Agressor de Salman Rushdie declara-se inocente de tentativa de homicídio

Salman Rushdie foi esfaqueado dez vezes no pescoço e abdómen, permanecendo hospitalizado em estado grave, embora já não esteja ligado a ventilador.
A sua luta é nossa, universal
Emmanuel Macron respondeu ao ataque contra Rushdie, solidarizando-se com o escritor e a sua defesa da liberdade de expressão.
Mark

Porque é que um ataque a um escritor de 75 anos, décadas depois de uma fatwa, ainda consegue dividir o mundo desta forma?

Mimi

Porque Rushdie nunca deixou de ser um símbolo. Para o Ocidente, representa a liberdade de expressão sob ameaça. Para extremistas, representa uma blasfémia que nunca foi "resolvida".

Luke

Mas precisamos de ser claros: a fatwa nunca foi oficialmente levantada pelo Irão, mas também não há evidência de que o regime iraniano tenha orquestrado este ataque específico. Matar agiu sozinho, segundo o que sabemos.

Mark

E quanto ao facto de Rushdie ter dito que a sua vida era normal?

Mimi

Essa é a tragédia. Ele tinha conseguido reconstruir uma vida. Vivia em Nova Iorque há 20 anos, dava palestras, escrevia. Tinha razão em dizer que as coisas tinham melhorado.

Luke

Embora continuasse a receber ameaças de morte diárias, segundo a própria entrevista. Portanto, "normal" é relativo.

Mark

O que é que isto muda para a segurança de outros escritores?

Mimi

Muda tudo. Mostra que nenhuma quantidade de tempo ou normalidade aparente elimina o risco para quem desafiou certos poderes.

Luke

Mas também é importante notar que este é um caso extremo. A maioria dos escritores não enfrenta este nível de ameaça organizada durante décadas.

  • Hadi Matar, 24 anos, compareceu algemado e mascarado em tribunal, declarando-se inocente de tentativa de homicídio — sem proferir uma única palavra, deixando o silêncio falar por ele.
  • Rushdie foi esfaqueado dez vezes no pescoço e abdómen durante uma palestra pública, num ataque que a acusação considera premeditado e que o deixou em estado grave.
  • Líderes ocidentais condenaram o ato em uníssono, enquanto meios ultraconservadores no Irão e no Paquistão celebraram o agressor como herói — revelando uma fratura civilizacional que o ataque tornou impossível de ignorar.
  • A fatwa de Khomeiny, emitida em 1989 e nunca revogada, ressurge como pano de fundo de uma violência que já custou a vida a tradutores da obra de Rushdie e que agora quase alcançou o próprio autor.
  • As vendas de 'Os Versículos Satânicos' dispararam após o ataque, como se o mundo quisesse ler o que alguém tentou silenciar com uma faca.

Num tribunal de Chautauqua, Nova Iorque, o jovem Hadi Matar declarou-se inocente do ataque que deixou Salman Rushdie gravemente ferido — um ato que ecoa três décadas de ameaças nascidas da fatwa de 1989 e que divide o mundo entre a defesa da liberdade de expressão e o aplauso do extremismo. Rushdie, que havia começado a viver o que chamava de vida 'mais ou menos normal', permanece hospitalizado, enquanto o debate sobre o preço da palavra escrita volta a ocupar o centro da consciência coletiva.

Hadi Matar, um jovem de 24 anos residente em Nova Jersey, apresentou-se perante um juiz em Chautauqua vestido com roupa de preso às riscas, algemado e mascarado. Não disse uma palavra durante a audiência — foi o seu advogado quem declarou a inocência. A próxima comparência está marcada para 19 de agosto.

O ataque aconteceu numa sexta-feira, quando Rushdie se preparava para discursar num centro cultural. Com 75 anos, o escritor foi esfaqueado pelo menos dez vezes no pescoço e no abdómen. Transportado para um hospital na Pensilvânia, permanece em estado grave, embora já não necessite de ventilador e tenha conseguido pronunciar algumas palavras no dia seguinte.

O Ocidente reagiu com indignação. Joe Biden condenou o 'ataque brutal'; Emmanuel Macron declarou que 'a sua luta é a nossa'; António Guterres disse estar 'horrorizado'; Justin Trudeau falou num 'ataque cobarde à liberdade de expressão'. No sentido oposto, o diário ultraconservador iraniano Kayhan felicitou o agressor, e um clérigo de Teerão afirmou estar 'muito feliz'. No Paquistão, um partido islamista declarou que Rushdie 'merecia ser morto'.

Esta violência tem raízes em 1989, quando o ayatollah Khomeiny emitiu uma fatwa apelando ao assassinato de Rushdie após a publicação de 'Os Versículos Satânicos', considerado blasfémia por muçulmanos radicais. A fatwa nunca foi levantada. Vários tradutores da obra foram atacados; o japonês Hitoshi Igarashi foi apunhalado até à morte em 1991.

