Alex Flemming leva exposição 'Apocalipse' às ruínas históricas dos Palacetes da Sé

O abandono também é uma forma de fim do mundo
Flemming explica por que escolheu as ruínas dos Palacetes da Sé como cenário para sua exposição sobre destruição.
Mark

Por que escolher ruínas para exibir pinturas sobre o apocalipse? Não seria mais direto usar um espaço limpo, branco, neutro?

Mimi

Porque a neutralidade seria uma mentira. Se estou falando sobre o fim, sobre o abandono, sobre Tânatos, preciso que o espaço respire isso. As paredes descascadas não são cenário — são parte da conversa.

Mark

E a luz natural? Por que abrir mão do controle que a luz elétrica oferece?

Mimi

Porque o mundo não é controlado. A luz muda, as cores mudam, a experiência muda. Às 11 da manhã você vê uma coisa; às 16h, outra. Isso é mais honesto com o que estou tentando dizer sobre transformação.

Mark

Você passou 34 anos fora do Brasil. O que traz você de volta agora, aos 72 anos?

Mimi

Cheguei a um ponto onde senti que precisava contribuir pessoalmente ao país onde nasci. Berlim me ensinou muito — vi exposições em bunkers, em casas bombardeadas. Mas São Paulo é minha origem. É hora de voltar.

Mark

A série começou em 2015, após Paris. Mas por que continuar pintando apocalipses? O mundo não mudou?

Mimi

Mudou, sim. Mas a fragilidade permanece. A tolerância continua sendo frágil. O que mudou é que agora estou velho o suficiente para saber que essas duas coisas — vida e morte, Eros e Tânatos — não são opostas. São a mesma moeda.

  • A violência do Bataclan em 2015 não deixou Flemming em silêncio — transformou-o em pintor do fim do mundo, obrigado a perguntar o que a civilização vale quando se destrói a si mesma.
  • Trinta e sete telas de grandes dimensões retratam Notre-Dame, a Sagrada Família e a Mesquita Azul em explosão, mas recusam a feiura: cada destruição foi pintada para seduzir o olhar.
  • A luz elétrica foi quase banida da mostra — as tintas metálicas respondem ao sol que muda hora a hora, tornando cada visita uma experiência irrepetível e o próprio tempo um curador invisível.
  • O espaço escolhido não é neutro: prédios abandonados por 85 anos, projetados por Ramos de Azevedo e Giuseppe Sacchetti, transformam o declínio arquitetônico em extensão viva do tema apocalíptico.
  • O retorno de Flemming ao Brasil após mais de três décadas fecha um arco biográfico — o artista que partiu jovem volta para depositar no país natal o peso e a beleza do que aprendeu sobre o colapso e a permanência.

Em meio às paredes descascadas dos Palacetes da Sé, no Centro de São Paulo, o artista Alex Flemming inaugura 'Apocalipse' — 37 pinturas de monumentos mundiais em chamas, concebidas após os atentados de Paris em 2015. O gesto não é apenas estético: é uma meditação sobre a fragilidade da civilização e o paradoxo de encontrar beleza na destruição. Aos 72 anos, após 34 anos em Berlim, Flemming retorna ao país natal para oferecer ao Brasil o capítulo final de uma obra que interroga o que resta quando os valores fundamentais ruem.

No Centro de São Paulo, dois palacetes históricos esquecidos por décadas abrem as portas neste sábado para receber 'Apocalipse', exposição do artista plástico Alex Flemming. As paredes descascadas e os tijolos aparentes dos Palacetes da Sé não são acidente — são parte deliberada de uma narrativa sobre declínio e fim.

A série nasceu em 2015, quando Flemming assistia de Berlim às notícias dos atentados ao Teatro Bataclan em Paris. Aquele choque o levou a pintar monumentos emblemáticos da humanidade — Notre-Dame, a Sagrada Família, a Tower Bridge, a Mesquita Azul — todos retratados em cenas de explosão. Mas há um paradoxo central no trabalho: apesar do tema sombrio, o artista insiste na beleza. 'A obra precisa ser bela, sensual e sedutora, mesmo quando trata de assuntos terríveis', explica, evocando a tradição renascentista que sabia extrair graça até dos temas mais perturbadores.

A exposição foi concebida como percurso simbólico: o visitante começa pela série 'Retratos Invisíveis', figuras humanas translúcidas, e avança para as 37 telas de grandes dimensões do 'Apocalipse'. Flemming optou por prescindir de luz elétrica na maior parte da mostra — as pinturas em tintas metálicas respondem à luz natural que muda ao longo do dia, tornando cada hora uma experiência distinta.

Os palacetes têm história própria: o imóvel da Rua Roberto Simonsen é atribuído a Ramos de Azevedo, arquiteto do Theatro Municipal e da Pinacoteca; o segundo foi projetado em 1910 pelo italiano Giuseppe Sacchetti. Para Flemming, o estado de abandono reforça a narrativa: 'Apresento o Apocalipse dentro de um cenário apocalíptico. O abandono também é uma forma de fim do mundo.'

