (SFDR), que trata do mesmo tema. Antes dessa estrutura, no Brasil, os fundos simplesmente se autodeclaravam como ESG, uma prática que abria espaço para o greenwashing — quando uma empresa afirma falsamente que seus produtos são sustentáveis. A nova estrutura busca eliminar essa brecha. Takahashi reforçou que o objetivo é criar condições para que o mercado cresça, o que exige clareza nas regras e transparência nas informações.
Ainda faltam regras específicas para dois segmentos: fundos imobiliários e fundos de investimento em participações. A Anbima sinalizou que esses serão os próximos na fila. O movimento reflete uma estratégia deliberada de trazer toda a indústria para o mesmo padrão regulatório, eliminando lacunas que permitiam práticas questionáveis e criando um ambiente onde investidores possam confiar nas certificações que recebem.
Citations marquantes
É um processo natural de crescimento e amadurecimento que envolve educação de investidores e gestores— Carlos Takahashi, vice-presidente da Anbima
Nosso objetivo é ver esse mercado crescendo, por isso precisamos criar condições para isso— Carlos Takahashi, vice-presidente da Anbima