Em um país onde a memória indígena frequentemente é apagada antes de ser contada, Ailton Krenak — escritor, ambientalista e único indígena na Academia Brasileira de Letras — escolheu o Cerrado como palco para sua estreia na direção cinematográfica. O filme, uma ficção ambientada nos anos 1960 sobre um líder espiritual xavante, nasce da experiência de um homem que viveu mais de cem anos em harmonia com a terra, e representa para Krenak não uma ruptura, mas uma expansão: a mesma urgência de seus livros, agora traduzida em imagem e silêncio. Com lançamento previsto para 2027, a obra já carrega em
Ailton Krenak estreia como diretor de cinema em filme sobre o Cerrado
Uma ficção a partir da experiência de quem viveu 100 anos no Cerrado original
Por que Krenak decidiu fazer um filme agora, depois de toda sua trajetória como escritor?
Ele vê o cinema como um recurso completamente novo para contar histórias. Não é uma substituição dos livros, é uma linguagem diferente que o fascina. Ele mesmo disse que nunca tinha se aproximado dessa forma de expressão antes.
Mas a gente sabe pouco sobre como ele chegou a essa decisão. O texto não explica se foi um convite, uma ideia sua há tempos, ou algo que surgiu recentemente. Fica em aberto.
A história é sobre um líder espiritual xavante. Krenak é krenak, não xavante. Como ele se aproximou dessa narrativa?
Ele diz que é uma ficção baseada na experiência de vida de um indígena que viveu mais de cem anos no Cerrado original. E a história se conecta com pessoas que marcaram sua própria trajetória. Então não é uma apropriação, é um diálogo.
Verdade, mas o texto não detalha quem foi essa pessoa que inspirou a trama, nem como Krenak conheceu essa história. Sabemos que existe uma conexão, mas os contornos dela não estão claros.
Divino Tserewahú é um cineasta xavante. Ele está atuando pela primeira vez. Isso não é arriscado?
Talvez, mas Tserewahú já é conhecido como precursor do cinema indígena brasileiro. Ele tem experiência com a linguagem audiovisual, só que do outro lado da câmera. Krenak pode estar confiando nessa sensibilidade que ele já tem.
Certo, mas não sabemos nada sobre o processo de direção de Krenak com os atores, ou como Tserewahú se sentiu fazendo seu primeiro papel. Essas são histórias que não foram contadas.
Sete xavantes viajaram de Mato Grosso para construir as ocas. Isso foi um trabalho remunerado?
O texto não especifica, mas eles foram exclusivamente para montar a aldeia cenográfica. Isso sugere que foi um trabalho deliberado, não uma participação casual.
Exatamente. Não sabemos se foram pagos, se foi um trabalho voluntário, se houve algum acordo com a reserva. Esses detalhes importam muito para entender a dinâmica da produção.
As ocas vão ficar lá depois. Isso muda o significado do filme?
Marta Imperial quer usar o espaço para educação, para mostrar a cultura indígena aos estudantes. Então a estrutura vira um legado, não apenas um cenário temporário.
Mas a gente não sabe se os xavantes que construíram as ocas concordam com isso, ou se foram consultados sobre o futuro daquele espaço. É uma questão de agência que fica aberta.
Il Polso
- Krenak, aos 72 anos, adentra pela primeira vez o território do cinema — uma linguagem que ele mesmo descreve como 'fascinante' e da qual nunca havia se aproximado.
- A produção mobilizou 50 pessoas durante um mês inteiro na Chapada Imperial, em Brazlândia, uma área de preservação privada de 4 mil hectares que ofereceu o Cerrado intocado que a história exigia.
- Sete indígenas xavantes viajaram de Mato Grosso para construir ocas autênticas, recriando com precisão uma aldeia dos anos 1960 — e essas estruturas não serão desmontadas, permanecendo para uso educacional e futuras produções.
- O protagonista é vivido por Divino Tserewahú, cineasta xavante pioneiro do cinema indígena brasileiro, que estreia agora como ator — um cruzamento simbólico entre quem filma e quem é filmado.
- Sem título oficial ainda, o filme caminha para 2027 carregando o potencial de se tornar, como 'Ideias para adiar o fim do mundo', uma obra de referência sobre resistência e cosmologia indígena.
Em um país onde a memória indígena frequentemente é apagada antes de ser contada, Ailton Krenak — escritor, ambientalista e único indígena na Academia Brasileira de Letras — escolheu o Cerrado como palco para sua estreia na direção cinematográfica. O filme, uma ficção ambientada nos anos 1960 sobre um líder espiritual xavante, nasce da experiência de um homem que viveu mais de cem anos em harmonia com a terra, e representa para Krenak não uma ruptura, mas uma expansão: a mesma urgência de seus livros, agora traduzida em imagem e silêncio. Com lançamento previsto para 2027, a obra já carrega em si a promessa de ser, como tudo que Krenak toca, um convite à escuta.
