Em Manaus, onde a floresta mais biodiversa do mundo convive com prateleiras dominadas por ultraprocessados, uma nutricionista do Hospital Universitário Getúlio Vargas propõe um retorno ao que sempre esteve à mão: tambaqui, tucumã, açaí e castanha-da-Amazônia como antídotos concretos à obesidade e às doenças crônicas que ela carrega. A questão não é apenas nutricional — é cultural, familiar e geracional, pois os hábitos formados na infância desenham a relação que cada pessoa terá com a comida por toda a vida.
Alimentos amazônicos como tambaqui e açaí podem ajudar na prevenção da obesidade
Descascar mais e desembalar menos
Por que a nutricionista escolheu destacar especificamente alimentos amazônicos? Não seria mais fácil recomendar opções genéricas?
Porque aqui em Manaus, as pessoas têm acesso a esses alimentos. Tambaqui, tucumã e açaí não são abstrações — estão na feira, no mercado local. A recomendação ganha peso quando conecta à realidade de quem está ouvindo.
Mas o artigo não traz dados sobre quanto essas substituições realmente reduzem o peso ou o risco de doença. Sabemos que são nutritivos, mas qual é o impacto mensurável?
A nutricionista menciona que a obesidade envolve fatores genéticos e metabólicos. Isso significa que nem toda pessoa que come ultraprocessados fica obesa?
Exatamente. Há predisposição genética envolvida. Mas o artigo deixa claro que o comportamento — o que você come, quanto se move, como dorme — amplifica ou reduz esse risco.
Ela também cita estresse e qualidade do sono como fatores. Mas não explica como alguém em situação de pobreza, trabalhando dois turnos, consegue dormir bem e fazer atividade física. A recomendação é válida, mas incompleta.
O que é mais importante: mudar o que as crianças comem agora ou mudar como elas pensam sobre comida?
Os dois, mas o segundo é mais duradouro. Se você apenas proíbe doce, a criança cresce querendo doce em segredo. Se você muda a relação — mostrando que comida é prazer, não punição — o hábito fica.
Verdade, mas o artigo não oferece ferramentas práticas para pais que já estão estressados e cansados. "Leve os filhos à feira" é bonito, mas e quem trabalha o dia inteiro?
Então o ponto central é que Manaus tem vantagem porque tem acesso a alimentos regionais nutritivos?
Sim. Muitas cidades não têm tambaqui fresco ou tucumã disponível. Aqui, a solução está literalmente ao alcance.
Mas o artigo não menciona preço. Será que castanha-da-Amazônia e açaí de qualidade são acessíveis para a população de baixa renda? Essa é a lacuna.
O Pulso
- O consumo diário de ultraprocessados baratos e hipercalóricos substituiu silenciosamente os alimentos tradicionais amazônicos nas mesas de Manaus, elevando os riscos de diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares.
- A obesidade não obedece a uma causa única: genética, sedentarismo, privação de sono, estresse e ambiente social se combinam para tornar o problema mais difícil de enfrentar do que qualquer dieta isolada consegue resolver.
- A nutricionista Luciana Santana propõe um princípio direto — 'descascar mais e desembalar menos' — e aponta a biodiversidade amazônica como um trunfo real e acessível para refeições nutritivas e equilibradas.
- Hábitos alimentares se constroem na infância, e armadilhas comuns como usar doces como recompensa ou obrigar crianças a limpar o prato podem distorcer para sempre a relação delas com a comida.
- O acompanhamento profissional em nutrição não deve esperar a obesidade se instalar — alterações de glicose, dificuldades com a alimentação e fases específicas da vida já justificam uma avaliação especializada.
Em Manaus, onde a floresta mais biodiversa do mundo convive com prateleiras dominadas por ultraprocessados, uma nutricionista do Hospital Universitário Getúlio Vargas propõe um retorno ao que sempre esteve à mão: tambaqui, tucumã, açaí e castanha-da-Amazônia como antídotos concretos à obesidade e às doenças crônicas que ela carrega. A questão não é apenas nutricional — é cultural, familiar e geracional, pois os hábitos formados na infância desenham a relação que cada pessoa terá com a comida por toda a vida.
Na rotina de muitas famílias em Manaus, refrigerante no almoço, biscoito recheado no lanche e refeição pronta no jantar formam um padrão que o corpo registra com o tempo. O peso aumenta, e junto crescem os riscos de diabetes tipo 2, hipertensão e doenças cardiovasculares. A obesidade, porém, vai além das escolhas individuais — envolve genética, metabolismo, comportamento e ambiente.
Luciana Santana, nutricionista do Hospital Universitário Getúlio Vargas da Ufam, aponta o consumo excessivo de ultraprocessados como o principal fator: produtos baratos, hipercalóricos, carregados de açúcar, gordura e aditivos que foram ocupando o espaço dos alimentos tradicionais da região. O sedentarismo completa a equação.
A resposta que ela propõe é simples na formulação: 'descascar mais e desembalar menos'. No café da manhã, tapioca com ovo, macaxeira ou cará cozidos. Nos lanches, frutas da estação, castanha-da-Amazônia e iogurte natural no lugar de salgadinhos. Nas bebidas, água — e uma redução drástica de refrigerantes e sucos industrializados.
