EUA enfrentam Irã mais resistente após guerra que produziu mudança de regime

Uma guerra destinada a impedir armas nucleares empurrou o Irã além do Rubicão
Analista descreve o paradoxo central: o conflito pode ter acelerado exatamente o que pretendia evitar.

Quatro meses de guerra transformaram o Irã de maneiras que Washington e Tel Aviv não antecipavam: em vez de um regime enfraquecido, emergiu uma junta militar jovem e ousada, convicta de ter sobrevivido ao pior que seus adversários poderiam impor. Essa convicção redefine o peso de cada palavra nas negociações em curso, pois quem acredita ter resistido ao limite tende a ceder menos. O paradoxo histórico é que uma guerra concebida para conter o programa nuclear iraniano pode ter forjado exatamente o tipo de liderança mais disposta a avançá-lo.

  • A morte de Khamenei no primeiro dia do conflito removeu décadas de cautela estratégica e abriu espaço para uma geração de comandantes da Guarda Revolucionária sem memória de derrota.
  • O Irã preservou suas capacidades nucleares e militares essenciais, e seus novos líderes interpretam essa sobrevivência como uma vitória que legitima exigências mais duras.
  • Teerã entra nas negociações exigindo cerca de 24 bilhões de dólares em ativos, o direito de enriquecer urânio, a manutenção de seu programa de mísseis e o apoio contínuo a aliados regionais.
  • A percepção iraniana de que Trump não quer reiniciar a guerra e que tem mais pressa por um acordo do que Teerã inverte a lógica de pressão que Washington esperava exercer.
  • O cenário mais provável é um limbo prolongado — nem guerra, nem paz — que favorece o Irã ao ampliar a pressão sobre os EUA para aceitar termos que reabram o Estreito de Ormuz.

Quatro meses de guerra produziram o oposto do que Washington e Tel Aviv pretendiam. Em vez de derrubar o regime iraniano, o conflito gerou uma mudança de poder que ninguém havia planejado: menos teocracia, mais junta militar dominada pela Guarda Revolucionária, com líderes jovens e fundamentalmente diferentes de seus predecessores.

O aiatolá Khamenei, assassinado no primeiro dia da guerra, havia passado décadas evitando confronto direto com o Ocidente e proibindo a produção de armas nucleares. Seus sucessores não carregam esse peso de cautela. Eles acreditam ter suportado o pior que seus inimigos poderiam infligir — e que sobreviveram. Essa convicção transforma cada mesa de negociação.

Embora autoridades em Teerã e Washington afirmem estar próximas de um entendimento, qualquer acordo inicial deixaria questões nucleares profundas para um período de 60 dias de negociações que podem ou não prosperar. O Irã quer manter o direito de enriquecer urânio, preservar seu conhecimento científico e os equipamentos que o deixariam à beira da capacidade nuclear — possuindo tudo o que é necessário para produzir uma arma sem efetivamente montá-la.

As exigências iranianas são extensas: cerca de 24 bilhões de dólares em ativos congelados, possibilidade de cobrar taxas no Estreito de Ormuz, manutenção do programa de mísseis balísticos e apoio contínuo a aliados como Hezbollah, Hamas e Houthis. Analistas observam que Teerã está convencida de que Trump não pretende reiniciar uma guerra em larga escala — e essa percepção a embolsa.

O paradoxo central é perturbador: uma guerra concebida para impedir que o Irã obtivesse armas nucleares pode ter sido justamente a guerra que o empurrou além do ponto de retorno. A economia iraniana está fragilizada e protestos internos podem eclodir quando o conflito terminar. Mas o Irã acredita que Trump tem mais pressa por um acordo do que Teerã — e, por isso, não vem fazendo as concessões que Washington deseja. O resultado mais provável é um limbo prolongado que, paradoxalmente, favorece o Irã.

Quatro meses de guerra produziram exatamente o oposto do que Washington e Tel Aviv pretendiam alcançar. Os Estados Unidos e Israel entraram em conflito buscando derrubar o regime iraniano. Conseguiram uma mudança de poder — mas não aquela que desejavam. O que emergiu das cinzas é menos uma teocracia islâmica tradicional e mais uma estrutura de poder militar, dominada pela Guarda Revolucionária, com uma liderança jovem, ousada e fundamentalmente diferente da que a precedeu.

O aiatolá Ali Khamenei, assassinado no primeiro dia da guerra em 28 de fevereiro, havia passado décadas evitando confronto direto com o Ocidente. Proibia a produção de armas nucleares. Buscava, acima de tudo, evitar um ataque conjunto de Israel e dos Estados Unidos. Seus sucessores não carregam o mesmo peso de cautela. Eles acreditam que já suportaram o pior que seus inimigos poderiam infligir e que sobreviveram. Essa convicção muda tudo nas negociações que agora ocorrem.