Ailton Krenak, o único indígena membro da Academia Brasileira de Letras, está prestes a lançar seu primeiro filme como diretor. As gravações aconteceram na Chapada Imperial, em Brazlândia, no Distrito Federal — uma área privada de preservação ambiental com 4 mil hectares de Cerrado preservado, cenário que Krenak buscava para dar vida à sua história.
O filme é uma ficção ambientada na década de 1960 e acompanha um líder espiritual xavante, o 'dono do sonho', responsável por guiar seu povo diante das transformações que ameaçam seu território. Embora inventada, a narrativa brota da experiência real de um homem que viveu mais de cem anos no Cerrado original — sem estradas, sem documentos, sem as marcas da modernidade. Para Krenak, o cinema representa uma forma completamente nova de contar histórias, distinta de seus livros: 'É essa coisa fascinante que eu nunca cheguei perto', disse ele.
O papel central é interpretado por Divino Tserewahú, cineasta xavante considerado um dos precursores do cinema indígena brasileiro, em sua estreia como ator. O elenco inclui ainda Johnny Massaro, que vive um jovem salesiano enviado para catequizar os indígenas — uma tensão que ressoa com a própria trajetória de Krenak.
Para garantir autenticidade, sete indígenas xavantes da Reserva Sangradouro, em Mato Grosso, viajaram até Brazlândia e construíram as ocas usadas nas gravações. A aldeia cenográfica foi planejada para reproduzir com fidelidade os anos 1960. Um detalhe significativo: as ocas não serão desmontadas. Marta Imperial, uma das proprietárias da Chapada, decidiu mantê-las para futuras produções e para atividades educacionais com escolas.
Resultado de uma parceria entre produtoras mineira e brasiliense, o filme ainda não tem título oficial. Sua estreia está prevista para 2027.
Ailton Krenak, o escritor e ambientalista que é o único indígena membro da Academia Brasileira de Letras, está prestes a lançar seu primeiro filme como diretor. A produção foi gravada na Chapada Imperial, em Brazlândia, no Distrito Federal, durante um mês inteiro, com cerca de 50 pessoas envolvidas nas filmagens. O cenário escolhido foi uma área privada de preservação ambiental que ocupa 4 mil hectares, oferecendo a paisagem do Cerrado que Krenak buscava para sua história.
O filme é uma ficção que se passa na década de 1960 e acompanha um líder espiritual xavante. Krenak explicou que, embora seja uma narrativa inventada, ela brota da experiência de vida de um homem que passou mais de cem anos vivendo no Cerrado original, aquele sem estradas, sem documentos, sem as marcas da modernidade. Para o diretor, essa escolha de linguagem — o cinema — representa uma forma completamente nova de contar histórias, diferente de seus livros como "Ideias para adiar o fim do mundo". "Eu só estou contando outra história, sem ser no livro. E o recurso de contar essa história é o audiovisual, é o cinema. É essa coisa fascinante que eu nunca cheguei perto", disse ele.
O personagem central é descrito por Krenak como um "dono do sonho", alguém responsável por guiar seu povo através das transformações que ameaçam seu território. O papel é interpretado por Divino Tserewahú, um cineasta xavante considerado um dos precursores do cinema indígena brasileiro, em seu primeiro trabalho como ator. O elenco também inclui Johnny Massaro, que vive um jovem salesiano enviado para catequizar os indígenas. A narrativa se conecta com experiências que marcaram a própria trajetória de Krenak.
Para dar autenticidade ao filme, sete indígenas xavantes da Reserva Sangradouro, em Mato Grosso, viajaram até Brazlândia e construíram as ocas usadas nas gravações. A aldeia cenográfica foi planejada para reproduzir as características de uma aldeia dos anos 1960, com cada detalhe pensado para refletir aquele período. A Chapada Imperial foi escolhida também pela diversidade de suas paisagens, que permitiu reunir diferentes cenários em um único espaço.
Um detalhe significativo é que as ocas construídas não serão desmontadas após o término das filmagens. Marta Imperial, uma das proprietárias da Chapada Imperial, decidiu manter a estrutura para que possa ser aproveitada em futuras produções audiovisuais. Além disso, ela pretende usar o espaço em atividades educacionais com escolas, apresentando aos estudantes aspectos da cultura indígena. A produção é resultado de uma parceria entre uma produtora mineira e outra brasiliense. O filme ainda não recebeu um título oficial, mas sua estreia está prevista para 2027.
Citazioni salienti
Eu só estou contando outra história, sem ser no livro. E o recurso de contar essa história é o audiovisual, é o cinema. É essa coisa fascinante que eu nunca cheguei perto— Ailton Krenak
Eu estou celebrando o bioma do Cerrado contando uma história de uma pessoa originária desse bioma do Cerrado— Ailton Krenak