Nenhum desses jihadistas pode acender um fósforo sem que a inteligência turca saiba
Em meio ao silêncio calculado das chancelarias ocidentais, a queda de grande parte de Alepo em menos de dois dias revela, segundo o analista Pepe Escobar, não um surto espontâneo de violência, mas a execução de uma estratégia longamente amadurecida. Washington, Tel Aviv, Ancara e grupos jihadistas teriam convergido num projeto comum: desarticular o Eixo da Resistência e privar o Irã de suas pontes para o Mediterrâneo. A Síria, mais uma vez, torna-se o palco onde as ambições imperiais se encontram — e onde a população paga o preço mais alto.
- Em apenas 48 horas, forças jihadistas tomaram grande parte de Alepo, expondo a fragilidade do governo sírio e de seus aliados diante de uma ofensiva aparentemente coordenada.
- A Turquia, mediadora oficial no processo de paz de Astana ao lado de Rússia e Irã, é acusada de simultaneamente armar e dar passagem aos mesmos grupos que atacam — uma contradição que semeia desconfiança entre os parceiros do processo diplomático.
- Drones kamikaze, guerra eletrônica e inteligência artificial teriam sido usados para desmantelar as comunicações do exército sírio, com tecnologia compartilhada entre jihadistas sírios e combatentes ucranianos — sinalizando uma estratégia transnacional unificada.
- O objetivo final, segundo Escobar, é uma mudança de regime em Damasco que transformaria a Síria em vassalo ocidental e cortaria definitivamente o acesso iraniano ao Mediterrâneo Oriental.
- As forças sírias enfrentam agora a tarefa de reconquistar Alepo num processo que promete ser longo e devastador, enquanto o congelamento de Idlib em 2020 é apontado como o erro estratégico que permitiu o acúmulo de forças jihadistas para este momento.
Do seu posto em Paris, o jornalista e analista geopolítico Pepe Escobar interpreta a ofensiva jihadista contra Alepo não como um episódio isolado, mas como o desdobramento de uma orquestração que envolve Estados Unidos, Israel, Turquia e grupos armados no terreno. Para ele, a tomada da segunda maior cidade síria é um objetivo americano de longa data que finalmente entrou em movimento.
Segundo Escobar, o ataque foi precedido por encontros entre representantes de inteligência israelense, turca e da OTAN, que alinharam suas ações com os jihadistas. O alvo central é o chamado Eixo da Resistência — a aliança entre Irã, Síria, Hezbollah e Rússia — e, mais especificamente, as linhas que conectam Teerã ao Líbano e ao Mediterrâneo Oriental.
A posição da Turquia é descrita como profundamente contraditória: Ancara participa oficialmente do processo de paz de Astana, mas estaria facilitando a passagem de combatentes e fornecendo armas aos grupos que lideraram o ataque. Escobar sugere que a Turquia pode estar sendo instrumentalizada para corroer a confiança entre os próprios parceiros do processo diplomático.
O analista também aponta uma dimensão tecnológica que conecta os conflitos sírio e ucraniano: drones kamikaze, sistemas de guerra eletrônica e inteligência artificial teriam sido usados para desmantelar as comunicações do exército sírio, fruto de uma colaboração entre jihadistas e combatentes neonazistas ucranianos — evidência, para Escobar, de uma estratégia unificada das 'guerras eternas' americanas.
Se o projeto de mudança de regime em Damasco for concluído, o Irã perderia seu acesso ao Mediterrâneo e a Síria se tornaria um vassalo estratégico ocidental. Escobar conclui com pessimismo: o congelamento de Idlib em 2020 apenas adiou o inevitável, e a tarefa de reconquistar Alepo será longa e extremamente custosa para o governo sírio e seus aliados.
De Paris, o jornalista e analista geopolítico Pepe Escobar observa a recente ofensiva jihadista contra Alepo como algo muito maior que um ataque isolado. Para ele, o que aconteceu na segunda maior cidade síria é o resultado de uma orquestração cuidadosa envolvendo Estados Unidos, Israel, Turquia e grupos jihadistas — uma coordenação que remodela o tabuleiro geopolítico do Oriente Médio.
Escobar é direto: a tomada de Alepo não é novidade nos planos americanos. Trata-se de um objetivo que Washington persegue há anos, agora finalmente em movimento. O ataque foi precedido por encontros estratégicos entre altos representantes de inteligência israelense, turca e da OTAN, que alinharam suas ações com os grupos jihadistas no terreno. O objetivo declarado é desestabilizar o que Escobar chama de "Eixo da Resistência" — a aliança formada por Irã, Síria, Hezbollah e Rússia. Mais especificamente, isolar o Irã de suas conexões estratégicas com o Líbano e o Mediterrâneo Oriental, cortando suas linhas de suprimento e influência regional.