Manaus carrega uma vantagem que poucas cidades têm: a biodiversidade amazônica. Tambaqui e tucunaré oferecem proteína e gorduras benéficas. O tucumã fornece carotenoides e vitamina A. O açaí, sem excesso de açúcar, entrega fibras e antioxidantes. Esses alimentos não apenas nutrem — reconectam as pessoas com a culinária regional e oferecem alternativas reais aos produtos industrializados.
A formação de hábitos começa cedo. Refeições em família, variedade de alimentos desde os primeiros anos e a ausência de telas à mesa constroem uma relação saudável com a comida. Santana alerta para armadilhas comuns: usar doces como recompensa ensina à criança que o legume é castigo e o doce é prêmio. Envolver os filhos na escolha e no preparo dos alimentos, e levá-los à feira para conhecer frutas regionais, são caminhos mais eficazes.
Além da alimentação, sono adequado, controle do estresse e atividade física regular são pilares incontornáveis. E o acompanhamento nutricional não precisa esperar a obesidade se instalar — alterações de glicose, dificuldades com a comida ou fases específicas da vida já são razões suficientes para buscar um especialista.
Na rotina de muitas famílias em Manaus, o padrão é previsível: refrigerante acompanhando o almoço, biscoito recheado no intervalo da tarde, refeição pronta esquentada no jantar. Quando essas escolhas se repetem com frequência, o corpo responde. O peso sobe. O risco de diabetes tipo 2, hipertensão, infarto e acidente vascular cerebral cresce junto. A obesidade, porém, não é apenas resultado de decisões individuais — envolve genética, metabolismo, comportamento, estrutura social e ambiente.
Luciana Santana, nutricionista do Hospital Universitário Getúlio Vargas vinculado à Universidade Federal do Amazonas, identifica o culpado mais óbvio: o consumo excessivo de ultraprocessados. São produtos baratos, hipercalóricos, repletos de açúcar, gordura e aditivos químicos. Eles ocuparam o lugar que antes pertencia aos alimentos tradicionais da região. Somado a isso, o sedentarismo completa a equação do ganho de peso. "O grande vilão hoje em dia é o consumo exagerado de alimentos ultraprocessados, aqueles cheios de açúcar, gordura e aditivos, somado ao sedentarismo. Aqui em Manaus, a gente vê muito isso: produtos de pacote, baratos e hipercalóricos, foram ocupando o lugar dos nossos alimentos tradicionais do dia a dia", explica a profissional.
A solução, segundo Santana, passa por um princípio simples: "descascar mais e desembalar menos". Isso significa priorizar alimentos in natura ou minimamente processados. No café da manhã, tapioca com ovo mexido, macaxeira ou cará cozidos formam uma refeição equilibrada. Nos lanches, frutas da estação, castanha-da-Amazônia e iogurte natural com aveia substituem biscoitos recheados e salgadinhos industrializados. Nas bebidas, água é a recomendação; refrigerantes, sucos de caixa e bebidas açucaradas devem ser reduzidos drasticamente.
Mas Manaus tem um trunfo que muitas cidades não possuem: a biodiversidade amazônica. Peixes como tambaqui e tucunaré são fontes robustas de proteína e fornecem gorduras benéficas, dependendo da espécie e do modo de preparo. O tucumã contém carotenoides precursores da vitamina A e gorduras. O açaí, quando consumido sem excesso de açúcar ou xaropes, oferece fibras e compostos antioxidantes. "A nossa biodiversidade é um verdadeiro tesouro para a saúde", ressalta Santana. Essas opções locais não são apenas nutritivas — elas reconectam as pessoas com a culinária regional e oferecem alternativas concretas aos produtos industrializados que dominam as prateleiras.
A formação de hábitos alimentares saudáveis, porém, começa cedo. Nos primeiros anos de vida, a oferta de alimentos variados, a redução de ultraprocessados e as refeições em família estabelecem a relação que a criança terá com a comida pelo resto da vida. Mas há armadilhas comuns. Oferecer doces como recompensa, usar alimentos como punição ou obrigar a criança a limpar o prato envia mensagens confusas. Quando um pai diz "se comer o legume, ganha sobremesa", a criança aprende que o legume é castigo e o doce é prêmio. Santana recomenda envolver as crianças na escolha e no preparo dos alimentos, levar os filhos à feira para conhecer frutas regionais e apresentar receitas simples desde cedo. Evitar celulares e televisão durante as refeições também importa.
Além da alimentação, outros fatores moldam o peso corporal. Dormir pouco altera mecanismos hormonais ligados à fome e à saciedade. O estresse influencia o comportamento alimentar. A atividade física regular preserva a massa muscular, melhora a sensibilidade à insulina e oferece benefícios à saúde física e mental. A nutricionista também alerta que o acompanhamento profissional não deve ser procurado apenas quando há necessidade de perda de peso. Alterações nos níveis de glicose e colesterol, dificuldades na relação com a comida e necessidades nutricionais específicas — da infância, da gestação, da terceira idade — também justificam uma avaliação com especialista.
Citações Notáveis
O grande vilão hoje em dia é o consumo exagerado de alimentos ultraprocessados, aqueles cheios de açúcar, gordura e aditivos, somado ao sedentarismo.— Luciana Santana, nutricionista do HUGV-Ufam
A nossa biodiversidade é um verdadeiro tesouro para a saúde— Luciana Santana, nutricionista do HUGV-Ufam