Alepo é objetivo histórico dos EUA para desestabilizar eixo da resistência, diz Escobar

Ofensiva jihadista resultou na tomada de grande parte de Alepo em 48 horas, deixando população síria em situação delicada.
Nenhum desses jihadistas pode acender um fósforo sem que a inteligência turca saiba
Escobar acusa a Turquia de apoio implícito aos grupos que atacaram Alepo, apesar de ser mediadora oficial no processo de paz.

Em meio ao silêncio calculado das chancelarias ocidentais, a queda de grande parte de Alepo em menos de dois dias revela, segundo o analista Pepe Escobar, não um surto espontâneo de violência, mas a execução de uma estratégia longamente amadurecida. Washington, Tel Aviv, Ancara e grupos jihadistas teriam convergido num projeto comum: desarticular o Eixo da Resistência e privar o Irã de suas pontes para o Mediterrâneo. A Síria, mais uma vez, torna-se o palco onde as ambições imperiais se encontram — e onde a população paga o preço mais alto.

  • Em apenas 48 horas, forças jihadistas tomaram grande parte de Alepo, expondo a fragilidade do governo sírio e de seus aliados diante de uma ofensiva aparentemente coordenada.
  • A Turquia, mediadora oficial no processo de paz de Astana ao lado de Rússia e Irã, é acusada de simultaneamente armar e dar passagem aos mesmos grupos que atacam — uma contradição que semeia desconfiança entre os parceiros do processo diplomático.
  • Drones kamikaze, guerra eletrônica e inteligência artificial teriam sido usados para desmantelar as comunicações do exército sírio, com tecnologia compartilhada entre jihadistas sírios e combatentes ucranianos — sinalizando uma estratégia transnacional unificada.
  • O objetivo final, segundo Escobar, é uma mudança de regime em Damasco que transformaria a Síria em vassalo ocidental e cortaria definitivamente o acesso iraniano ao Mediterrâneo Oriental.
  • As forças sírias enfrentam agora a tarefa de reconquistar Alepo num processo que promete ser longo e devastador, enquanto o congelamento de Idlib em 2020 é apontado como o erro estratégico que permitiu o acúmulo de forças jihadistas para este momento.

Do seu posto em Paris, o jornalista e analista geopolítico Pepe Escobar interpreta a ofensiva jihadista contra Alepo não como um episódio isolado, mas como o desdobramento de uma orquestração que envolve Estados Unidos, Israel, Turquia e grupos armados no terreno. Para ele, a tomada da segunda maior cidade síria é um objetivo americano de longa data que finalmente entrou em movimento.

Segundo Escobar, o ataque foi precedido por encontros entre representantes de inteligência israelense, turca e da OTAN, que alinharam suas ações com os jihadistas. O alvo central é o chamado Eixo da Resistência — a aliança entre Irã, Síria, Hezbollah e Rússia — e, mais especificamente, as linhas que conectam Teerã ao Líbano e ao Mediterrâneo Oriental.

A posição da Turquia é descrita como profundamente contraditória: Ancara participa oficialmente do processo de paz de Astana, mas estaria facilitando a passagem de combatentes e fornecendo armas aos grupos que lideraram o ataque. Escobar sugere que a Turquia pode estar sendo instrumentalizada para corroer a confiança entre os próprios parceiros do processo diplomático.

O analista também aponta uma dimensão tecnológica que conecta os conflitos sírio e ucraniano: drones kamikaze, sistemas de guerra eletrônica e inteligência artificial teriam sido usados para desmantelar as comunicações do exército sírio, fruto de uma colaboração entre jihadistas e combatentes neonazistas ucranianos — evidência, para Escobar, de uma estratégia unificada das 'guerras eternas' americanas.

Se o projeto de mudança de regime em Damasco for concluído, o Irã perderia seu acesso ao Mediterrâneo e a Síria se tornaria um vassalo estratégico ocidental. Escobar conclui com pessimismo: o congelamento de Idlib em 2020 apenas adiou o inevitável, e a tarefa de reconquistar Alepo será longa e extremamente custosa para o governo sírio e seus aliados.

De Paris, o jornalista e analista geopolítico Pepe Escobar observa a recente ofensiva jihadista contra Alepo como algo muito maior que um ataque isolado. Para ele, o que aconteceu na segunda maior cidade síria é o resultado de uma orquestração cuidadosa envolvendo Estados Unidos, Israel, Turquia e grupos jihadistas — uma coordenação que remodela o tabuleiro geopolítico do Oriente Médio.