A Turquia ocupa um lugar particularmente contraditório nessa trama. Oficialmente, Ankara funciona como mediadora no processo de paz sírio, trabalhando ao lado de Rússia e Irã no mecanismo de Astana. Mas Escobar acusa o governo de Recep Tayyip Erdogan de fazer exatamente o oposto: facilitar a passagem de terroristas pela fronteira e fornecer armas aos grupos jihadistas que lideraram o ataque. "Nenhum desses jihadistas pode acender um fósforo sem que a inteligência turca saiba", afirma. Ele sugere que a Turquia pode estar sendo usada como instrumento para enfraquecer suas próprias relações com os parceiros do processo de Astana, gerando desconfiança e divisão entre eles.
O analista também expõe uma dimensão tecnológica do conflito que conecta Síria e Ucrânia. Segundo sua análise, houve colaboração entre jihadistas sírios e neonazistas ucranianos, resultando no uso de drones kamikaze, sistemas de guerra eletrônica e inteligência artificial para desmantelar a comunicação do exército sírio. Esse intercâmbio de conhecimento e capacidades reforça a ideia de uma estratégia unificada das "guerras eternas" promovidas pelos Estados Unidos e seus aliados em múltiplas regiões simultaneamente.
Os números são impressionantes: em apenas 48 horas, a ofensiva jihadista conquistou grande parte de Alepo, deixando o governo sírio e seus aliados em uma posição extremamente frágil. Se Washington e Tel Aviv conseguirem executar seu projeto de mudança de regime em Damasco, o resultado seria bloqueador: o Irã perderia acesso ao Mediterrâneo e a Síria se tornaria um vassalo estratégico nas mãos de potências ocidentais. Escobar também critica o congelamento da guerra na região de Idlib em 2020, que permitiu a concentração de milhares de jihadistas na área, fortalecendo-os para ataques futuros — um adiamento que apenas preparou o terreno para o que viria depois.
Sua conclusão é sombria: a Síria é agora o novo front de um conflito que não terminará tão cedo. O que parecia resolvido em 2020 apenas adiou o inevitável. As forças de Damasco enfrentarão agora a tarefa extremamente difícil e custosa de reconquistar Alepo, em um processo que promete ser longo e desgastante.
Notable Quotes
A conquista de Alepo é um projeto americano há muito tempo— Pepe Escobar
Se os Estados Unidos e Israel conseguirem realizar seu projeto de mudança de regime em Damasco, bloqueiam o acesso do Irã ao Mediterrâneo e garantem um vassalo estratégico na Síria— Pepe Escobar
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que Alepo é tão importante? É apenas uma cidade síria entre outras.
Alepo não é apenas uma cidade. É a porta de entrada para o Mediterrâneo Oriental e a chave para manter o Irã conectado ao Líbano e à Rússia. Se você controla Alepo, você controla as rotas de suprimento e influência regional.
Mas a Turquia é mediadora oficial no processo de paz. Como ela pode estar armando os mesmos grupos que deveria conter?
Exatamente essa é a contradição. Ankara funciona em dois níveis — diplomaticamente, ela senta à mesa de negociações. Nos bastidores, facilita o fluxo de armas e combatentes. É uma traição ao processo de Astana que enfraquece a confiança entre Rússia, Irã e a própria Turquia.
Você mencionou colaboração entre jihadistas sírios e ucranianos. Como isso funciona na prática?
Há um intercâmbio de tecnologia e conhecimento. Drones kamikaze, sistemas de guerra eletrônica, inteligência artificial para desmantelar comunicações militares. O que acontece na Ucrânia alimenta o que acontece na Síria. São conflitos conectados pela mesma estratégia.
Se Damasco cair, o que muda no mapa geopolítico?
Muda tudo. O Irã perde sua ponte terrestre para o Mediterrâneo. A Rússia perde um aliado estratégico. E os Estados Unidos ganham um vassalo na região. É reconfiguração de poder em escala regional.
O congelamento em Idlib em 2020 foi um erro?
Não foi erro. Foi cálculo. Permitiu que os jihadistas se concentrassem, se fortalecessem, se preparassem. Quando chegasse o momento certo, estariam prontos. Adiou o conflito, mas garantiu que ele voltaria com mais força.