MEC deve priorizar Português e Matemática básica, diz presidente do Parceiros da Educação

Aproximadamente 70% das crianças nos anos finais do ensino médio têm desempenho abaixo do conhecimento básico, comprometendo suas oportunidades futuras.
Não precisa saber seno e cosseno, mas precisa ler e escrever muito bem
Ribeiro resume a reorientação curricular que defende: foco nas competências fundamentais, não na complexidade.

No Brasil de 2026, onde apenas 5% dos jovens do ensino médio público dominam Matemática e 34% leem e escrevem no nível esperado, o presidente do Parceiros da Educação convoca o Ministério da Educação a uma escolha civilizatória: aprofundar o essencial em vez de dispersar o currículo. A urgência não é apenas pedagógica — é existencial numa era em que a inteligência artificial recompensará quem souber pensar, ler e perguntar, e deixará para trás quem nunca aprendeu a fazê-lo.

  • Com 70% dos alunos do ensino médio abaixo do nível básico, o Brasil enfrenta uma crise silenciosa que compromete uma geração inteira antes mesmo que ela entre no mercado de trabalho.
  • A BNCC atual dispersa o ensino em tantos conteúdos que os estudantes chegam ao fim da escola sem dominar sequer leitura, escrita e aritmética fundamentais.
  • A inteligência artificial promete nivelar oportunidades — mas apenas para quem souber interpretar respostas e formular perguntas, habilidades que dependem exatamente do que falta hoje nas escolas públicas.
  • Jair Ribeiro propõe três frentes concretas: reformar o currículo com foco em profundidade, expandir escolas de período integral e lançar um programa nacional de recomposição de aprendizagem para os mais vulneráveis.
  • O financiamento existe, mas está mal direcionado: os 18 bilhões do Pé-de-Meia poderiam ser avaliados à luz das evidências e parte redirecionada para o que comprovadamente funciona.
  • O diagnóstico é técnico, o consenso existe — mas a barreira é política: programas assistencialistas e eleitoreiros continuam vencendo a disputa por recursos e atenção.

Jair Ribeiro, presidente do Parceiros da Educação, olha para os dados do Saeb 2023 e vê o que chama de 'escuridão cognitiva': apenas 34% dos alunos do terceiro ano do ensino médio público leem e escrevem no nível esperado, e apenas 5% demonstram domínio adequado em Matemática. Para ele, esses números não são apenas estatísticas — são o retrato de jovens que em breve entrarão num mercado de trabalho para o qual não foram preparados.

O diagnóstico aponta para a Base Nacional Comum Curricular como parte do problema. Ao tentar cobrir tudo, a BNCC não aprofunda nada. Ribeiro não defende o abandono de disciplinas complexas, mas uma reorientação de prioridades: antes de trigonometria ou equações polinomiais, o aluno precisa ler com clareza, escrever com precisão e compreender os fundamentos matemáticos. É essa base que o permitirá, no futuro, trabalhar ao lado de ferramentas de inteligência artificial — que, segundo estudo americano que ele cita, podem reduzir significativamente a lacuna de produtividade entre trabalhadores de nível médio e os mais qualificados, desde que esses trabalhadores saibam interagir com elas.

As propostas de Ribeiro são três: reformar o currículo com foco em profundidade nas competências essenciais; expandir as escolas de período integral, cujo desempenho equivale, segundo ele, a três anos de escola regular — mas que tiveram financiamento federal cortado no ano anterior; e lançar um programa robusto de recomposição de aprendizagem para os 70% de estudantes nos anos finais do ensino médio que estão abaixo do nível básico.

Quanto ao financiamento, Ribeiro aponta para o Pé-de-Meia — programa de incentivos financeiros a estudantes que custa cerca de 18 bilhões de reais — e questiona sua eficácia comprovada. O Brasil tem um dos melhores sistemas de avaliação do mundo, com o Saeb e avaliações estaduais e independentes. As ferramentas para medir o que funciona existem. O que falta, conclui Ribeiro, não é conhecimento nem consenso — é vontade política de priorizar o que a evidência indica, em vez do que rende mais votos.

Jair Ribeiro, presidente do Parceiros da Educação, está preocupado com números que revelam um abismo educacional no Brasil. Apenas 34% dos alunos do terceiro ano do ensino médio na rede pública conseguem ler e escrever no nível esperado. Em Matemática, a situação é ainda mais grave: apenas 5% desses mesmos estudantes demonstram domínio adequado. Esses dados, colhidos pelo Sistema de Avaliação da Educação Básica em 2023 e compilados pela organização Todos pela Educação, pintam um quadro que Ribeiro descreve como "escuridão cognitiva" — uma expressão que captura não apenas números, mas o que eles significam para jovens que em breve entrarão no mercado de trabalho.

