A menos de quatro meses das eleições americanas de novembro, uma guerra no Irã e uma epidemia parasitária que já atingiu 12 mil pessoas em 41 estados convergem como metáforas de um país que sente o governo incapaz de protegê-lo. Com aprovação presidencial em 34% e 73% dos americanos convictos de que o presidente ignora seus problemas reais, a democracia em si emergiu como segunda prioridade eleitoral — sinal de que a ansiedade vai além da economia. Republicanos e democratas navegam esse momento de formas opostas: uns por lealdade, outros por convulsão interna.
Alface, guerra e democracia pesam na eleição dos EUA
Sua vida pode ser virada de cabeça para baixo tanto por uma guerra quanto pela diarreia de um bebê
Por que uma epidemia de parasitas virou tão importante para as eleições?
Porque não é realmente sobre o parasita. É sobre a sensação de que ninguém está no controle. Você tem guerra, inflação, comida contaminada — tudo ao mesmo tempo. O parasita foi removido da vigilância federal. Isso não é acidente, é escolha.
E isso muda o voto das pessoas?
Muda porque toca em algo mais profundo. As pessoas já estão assustadas com o custo de vida. Agora também têm medo de adoecer por aquilo que comem. É a ansiedade se multiplicando.
Os democratas deveriam estar vencendo com esses números de aprovação tão baixos.
Você diria isso, mas o Partido Democrata também está em colapso. Não conseguem falar com uma voz única. Têm desde moderados até socialistas. Enquanto isso, os republicanos apenas dizem "lealdade ao presidente".
Então ninguém está oferecendo uma solução real?
Ninguém está oferecendo uma história que as pessoas acreditem. Obama fez isso duas vezes. Mas os problemas que ele enfrentou apenas pioraram. O partido dele não sabe como dizer ao eleitor que as coisas podem melhorar.
E a democracia? Por que isso virou a segunda prioridade?
Porque as pessoas percebem que o sistema está quebrado. Não é abstrato. É sobre se suas instituições ainda funcionam, se seu voto ainda importa.
The Pulse
- A guerra no Irã e um surto de diarreia parasitária evitável fundiram-se no imaginário do eleitor americano como uma única sensação de abandono institucional.
- O parasita da ciclosporíase avançou sem vigilância porque foi retirado da lista de monitoramento federal pelo secretário de Saúde Robert Kennedy Jr., infectando cerca de 12 mil pessoas em 41 estados.
- A aprovação presidencial despencou para 34%, e 73% dos americanos acreditam que o presidente não presta atenção nos problemas reais do país, segundo pesquisa da CNN.
- Pela primeira vez, 'proteger a democracia' subiu para a segunda posição nas prioridades dos eleitores, logo atrás do custo de vida — sinal de uma ansiedade que transcende o bolso.
- Os democratas enfrentam crise de identidade profunda: apenas 40% dos americanos os veem favoravelmente, e o partido ainda não encontrou resposta convincente para por que o governo seria a solução.
A menos de quatro meses das eleições americanas de novembro, uma guerra no Irã e uma epidemia parasitária que já atingiu 12 mil pessoas em 41 estados convergem como metáforas de um país que sente o governo incapaz de protegê-lo. Com aprovação presidencial em 34% e 73% dos americanos convictos de que o presidente ignora seus problemas reais, a democracia em si emergiu como segunda prioridade eleitoral — sinal de que a ansiedade vai além da economia. Republicanos e democratas navegam esse momento de formas opostas: uns por lealdade, outros por convulsão interna.
Há anos, uma amiga jornalista e mãe recente observou que a vida pode ser virada de cabeça para baixo tanto por uma guerra distante quanto pela diarreia de um bebê. Esta semana, essa observação ganhou peso inesperado: a guerra no Irã divide espaço nos noticiários com uma epidemia de ciclosporíase que já atingiu cerca de 12 mil americanos em pelo menos 41 estados. Os dois acontecimentos, aparentemente desconectados, estão moldando o humor político do país a menos de quatro meses das eleições de novembro.
A guerra é impopular e imprevisível. A epidemia, por sua vez, era evitável — o parasita provavelmente entrou na cadeia alimentar por alface contaminada e teria sido detectado se não tivesse sido removido da lista de monitoramento federal pelo secretário de Saúde Robert Kennedy Jr. Para o eleitor americano, bombas no Irã, preços em alta desde fevereiro e o medo de adoecer pelo que se coloca na mesa fundem-se numa única sensação: a de estar cercado por ameaças que o governo não consegue controlar.
Uma pesquisa da CNN revela que 73% dos adultos americanos acreditam que o presidente não presta atenção nos problemas reais do país, e a aprovação presidencial despencou para 34%. Mais revelador ainda: 'proteger a democracia' subiu para a segunda posição nas prioridades dos eleitores, logo atrás do custo de vida — uma ansiedade que vai além do bolso.
