Precisamos ter mais gestão, não mais recursos
Aumentar impostos elevaria ineficiência e peso morto, prejudicando ainda mais o crescimento econômico do Brasil, segundo a economista-chefe do Santander. Reformas tributária e administrativa são essenciais para sair da armadilha da renda média, mas sem controle das contas públicas o país não avançará.
- Ana Paula Vescovi é ex-secretária do Tesouro Nacional e economista-chefe do Santander Brasil
- Espírito Santo e Ceará são citados como exemplos de gestão eficiente com menos recursos
- Estados enfrentam desajustes claros em contas públicas, alimentados por gastos com pessoal e receitas vinculadas
Ana Paula Vescovi, ex-secretária do Tesouro Nacional, argumenta que aumentar impostos agravaria a ineficiência e reduziria o crescimento, defendendo reformas tributária e administrativa como alternativas.
Ana Paula Vescovi, que passou pela Secretaria do Tesouro Nacional e agora comanda a área de economia do Santander Brasil, tem uma posição clara sobre como o país deveria enfrentar sua crise fiscal: aumentar impostos não é a resposta. Falando em um seminário sobre regras fiscais promovido pelo Insper, ela argumentou que elevar a carga tributária geraria o oposto do que se espera — mais ineficiência, mais peso morto na economia, e um Brasil ainda mais lento para crescer.
O diagnóstico de Vescovi vai além da simples rejeição a novos impostos. Ela defende que as reformas tributária e administrativa são fundamentais, e espera que sejam aprovadas em prazo não muito distante. Sem elas, sem controle rigoroso das contas públicas, o país seguirá preso na armadilha da renda média, incapaz de avançar. A questão não é apenas quanto se gasta, mas como se gasta e para quê.
Em seu argumento, Vescovi cita exemplos concretos que desafiam a lógica de que mais dinheiro resolve tudo. Quando o Fundeb foi reformado, ela observa, não conseguiu identificar uma ligação clara entre o aumento de recursos e melhores resultados de aprendizagem. Mas no Espírito Santo, sob gestão de Paulo Hartung, conseguiram resultados superiores com menos recursos. O Ceará oferece outro modelo de sucesso na mesma direção. "Os exemplos do Ceará e do Espírito Santo precisam gritar", disse ela, sugerindo que o país deveria aprender com quem faz mais com menos, não com quem apenas gasta mais.
O problema real, segundo sua análise, está na gestão pública e nas prioridades orçamentárias. Os Estados enfrentam desajustes claros em suas contas — alimentados pelo peso dos gastos com pessoal ativo e inativo, e pela rigidez das receitas vinculadas a despesas específicas. Falta ao país uma cultura de discussão séria sobre prioridades no orçamento. Além disso, o sistema tributário brasileiro é ineficiente, e persiste a prática de oferecer incentivos fiscais para atrair empresas para determinadas regiões, um modelo que Vescovi considera obsoleto.
Outro participante do seminário, Aod Cunha, ex-secretário da Fazenda do Rio Grande do Sul, reforçou que os Estados precisam "ousar mais" para equilibrar suas contas. Apenas congelar salários não é suficiente. Cunha apontou um problema estrutural: a Lei de Responsabilidade Fiscal cria um mecanismo pelo qual o ônus estadual sempre termina caindo sobre o Tesouro Nacional. Para sair desse ciclo, é necessário que todos os poderes dos Estados se engajem genuinamente no cumprimento das regras fiscais.
O debate reflete uma tensão central na política econômica brasileira: a tentação de resolver problemas fiscais simplesmente cobrando mais, versus a necessidade mais árdua de reformar estruturas, melhorar eficiência e fazer escolhas difíceis sobre prioridades. Vescovi e Cunha apontam para um caminho que exige mais trabalho político e administrativo, mas que poderia, segundo eles, produzir resultados mais duráveis.
Notable Quotes
Se aumentarmos impostos, vamos aumentar ineficiência. Vamos aumentar o peso morto e levar o Brasil a crescer ainda menos.— Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander Brasil
Sem o controle das contas públicas, não sairemos da armadilha da renda média no Brasil— Ana Paula Vescovi
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que a economista rejeita tão categoricamente a ideia de aumentar impostos?
Porque ela vê isso como um remédio que piora a doença. Mais impostos significam mais ineficiência no sistema, mais distorções econômicas — o que ela chama de "peso morto". E um país já lento fica ainda mais lento.
Mas não há momentos em que um Estado precisa de mais receita para funcionar?
Claro que há. Mas Vescovi está dizendo que o Brasil não tem um problema de receita — tem um problema de como gasta o que arrecada. Os exemplos do Espírito Santo e Ceará mostram que é possível fazer mais com menos, se houver gestão competente.
Então a culpa é dos gestores públicos?
Não exatamente culpa, mas responsabilidade. O sistema está travado: receitas vinculadas a despesas específicas, gastos com pessoal que não diminuem, falta de priorização real. É estrutural, não pessoal.
E as reformas tributária e administrativa que ela menciona — são viáveis politicamente?
Essa é a pergunta que fica no ar. Ela espera que sejam aprovadas em prazo "não muito distante", mas soa como esperança mais que previsão. Reformas desse tamanho enfrentam resistências enormes.
O que significa exatamente "sair da armadilha da renda média"?
Significa que o Brasil está preso em um nível de desenvolvimento intermediário, sem conseguir avançar para a próxima etapa. Sem controle das contas públicas e sem reformas estruturais, o país segue nesse limbo.
E os Estados — por que eles são tão importantes nessa conversa?
Porque muitos Estados estão quebrados ou à beira disso. Se não conseguirem equilibrar suas contas de forma sustentável, o problema cai no colo do governo federal. É um risco sistêmico.