O argumento de Ribeiro é direto: o Ministério da Educação deveria repensar suas prioridades curriculares. A Base Nacional Comum Curricular, que orienta o que é ensinado nas escolas brasileiras, "cobre muita coisa e não dá profundidade", diz ele. O resultado é que estudantes saem da escola sem as competências fundamentais que precisarão. Ribeiro não está pedindo para eliminar disciplinas complexas — apenas reorientando o foco. Um aluno não precisa dominar trigonometria ou equações polinomiais, argumenta. Mas precisa ler muito bem, escrever muito bem, e compreender os fundamentos da Matemática. Essa base interpretativa é o que o permitirá, mais adiante, trabalhar ao lado de sistemas de inteligência artificial.

A inteligência artificial, na visão de Ribeiro, pode ser uma "grande niveladora de conhecimentos" para trabalhadores de nível médio — desde que eles possuam essas habilidades essenciais. Um estudo recente do Instituto Nacional de Economia dos Estados Unidos, que ele cita, mostra que profissionais com formação média conseguem reduzir significativamente a lacuna de produtividade em relação aos mais qualificados quando têm acesso a ferramentas de IA. Mas isso só funciona se souberem o que pedir à máquina, se conseguirem interpretar o que ela retorna, se conseguirem ler e escrever com clareza.

Ribeiro propõe três ações concretas para o governo federal. Primeira: priorizar o currículo do MEC, aprofundando especialmente Português e Matemática. Segunda: expandir as escolas de período integral, que segundo ele funcionam tão bem que um ano nessas instituições equivale a três anos em uma escola regular. O governo federal, porém, reduziu significativamente o financiamento para essas escolas no ano anterior. Terceira: lançar um programa robusto de recomposição de aprendizagem, direcionado especificamente aos 70% de crianças nos anos finais do ensino médio que estão abaixo do nível básico.

Quando questionado sobre como financiar essas prioridades, Ribeiro sugere redirecionamento de recursos. O programa Pé-de-Meia, que oferece incentivos financeiros a estudantes, custa cerca de 18 bilhões de reais. Qual é a evidência científica de que funciona?, pergunta. Enquanto isso, há muita evidência de que programas de recomposição de aprendizagem produzem resultados. Ribeiro reconhece que o Brasil possui um dos melhores sistemas de avaliação do mundo — tem o Saeb, avaliações estaduais e independentes — então há ferramentas disponíveis para medir o que realmente funciona.

O desafio da implementação varia de estado para estado. Alguns estão mais avançados, outros menos. Há também questões de infraestrutura nas escolas e de demografia: a população se deslocou para as periferias, deixando escolas no centro subutilizadas enquanto a demanda cresce nas bordas das cidades. Construir novas escolas leva tempo, então o planejamento precisa ser descentralizado, com o MEC negociando metas específicas com cada estado e fornecendo recursos.

Ribeiro termina com uma observação sobre consenso. Existe acordo no Brasil sobre o que precisa ser feito. O problema não é falta de conhecimento, mas falta de priorização. Programas mais eleitoreiros, populistas e assistencialistas ganham espaço sobre aqueles que a evidência demonstra ser mais importantes. A questão, portanto, não é técnica — é política.

Ainda temos um volume muito grande de crianças abaixo do básico, nessa escuridão cognitiva
— Jair Ribeiro, presidente do Parceiros da Educação
A IA pode ser uma grande niveladora de conhecimentos para eles, desde que tenham as habilidades essenciais
— Jair Ribeiro
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que você insiste tanto em Português e Matemática quando o mundo está falando de inteligência artificial e programação?

Model

Porque a IA não muda a equação fundamental. Um jovem que não consegue ler um texto complexo não consegue usar uma ferramenta de IA de forma inteligente. Ele não sabe o que pedir, não consegue avaliar se a resposta faz sentido. A IA amplifica o que você já sabe.

Inventor

Mas 70% dos alunos estão abaixo do básico. Isso não é um problema de currículo, é um problema estrutural?

Model

É os dois. Sim, há problemas estruturais — infraestrutura, professores, recursos. Mas o currículo atual está espalhando a atenção. Estamos tentando ensinar muita coisa superficialmente quando deveríamos aprofundar o essencial.

Inventor

Você mencionou que escolas de período integral funcionam muito bem. Por que o governo cortou financiamento para elas?

Model

Essa é a pergunta que não consigo responder com dados. Há evidência de que funcionam. Há evidência de que recomposição de aprendizagem funciona. Mas programas com apelo eleitoral ganham prioridade.

Inventor

E se o dinheiro simplesmente não existe? Se o Brasil não tem recursos para tudo?

Model

Então você escolhe. O Pé-de-Meia custa 18 bilhões. Qual é a evidência de que funciona? Qual é a evidência de que recomposição funciona? Você financia o que a ciência diz que funciona.

Inventor

Isso soa como você está culpando os políticos.

Model

Não é culpa. É realidade. Existe consenso técnico sobre o que fazer. O que falta é coragem política para fazer escolhas difíceis.

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