Rushdie, nascido em 1947 na Índia, vivia em Nova Iorque há duas décadas e descrevia a sua vida como 'mais ou menos normal'. Dias antes do ataque, numa entrevista a uma revista alemã, dizia-se 'otimista' apesar das ameaças diárias. O ataque que quase o matou fez disparar as vendas do livro que quase lhe custou a vida — como se a tentativa de silêncio tivesse produzido o efeito contrário.

Hadi Matar, um jovem de 24 anos de origem libanesa residente em Nova Jersey, compareceu perante um juiz do tribunal de Chautauqua, no estado de Nova Iorque, onde se declarou inocente das acusações de tentativa de homicídio e agressão contra o escritor Salman Rushdie. Apresentado em tribunal com roupa de preso às riscas, algemado e mascarado, Matar não proferiu uma palavra durante a audiência, deixando que o seu advogado fizesse a declaração de inocência. A próxima comparência está marcada para 19 de agosto.

O ataque ocorreu na sexta-feira num centro cultural em Chautauqua, onde Rushdie se preparava para dar uma palestra. O escritor britânico, com 75 anos, foi esfaqueado pelo menos dez vezes no pescoço e abdómen. Segundo a acusação, o ataque foi premeditado. Rushdie foi transportado para um hospital em Erie, Pensilvânia, onde permanece internado em estado grave, embora já não necessite de ventilador. No sábado à noite, conseguiu pronunciar algumas palavras.

O ataque chocou o Ocidente e provocou reações de líderes políticos internacionais. O presidente norte-americano Joe Biden condenou o que chamou de "ataque brutal" e elogiou Rushdie pela sua "recusa em ser intimidado e silenciado". O presidente francês Emmanuel Macron afirmou que "a sua luta é nossa, universal". O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, manifestou-se "horrorizado". O primeiro-ministro canadiano Justin Trudeau descreveu o ato como um "ataque cobarde" e uma "afronta à liberdade de expressão". O primeiro-ministro israelita Yair Lapid atribuiu o ataque a "décadas de incitação ao assassinato por parte do regime extremista iraniano".

Mas a reação foi radicalmente diferente em partes do mundo islâmico. No Irão, o diário ultraconservador Kayhan felicitou o agressor, escrevendo: "Bravo a este homem corajoso e consciente do dever que atacou o apóstata e vicioso Salman Rushdie". Um clérigo xiita de Teerão, Mehrab Bigdeli, declarou estar "muito feliz por ouvir as notícias" e afirmou que beijaria a mão de quem quer que tenha cometido o ato. No Paquistão, o partido Tehreek-e-Labbaik Pakistan, conhecido pela sua violência contra o que considera blasfémia anti-muçulmana, disse que Rushdie "merecia ser morto".

Este ataque inscreve-se numa história de três décadas de ameaças contra o escritor. Em 1989, um ano após a publicação de "Os Versículos Satânicos", o ayatollah iraniano Rouhollah Khomeiny emitiu uma fatwa apelando para o assassinato de Rushdie. O livro foi considerado blasfémia contra o Alcorão e o Profeta Maomé por muçulmanos radicais. A fatwa nunca foi levantada. Vários tradutores da obra foram feridos ou mortos, incluindo o tradutor japonês Hitoshi Igarashi, apunhalado até à morte em 1991.

Rushdie nasceu em 1947 na Índia, numa família de intelectuais muçulmanos não praticantes. Nos últimos 20 anos, viveu em Nova Iorque e tinha começado a retomar o que descrevia como uma vida "mais ou menos normal". Numa entrevista à revista alemã Stern, publicada dias antes do ataque, afirmou: "Desde que vivo nos Estados Unidos, não tenho mais problemas. A minha vida está novamente normal". Na mesma entrevista, manifestava-se "otimista" apesar das "ameaças de morte diárias".

O ataque teve um efeito imediato no mercado de livros. A Amazon reportou um aumento significativo de encomendas de "Os Versículos Satânicos", enquanto a livraria Strand Bookstore de Nova Iorque disse que as pessoas entravam para saber o que o autor tinha escrito e o que a livraria tinha em stock. O incidente reacendeu o debate sobre liberdade de expressão e segurança de escritores que desafiam normas religiosas ou políticas.

Desde que vivo nos Estados Unidos, não tenho mais problemas. A minha vida está novamente normal.
— Salman Rushdie, numa entrevista à revista Stern dias antes do ataque
Bravo a este homem corajoso e consciente do dever que atacou o apóstata e vicioso Salman Rushdie.
— Jornal ultraconservador iraniano Kayhan
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