O Ibovespa encerrou em queda de 0,45%, acumulando perdas de 2,38% no mês, ignorando o alívio geopolítico do cessar-fogo no Golfo Pérsico. Investidores temem que o Banco Central encerre rapidamente o ciclo de cortes de juros, tornando a renda fixa mais atraente que ações.
Alívio geopolítico não sustenta Ibovespa diante de incertezas sobre Selic
Num mercado abandonado pelos locais e pelos estrangeiros, por que bancar a bolsa?
Por que o mercado ignorou completamente o cessar-fogo entre EUA e Irã?
Porque o Brasil está preso em uma narrativa diferente. Enquanto o mundo comemora petróleo mais barato, investidores aqui estão contando quantas reuniões do Banco Central faltam para os juros pararem de cair.
Então a Petrobras deveria estar subindo com petróleo mais barato?
Deveria, mas não está. Ela representa 12% da carteira do Ibovespa e virou uma âncora. Está devolvendo os ganhos de março enquanto o preço do barril desaba. É como se o mercado já tivesse precificado uma queda que não veio.
O Copom vai cortar juros amanhã mesmo assim?
Provavelmente sim, mais 0,25 ponto percentual. Mas o mercado já está olhando para depois. Quando os cortes acabarem, a renda fixa fica muito mais atraente que ações. É por isso que ninguém quer bancar a bolsa agora.
E o capital estrangeiro, que sustenta a bolsa?
Está saindo. Começou o ano vindo para cá porque esperava queda de juros. Agora vê que o ciclo é curto, que há incerteza política com Lula se fortalecendo, e que as bolsas asiáticas têm inteligência artificial a preços muito melhores.
Os investidores locais não estão comprando?
Não. Estão no menor nível de posições em ações da história, assustados com o risco fiscal. Preferem trabalhar com futuros, buscando ganhos rápidos nas incertezas, em vez de apostar no longo prazo.
Então a bolsa está abandonada?
Praticamente. Locais não querem, estrangeiros estão indo embora. A questão agora é quem sustenta isso daqui para frente.
The Pulse
- Ibovespa fechou em queda de 0,45%, aos 169.648 pontos, apesar do cessar-fogo EUA-Irã
- Acumula perdas de 2,38% no mês e 17,7 pontos percentuais desde pico de 23% em abril
- Petrobras, com 12% da carteira teórica, funciona como barreira ao alívio
- Investidores locais em ações domésticas estão no menor nível histórico
- Capital estrangeiro migra para bolsas asiáticas com teses de inteligência artificial
O Ibovespa encerrou em queda de 0,45%, acumulando perdas de 2,38% no mês, ignorando o alívio geopolítico do cessar-fogo no Golfo Pérsico. Investidores temem que o Banco Central encerre rapidamente o ciclo de cortes de juros, tornando a renda fixa mais atraente que ações.
Apesar do cessar-fogo entre EUA e Irã aliviar tensões geopolíticas, o Ibovespa recua 0,45% devido a preocupações com o ciclo de cortes de juros no Brasil e fuga de investidores estrangeiros.
A bolsa brasileira fechou terça-feira em queda de 0,45%, aos 169.648 pontos, ignorando completamente o alívio que varreu os mercados globais após o anúncio do cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã. O reaparecimento de petróleo mais barato e a reabertura do Estreito de Ormuz — eventos que costumam acender sinais verdes em carteiras de ações — não conseguiram reverter o pessimismo que domina o mercado local. Desde o anúncio do acordo no Golfo Pérsico, o Ibovespa não saiu do vermelho.
O problema não é geopolítico. É doméstico. Enquanto o mundo respirava aliviado com o fim da tensão no Oriente Médio, investidores brasileiros estavam fixados em outra coisa: quanto tempo mais o Banco Central conseguirá sustentar a queda dos juros. A expectativa para a reunião do Copom na quarta-feira — a chamada superquarta — dominou o pregão de terça. Gestores admitem que há espaço para mais um corte de 0,25 ponto percentual na Selic, mas o consenso é claro: o ciclo de alívios está chegando ao fim. E quando isso acontecer, a renda fixa fica muito mais atraente que ações.
A Petrobras, que representa 12% da carteira teórica do índice, virou uma barreira contra qualquer recuperação. Enquanto os preços futuros do petróleo derretiam, as ações da estatal devolviam os ganhos acumulados em março. Ontem, foi justamente a Petrobras que puxou o Ibovespa para baixo, apesar do trade de alívio que deveria ter sido acionado pelo cessar-fogo. O giro financeiro do dia ficou em R$ 19,4 bilhões, pouco acima da média dos últimos 12 meses de R$ 18,4 bilhões — um sinal de que nem mesmo o volume de negócios conseguiu sustentar a carteira.
Mas há mais pressão vindo. O Copom promete um comunicado mais duro amanhã, com sinais de que pode interromper o ciclo de cortes. Ao mesmo tempo, novas pesquisas de intenção de voto mostram Lula se fortalecendo contra Flávio Bolsonaro, seu principal oponente à direita. Com a corrida presidencial aparentando ser mais fácil para o atual presidente, investidores estão retirando do cenário a probabilidade de um candidato do campo conservador — aquele mais alinhado com a agenda do mercado financeiro. Juros altos por mais tempo no Brasil criam um ambiente ainda mais desfavorável para quem quer bancar ações.
O cenário revela uma mudança profunda nos fluxos de capital. No começo do ano, antes da guerra no Golfo, o principal atrativo para o capital estrangeiro vir para a bolsa brasileira era exatamente a perspectiva de queda da Selic — afinal, o mundo inteiro já havia cortado juros, faltava o Brasil. Mas esse quadro se inverteu sob as pressões inflacionárias do petróleo mais caro. Nos Estados Unidos, as teses ligadas a inteligência artificial voltaram a brilhar nas bolsas. Agora, com o risco de o Copom encerrar o ciclo de cortes mais rapidamente que o esperado, o mercado de ações brasileiro ganhou concorrentes de peso.
O dólar à vista avançou 0,4% nesta terça, fechando a R$ 5,09. Na semana, está com alta de quase 0,5%. A questão se torna ainda mais grave quando se olha para quem sustenta a bolsa brasileira desde o início de 2025: o capital estrangeiro. Os investidores institucionais locais reduziram suas posições em ações domésticas aos menores níveis da história, assustados com o risco fiscal do país. Num mercado abandonado pelos locais, agora também vendo os estrangeiros saírem pela porta, a pergunta central é simples: por que bancar uma aposta na bolsa do Brasil neste momento?
Os fundos locais encontraram uma alternativa: trabalhar com posições no mercado de futuros, buscando assimetrias provocadas pelas incertezas sobre os juros para amplificar ganhos. Já os estrangeiros com apetite por mercados emergentes migraram para bolsas asiáticas — Coreia do Sul, Taiwan, China — onde as teses de inteligência artificial são vendidas a preços bem mais atraentes. O Ibovespa acumula queda de 2,38% no mês e perdeu 17,7 pontos percentuais desde seu pico de 23% de valorização em meados de abril, agora em 5,3% no ano. O alívio geopolítico, afinal, não consegue competir com as incertezas locais.
Notable Quotes
O alívio geopolítico se choca com a narrativa local— Análise de mercado
Há consenso de que as quedas de juros não devem se estender muito mais— Gestores de investimento