Escobar é direto: a tomada de Alepo não é novidade nos planos americanos. Trata-se de um objetivo que Washington persegue há anos, agora finalmente em movimento. O ataque foi precedido por encontros estratégicos entre altos representantes de inteligência israelense, turca e da OTAN, que alinharam suas ações com os grupos jihadistas no terreno. O objetivo declarado é desestabilizar o que Escobar chama de "Eixo da Resistência" — a aliança formada por Irã, Síria, Hezbollah e Rússia. Mais especificamente, isolar o Irã de suas conexões estratégicas com o Líbano e o Mediterrâneo Oriental, cortando suas linhas de suprimento e influência regional.

A Turquia ocupa um lugar particularmente contraditório nessa trama. Oficialmente, Ankara funciona como mediadora no processo de paz sírio, trabalhando ao lado de Rússia e Irã no mecanismo de Astana. Mas Escobar acusa o governo de Recep Tayyip Erdogan de fazer exatamente o oposto: facilitar a passagem de terroristas pela fronteira e fornecer armas aos grupos jihadistas que lideraram o ataque. "Nenhum desses jihadistas pode acender um fósforo sem que a inteligência turca saiba", afirma. Ele sugere que a Turquia pode estar sendo usada como instrumento para enfraquecer suas próprias relações com os parceiros do processo de Astana, gerando desconfiança e divisão entre eles.

O analista também expõe uma dimensão tecnológica do conflito que conecta Síria e Ucrânia. Segundo sua análise, houve colaboração entre jihadistas sírios e neonazistas ucranianos, resultando no uso de drones kamikaze, sistemas de guerra eletrônica e inteligência artificial para desmantelar a comunicação do exército sírio. Esse intercâmbio de conhecimento e capacidades reforça a ideia de uma estratégia unificada das "guerras eternas" promovidas pelos Estados Unidos e seus aliados em múltiplas regiões simultaneamente.

Os números são impressionantes: em apenas 48 horas, a ofensiva jihadista conquistou grande parte de Alepo, deixando o governo sírio e seus aliados em uma posição extremamente frágil. Se Washington e Tel Aviv conseguirem executar seu projeto de mudança de regime em Damasco, o resultado seria bloqueador: o Irã perderia acesso ao Mediterrâneo e a Síria se tornaria um vassalo estratégico nas mãos de potências ocidentais. Escobar também critica o congelamento da guerra na região de Idlib em 2020, que permitiu a concentração de milhares de jihadistas na área, fortalecendo-os para ataques futuros — um adiamento que apenas preparou o terreno para o que viria depois.

Sua conclusão é sombria: a Síria é agora o novo front de um conflito que não terminará tão cedo. O que parecia resolvido em 2020 apenas adiou o inevitável. As forças de Damasco enfrentarão agora a tarefa extremamente difícil e custosa de reconquistar Alepo, em um processo que promete ser longo e desgastante.

A conquista de Alepo é um projeto americano há muito tempo
— Pepe Escobar
Se os Estados Unidos e Israel conseguirem realizar seu projeto de mudança de regime em Damasco, bloqueiam o acesso do Irã ao Mediterrâneo e garantem um vassalo estratégico na Síria
— Pepe Escobar
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que Alepo é tão importante? É apenas uma cidade síria entre outras.

Model

Alepo não é apenas uma cidade. É a porta de entrada para o Mediterrâneo Oriental e a chave para manter o Irã conectado ao Líbano e à Rússia. Se você controla Alepo, você controla as rotas de suprimento e influência regional.

Inventor

Mas a Turquia é mediadora oficial no processo de paz. Como ela pode estar armando os mesmos grupos que deveria conter?

Model

Exatamente essa é a contradição. Ankara funciona em dois níveis — diplomaticamente, ela senta à mesa de negociações. Nos bastidores, facilita o fluxo de armas e combatentes. É uma traição ao processo de Astana que enfraquece a confiança entre Rússia, Irã e a própria Turquia.

Inventor

Você mencionou colaboração entre jihadistas sírios e ucranianos. Como isso funciona na prática?

Model

Há um intercâmbio de tecnologia e conhecimento. Drones kamikaze, sistemas de guerra eletrônica, inteligência artificial para desmantelar comunicações militares. O que acontece na Ucrânia alimenta o que acontece na Síria. São conflitos conectados pela mesma estratégia.

Inventor

Se Damasco cair, o que muda no mapa geopolítico?

Model

Muda tudo. O Irã perde sua ponte terrestre para o Mediterrâneo. A Rússia perde um aliado estratégico. E os Estados Unidos ganham um vassalo na região. É reconfiguração de poder em escala regional.

Inventor

O congelamento em Idlib em 2020 foi um erro?

Model

Não foi erro. Foi cálculo. Permitiu que os jihadistas se concentrassem, se fortalecessem, se preparassem. Quando chegasse o momento certo, estariam prontos. Adiou o conflito, mas garantiu que ele voltaria com mais força.

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