Aos 72 anos, após 34 anos vivendo em Berlim, Flemming retorna a São Paulo — cidade onde nasceu e onde criou a intervenção permanente na Estação Sumaré do Metrô. Descobriu os palacetes pela internet e reconheceu neles o eco das casas bombardeadas e bunkers onde viu exposições na capital alemã. 'Resolvi voltar para dar minha contribuição pessoal ao país', disse. A mostra segue até 30 de agosto, diariamente das 11h às 16h, com entrada gratuita.

No coração do Centro de São Paulo, entre as ruas Roberto Simonsen e Venceslau Brás, dois edifícios históricos que permaneceram esquecidos durante décadas estão prestes a ganhar nova vida. Os Palacetes da Sé, redescobertos há poucos meses, abrem suas portas neste sábado para receber a exposição "Apocalipse", do artista plástico Alex Flemming. O espaço, com suas paredes descascadas, tijolos aparentes e marcas de infiltração, não é cenário casual — é parte intencional da narrativa que Flemming quer contar.

A série que ocupa esses palacetes nasceu em 2015, quando Flemming acompanhava de Berlim as notícias dos atentados ao Teatro Bataclan em Paris. Aquele episódio de violência o levou a uma reflexão mais profunda: como a civilização contemporânea, tão frágil, pode permitir o colapso de valores fundamentais como a tolerância e a convivência entre diferentes? A resposta veio através da arte. Flemming começou a pintar alguns dos monumentos mais emblemáticos da humanidade — a Catedral de Notre-Dame, a Sagrada Família, a Tower Bridge de Londres, a Mesquita Azul de Istambul — todos retratados em cenas de explosão e destruição.

Mas há um paradoxo deliberado no trabalho. Apesar do tema sombrio, Flemming insiste em buscar beleza e sensualidade em cada tela. "Uma questão fundamental para mim, como colorista, é que a obra precisa ser bela, sensual e sedutora, mesmo quando trata de assuntos terríveis como o apocalipse", explica. Ele se reporta à pintura renascentista e pré-renascentista, aquela tradição que sabia extrair graça até dos temas mais perturbadores. As obras dialogam também com os conceitos de Eros e Tânatos — vida e morte, desejo e transformação — duas faces de uma mesma moeda que atravessam toda sua produção.

A exposição foi concebida como uma experiência imersiva. O percurso começa com a série "Retratos Invisíveis", figuras humanas translúcidas e coloridas que funcionam como uma passagem simbólica. Daí, o visitante segue para as telas de "Apocalipse", uma jornada que vai da vida para a destruição. Ao todo, 37 pinturas em grandes dimensões ocupam os espaços. Um detalhe crucial: Flemming optou por não usar luz elétrica na maior parte da mostra. As obras serão vistas principalmente sob luz natural, que muda ao longo do dia e transforma a percepção das pinturas feitas com tintas metálicas. "Às 11h será uma experiência; às 14h, outra; às 16h, outra. O mundo está em constante transformação", diz ele.

Os Palacetes da Sé têm história própria. O imóvel da Rua Roberto Simonsen foi identificado como obra de Ramos de Azevedo, o arquiteto responsável por marcos paulistanos como o Theatro Municipal, a Pinacoteca e o Mercado Municipal. Após 85 anos sem uso regular, o prédio amarelo inicia agora sua trajetória como espaço cultural. Conectado a ele está outro palacete histórico, projetado em 1910 pelo arquiteto italiano Giuseppe Sacchetti. A escolha não foi acidental. Para Flemming, o estado de conservação dos edifícios reforça a narrativa: "Existe uma simbiose conceitual muito forte, porque apresento o Apocalipse dentro de um cenário apocalíptico. Quero que as pessoas vejam o que é o declínio, o que é o fim do mundo. Porque o abandono também é uma forma de fim do mundo".

Aos 72 anos, Flemming retorna a São Paulo após 34 anos vivendo em Berlim. Nascido na capital paulista, construiu uma carreira internacional com trabalhos exibidos em museus e galerias da Europa, das Américas e da Ásia. Na cidade onde nasceu, sua obra mais conhecida é a intervenção permanente na Estação Sumaré do Metrô, inaugurada em 1998, que combina retratos fotográficos e poemas de autores brasileiros. Agora, decidiu dedicar o período final de sua vida ao país de origem. "Eu morei muito mais da metade da minha vida fora do Brasil. Resolvi voltar para dar minha contribuição pessoal ao país", disse ao G1. Descobriu os Palacetes da Sé pela internet enquanto procurava um local para receber as obras. "Adorei. Ele dialoga muito com minha experiência em Berlim, onde vi diversas exposições em casas bombardeadas e bunkers", relembra. A exposição segue até 30 de agosto, diariamente das 11h às 16h, com entrada gratuita.

Uma questão fundamental para mim, como colorista, é que a obra precisa ser bela, sensual e sedutora, mesmo quando trata de assuntos terríveis como o apocalipse
— Alex Flemming
Existe uma simbiose conceitual muito forte, porque apresento o Apocalipse dentro de um cenário apocalíptico
— Alex Flemming
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