Seria de esperar que os democratas estivessem exultantes. Não estão. Apenas 40% dos americanos os veem favoravelmente, e o partido vive em convulsão interna, tentando abrigar desde centro-direitistas até social-democratas. O partido que ocupou a Casa Branca por 12 dos últimos 17 anos ainda não encontrou resposta para a pergunta mais simples que o eleitor exausto faz: por que sua vida vai melhorar se votarmos neles?
Há anos, uma amiga minha fez uma observação que não saía da minha cabeça. Estávamos cancelando planos de novo, e ela suspirou: "Sua vida pode ser virada de cabeça para baixo tanto por uma guerra no Oriente Médio quanto pela diarreia de um bebê". Como jornalista de televisão, eu sabia bem o que ela queria dizer. Um conflito distante podia explodir nas manchetes a qualquer momento. Como mãe de um recém-nascido, uma dor de barriga inesperada podia me prender em casa por horas. Ambas as coisas eram reais. Ambas as coisas importavam.
Nesta semana, aquela observação ganhou uma dimensão que ninguém esperava. A guerra no Irã continua dominando os noticiários, mas agora compete por espaço com algo igualmente perturbador: uma epidemia de ciclosporíase que já atingiu cerca de 12 mil pessoas espalhadas por pelo menos 41 estados americanos. Os dois acontecimentos, aparentemente desconectados, estão moldando o humor político do país a menos de quatro meses das eleições de novembro. E ambos podem desmantelar os planos que o Partido Republicano tinha para manter o poder.
A guerra é impopular — uma maioria sólida a desaprova. Mas é também imprevisível, dependente das decisões do presidente de um momento para o outro. A ciclosporíase, por outro lado, era evitável. O parasita provavelmente entrou na cadeia alimentar através de alface contaminada, e teria sido detectado se não fosse removido da lista de monitoramento regular do governo federal. Quem tirou? Robert Kennedy Jr., o secretário de Saúde. O parasita avançou sem vigilância, e agora milhares de americanos lidam com infecções que exigem tratamento com antibióticos.
Mas o que realmente importa aqui não é a biologia. É a metáfora. Semana após semana, os noticiários falam sobre "diarreia explosiva", sobre comida contaminada, sobre o medo de adoecer por aquilo que você coloca na mesa. Enquanto isso, as bombas caem no Irã e os preços dos combustíveis sobem desde fevereiro. Para o eleitor americano, tudo isso se funde numa única sensação: a de estar cercado por ameaças que o governo não consegue controlar.
Uma pesquisa recente da CNN traz números que deveriam alarmar qualquer político no poder. Setenta e três por cento dos adultos americanos acreditam que o presidente não está prestando atenção aos problemas reais do país. Outras pesquisas confirmam o que já sabemos: o custo de vida é a prioridade número um. Mas há algo novo acontecendo. "Proteger a democracia" subiu para a segunda posição nas preocupações dos eleitores, logo atrás do preço dos alimentos. A inflação, a falta de moradia, o acesso ao seguro-saúde — tudo isso pesa. Mas agora também pesa a sensação de que as próprias instituições democráticas estão em risco.
Com a aprovação presidencial desabando para 34%, seria de esperar que os democratas estivessem exultantes. Não estão. Apenas 40% dos americanos veem o Partido Democrata de forma favorável. O sistema bipartidário americano foi literalmente invertido por Trump. Os republicanos moderados que ainda existem foram expulsos do partido, que agora funciona basicamente como um mecanismo para demonstrar lealdade ao presidente. Já os democratas vivem em convulsão interna, tentando abrigar tudo ao mesmo tempo — desde centro-direitistas até social-democratas como Zohran Mamdani, prefeito de Nova York.
O partido que ocupou a Casa Branca por 12 dos últimos 17 anos enfrenta agora uma crise de identidade. Como você diz a um eleitor exausto que o governo pode ser uma solução quando o governo falhou em tantas frentes? Barack Obama conseguiu isso duas vezes. Em 2008, apelou à esperança em meio ao crash financeiro. Em 2012, adotou um discurso de classe, pintando o republicano como inimigo dos pobres. Mas os dilemas que marcaram aquelas campanhas apenas pioraram na última década. E o partido que Obama liderou por oito anos ainda não encontrou uma resposta convincente para a pergunta mais simples: por que sua vida vai melhorar se votarmos neles?
Notable Quotes
Sua rotina pode depender tanto da guerra no Oriente Médio quanto da diarreia de um bebê— Amiga da autora
O partido que Obama liderou por oito anos vive um conflito interno sobre como dizer ao eleitor exausto que sua vida pode melhorar— Análise da colunista