AHA publica consenso sobre desprescrição em pacientes com doença cardiovascular

Melhorar a qualidade da prescrição, não apenas reduzir quantidade
O objetivo da desprescrição vai além de remover medicamentos — é otimizar o tratamento conforme o status clínico e valores do paciente.

Polifarmácia em pacientes cardiovasculares aumentou de 8,2% em 1999 para 17,1% em 2018, com prevalência de 61,7% nesta população em 2017. Desprescrição envolve descontinuação ou redução supervisionada de medicações para melhorar qualidade de vida e reduzir eventos adversos e custos duplicados.

  • Polifarmácia em pacientes cardiovasculares aumentou de 8,2% em 1999 para 17,1% em 2018
  • 61,7% dos pacientes com doença cardiovascular apresentam polifarmácia em 2017
  • Pacientes com polifarmácia gastam anualmente o dobro comparado aos sem polifarmácia
  • Desprescrição envolve descontinuação ou redução supervisionada de medicações

A American Heart Association lança orientações para reduzir medicações em pacientes com doença cardiovascular e polifarmácia, abordando estratégias de descontinuação supervisionada e ferramentas de avaliação.

A American Heart Association acaba de publicar um consenso que trata de um problema crescente na cardiologia: como reduzir ou descontinuar medicações de forma segura em pacientes com doença cardiovascular que tomam muitos remédios. O desafio é real. Pacientes com problemas cardíacos costumam ser complexos, com várias doenças simultâneas e prescrições que se acumulam — cinco medicações é considerado polifarmácia, dez ou mais é hiperpolifarmácia. Nas últimas décadas, essa situação se tornou cada vez mais comum.

Os números revelam a dimensão do fenômeno. Nos Estados Unidos, a prevalência de polifarmácia em adultos com 20 anos ou mais saltou de 8,2% em 1999 para 17,1% em 2018. Entre idosos com 65 anos ou mais, o crescimento foi ainda mais acentuado: de 23,5% em 2009 para 44,1% em 2018. Pacientes com doença cardiovascular apresentam a maior prevalência de todas — 61,7% em 2017 — seguidos por aqueles com diabetes e hipertensão. As principais condições cardíacas que contribuem para essa multiplicação de medicamentos são a insuficiência cardíaca e a fibrilação atrial. Um fenômeno frequente é a cascata de prescrição, quando um medicamento é prescrito para tratar um efeito colateral de outro, criando uma espiral de dependência medicamentosa.

O problema não é apenas quantitativo. A polifarmácia está associada a desfechos clínicos adversos significativos. Pacientes com fibrilação atrial e múltiplas medicações enfrentam maior risco de morte por qualquer causa, sangramento grave e outras complicações. Após um evento cardiovascular, esses pacientes têm pior aderência ao tratamento. Economicamente, o impacto é duplicado: pacientes com polifarmácia gastam anualmente o dobro em comparação com aqueles que tomam menos medicamentos. Existe uma relação inversa clara entre o número de medicações e a adesão ao tratamento — quanto mais remédios, menos o paciente consegue tomar corretamente.

A desprescrição emerge como estratégia para enfrentar esse cenário. Não se trata simplesmente de remover medicamentos, mas de descontinuar ou reduzir doses de forma supervisionada, melhorando a qualidade da prescrição e alinhando o tratamento ao status clínico real do paciente e seus valores pessoais. O consenso da American Heart Association apresenta várias ferramentas para orientar esse processo. Os critérios de Beers, o Screening Tool of Older People's Prescriptions e o Screening Tool to Alert to Right Treatment ajudam a identificar medicações potencialmente prejudiciais. Estruturas como a 4M — que considera o que importa ao paciente, medicação, atividade mental e mobilidade — oferecem uma abordagem mais centrada no indivíduo. Não existe uma ferramenta superior às outras; todas devem ser usadas em conjunto com o julgamento clínico do médico, nunca como substitutos.