Embora os objetivos iniciais da guerra — erradicar o programa nuclear iraniano e eliminar a ameaça que representa — permaneçam não realizados, o conflito produziu um Irã ferido mas mais determinado. Na sexta-feira passada, autoridades em Teerã e Washington afirmaram estar próximas de um acordo, com o ministro das Relações Exteriores iraniano Abbas Araghchi declarando que um entendimento nunca esteve tão próximo. Mas mesmo um memorando de entendimento inicial deixaria questões nucleares profundas para um período de 60 dias de negociações que podem ou não prosperar. O Irã manteria capacidade de barganha em cada etapa.

Os novos líderes iranianos demonstram ser negociadores implacáveis, dispostos a suportar sofrimento considerável para preservar seus interesses centrais. Eles querem manter o direito de enriquecer urânio, mesmo que em níveis baixos após uma suspensão temporária. Querem preservar o conhecimento científico e os equipamentos que os deixariam à beira da capacidade nuclear — possuindo todos os elementos necessários para produzir uma arma sem efetivamente montá-la. Analistas observam que esses líderes estão convencidos de que o presidente Donald Trump não pretende reiniciar uma guerra em larga escala e que ele impôs limites ao apetite israelense por mais conflito. Essa percepção os embolsa.

O Irã agora exige aproximadamente 12 bilhões de dólares em ativos congelados liberados imediatamente, mais outros 12 bilhões como pagamento posterior condicionado ao progresso na implementação de qualquer acordo. Quer testar até onde Trump está disposto a enfrentar a oposição republicana e israelense à transferência de recursos. Continua exigindo a possibilidade de cobrar alguma taxa dos navios que usem o Estreito de Ormuz. Quer também manter seu programa de mísseis balísticos e o apoio a aliados como Hezbollah, Hamas e Houthis. Especialistas esperam que o Irã concorde com uma suspensão limitada do enriquecimento e exporte metade de seu estoque de urânio altamente enriquecido, enquanto dilui a outra metade. Mas manteria sua infraestrutura nuclear intacta.

O paradoxo é que uma guerra destinada a impedir que o Irã obtivesse armas nucleares pode ter sido justamente a guerra que o empurrou além do Rubicão. Combinando a capacidade de fechar o Estreito de Ormuz quando desejar com seu conhecimento nuclear preservado, o Irã ganharia uma carta para impedir futuros ataques e recuperaria influência regional. Antes da guerra, o Irã havia oferecido aos enviados de Trump em Genebra um acordo melhor do que o que agora propõe. Um Irã fortalecido pela resistência tende a pressionar ainda mais por suas demandas.

A economia iraniana está profundamente fragilizada, e protestos internos podem eclodir quando a guerra terminar. Mas o Irã acredita que Trump tem ainda mais pressa por um acordo do que Teerã, e portanto não vem fazendo as concessões que Washington deseja. Os objetivos de longo prazo permanecem claros: impedir futuros ataques, dividir os países árabes do Golfo, estimular o isolamento de Israel e reduzir a presença militar americana na região. O risco, segundo analistas, é que o Irã exagere em sua estratégia e cometa erros de cálculo, como ocorreu no passado. Mesmo que um acordo inicial seja alcançado, muitos duvidam que as negociações avancem até temas mais delicados, como um tratado nuclear detalhado. O resultado pode ser um limbo prolongado — nem guerra, nem paz — que paradoxalmente favorece o Irã ao aumentar a pressão sobre Trump para aceitar termos que permitam reabrir o estreito e restaurar o equilíbrio nos mercados globais.

Um acordo nunca esteve tão próximo
— Abbas Araghchi, ministro das Relações Exteriores do Irã
Uma transição do poder divino para o poder bruto
— Aaron David Miller, ex-diplomata americano da Carnegie Endowment
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Como uma guerra que começou com o objetivo de derrubar um regime terminou fortalecendo exatamente o tipo de poder que os americanos temiam?

Model

Porque o Irã não apenas sobreviveu — preservou suas capacidades militares e nucleares intactas. A liderança antiga era cautelosa, evitava confronto. A nova geração acredita que já passou pelo pior e que pode resistir a mais pressão ainda.

Inventor

Então os novos líderes são mais perigosos?

Model

Mais dispostos a correr riscos, com certeza. Mas também mais pragmáticos em negociações. Eles sabem que a economia está quebrada e que precisam de um acordo. O que mudou é que agora negoceiam de uma posição de força percebida.

Inventor

Por que o Irã insiste em manter o direito ao enriquecimento de urânio se isso foi exatamente o que provocou a guerra?

Model

Porque para eles é uma questão de soberania e de capacidade de dissuasão. Não querem uma bomba — pelo menos não agora — mas querem estar a um passo de poder fazer uma se precisarem. É uma carta de segurança.

Inventor

E Trump? Ele quer realmente um acordo ou está apenas testando?

Model

O Irã acredita que Trump tem mais pressa do que eles. Que ele quer reabrir o Estreito de Ormuz, restaurar os mercados de energia. Isso dá ao Irã alavancagem em cada rodada de negociação.

Inventor

Qual é o risco real aqui?

Model

Que o Irã calcule errado. Que exagere em sua estratégia e cometa um erro que reinicie tudo. Ou que fiquem presos em um limbo indefinido — nem guerra, nem paz — que eventualmente exploda.

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