Identificar candidatos à desprescrição requer atenção. Quatro grupos de pacientes se beneficiam dessa estratégia: aqueles que sofreram eventos adversos relacionados a medicamentos, pacientes com polifarmácia, aqueles presos em cascatas de prescrição e pacientes com doença avançada em cuidados paliativos ou de fim de vida. O processo começa com reconciliação completa das medicações — verificação dos nomes, doses, frequências e vias com o paciente, familiares e prontuário; identificação de discrepâncias; resolução dessas diferenças; e comunicação clara das mudanças.

Exemplos práticos ilustram como a desprescrição funciona. Antiarrítmicos e betabloqueadores podem ser suspensos após ablação para fibrilação atrial. Nitratos ou ranolazina podem ser descontinuados após angioplastia coronária bem-sucedida. A dupla antiagregação plaquetária após angioplastia é temporária por natureza. Estatinas para prevenção primária em pacientes em fim de vida frequentemente podem ser interrompidas. Medicamentos como anti-inflamatórios que aliviam osteoartrite precisam ser pesados contra o risco de piorar insuficiência cardíaca ou doença coronária.

O envolvimento do paciente é fundamental. Educação clara sobre a doença, riscos e benefícios das opções de tratamento em linguagem acessível aumenta a adesão e a confiança. Estudos mostram que pacientes preferem participar ativamente das decisões sobre seu tratamento. Quando se determina que o risco de uma medicação supera o benefício, ela pode ser suspensa — mas às vezes de forma gradual, como com betabloqueadores, que devem ser reduzidos pela metade a cada semana.

Barreiras significativas ainda obstaculizam a implementação da desprescrição. Médicos frequentemente não percebem que uma medicação pode ser suspensa, ou têm medo das consequências. Há insegurança em relação a medicamentos prescritos por outros especialistas, falta de evidências robustas ou informações clínicas incompletas. Questões culturais dos pacientes, discordância entre membros da equipe de saúde e barreiras de linguagem também influenciam. O consenso reconhece que ainda há necessidade de estudos de melhor qualidade, mas deixa claro que estar atento à prescrição, aos possíveis eventos adversos, às interações medicamentosas e à real necessidade de cada medicamento são componentes essenciais da prática clínica moderna.

Existe uma relação inversa entre número de medicações e aderência ao tratamento
— Consenso da American Heart Association
Ferramentas devem ser usadas em conjunto com julgamento clínico, nunca como substitutos
— Orientações do consenso sobre desprescrição
The Hearth Conversation Another angle on the story
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Por que a American Heart Association sentiu necessidade de publicar um consenso específico sobre desprescrição agora?

Model

Porque durante décadas, a desprescrição foi considerada apenas para idosos ou pacientes em cuidados paliativos. Cardiologistas raramente pensavam em reduzir medicações. Mas a realidade mudou — 61,7% dos pacientes cardiovasculares estão em polifarmácia, e isso está causando danos reais: mais sangramento, pior aderência, custos duplicados.

Inventor

A polifarmácia não é resultado de boas práticas? Não há razão para cada medicação estar ali?

Model

Teoricamente sim, mas na prática há cascatas de prescrição — um remédio causa um efeito colateral, então prescreve-se outro para tratá-lo. E as terapias guiadas por meta, que são baseadas em evidência, exigem 2 a 4 medicações principais só para uma condição. Quando o paciente tem múltiplas doenças, isso se multiplica rapidamente.

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Como um médico sabe qual medicação remover sem colocar o paciente em risco?

Model

Existem ferramentas — critérios de Beers, estruturas 4M e 5M — que ajudam a identificar medicações potencialmente prejudiciais. Mas o ponto crucial é que essas ferramentas devem trabalhar junto com o julgamento clínico, nunca substituí-lo. E o paciente precisa estar envolvido na decisão.

Inventor

Qual é a maior barreira que você vê?

Model

O medo. Médicos têm medo de consequências negativas. Pacientes têm medo de parar de tomar algo que acreditam ser essencial. E há insegurança quando a medicação foi prescrita por outro especialista. Isso é cultural e psicológico, não apenas clínico.

Inventor

Se um paciente está em fim de vida, a desprescrição muda?

Model

Completamente. Nesse contexto, medicações como estatinas para prevenção primária podem ser interrompidas sem hesitação. O foco muda de longevidade para qualidade de vida e conforto. É um dos cenários onde a desprescrição é mais clara e menos controversa.

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