Filas que chegam a cinco horas, aviões decolando com metade dos assentos vazios
O sistema EES coleta dados biométricos de viajantes não europeus desde abril, causando atrasos significativos em aeroportos como Lisboa e Atenas. Companhias aéreas e aeroportos alertam que a situação atingiu ponto crítico e pode piorar durante o período de férias, quando se espera 40 milhões de passageiros adicionais.
- Sistema EES implementado totalmente em abril de 2026, coleta dados biométricos de viajantes não europeus
- Filas chegam a 5 horas durante horários de pico em aeroportos como Lisboa e Atenas
- Setor aéreo projeta 40 milhões de passageiros adicionais durante férias de julho e agosto
- Portugal mobilizou 350 agentes extras em junho e implementa verificação manual quando espera supera 40 minutos
- Companhias aéreas, aeroportos e Iata enviaram carta à Comissão Europeia pedindo flexibilização urgente
Setor aéreo europeu alerta à Comissão Europeia sobre filas de até 5 horas causadas pelo novo sistema EES de controle biométrico, pedindo flexibilização antes do pico de férias em julho e agosto.
Nos últimos meses, os aeroportos europeus viraram palco de uma crise silenciosa que ninguém esperava. Filas que chegam a cinco horas. Aviões decolando com metade dos assentos vazios. Passageiros brasileiros, americanos e britânicos presos em corredores, esperando sua vez de passar por um sistema que deveria tornar tudo mais rápido.
O culpado tem nome: EES, o Sistema de Entrada e Saída da União Europeia. Desde sua implementação total em abril, o sistema coleta dados biométricos de todos os viajantes de fora do continente — uma medida que aumenta significativamente o controle imigratório, tema sensível para os europeus. A ideia era boa: modernizar, agilizar, deixar tudo mais seguro. Na prática, criou um gargalo que o setor aéreo agora descreve como insustentável.
Na quarta-feira primeiro de julho, representantes de companhias aéreas, aeroportos e a Associação Internacional de Transportes Aéreos enviaram uma carta à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. O tom era de alerta vermelho. A situação atingiu um "ponto crítico", escreveram. Se as regras não forem flexibilizadas agora, durante julho e agosto — o auge das férias no hemisfério Norte — o caos será ainda pior. Milhões de passageiros entram no Espaço Schengen todos os dias, e praticamente todos enfrentam atrasos significativos nos controles de fronteira.
Lisboa virou símbolo do problema. O Aeroporto Humberto Delgado, que passa por reformas, registra filas que serpenteia por diversas alas. Uma repórter da CNN tentando embarcar para Londres no mês passado capturou em vídeo a realidade: primeiro, uma fila ciclópica para chegar aos totens que recolhem dados biométricos; depois, outra fila igualmente longa para passar pelos agentes de fronteira. O vídeo viralizou e colocou o problema em evidência global. Portugal, ciente da situação, mobilizou 350 agentes extras no mês passado e agora implementa verificação manual quando a espera supera 40 minutos. Mesmo assim, a concessionária do aeroporto recomenda que passageiros cheguem com "a maior antecedência possível", e agentes de viagem sugerem no mínimo quatro horas de antecedência.
Atenas também sofre. No mês passado, 20 passageiros de um voo da Ryanair tentaram invadir o portão de embarque após serem liberados pela alfândega em um mutirão improvisado. A polícia precisou intervir. Grandes hubs como Paris, Amsterdã e Frankfurt enfrentam problemas pontuais, mas ainda conseguem manter os voos funcionando. A preocupação real é o que vem adiante: o setor projeta 40 milhões de passageiros adicionais durante o período de férias.
A Comissão Europeia, porém, mantém uma postura defensiva. Um porta-voz disse que o problema é limitado a "apenas alguns aeroportos" quando os Estados-membros não conseguem garantir capacidade operacional. Semanas antes, outro porta-voz havia declarado que o sistema estava "funcionando bem" e que as longas filas frequentemente não estão relacionadas ao EES, mas a "condições pré-existentes". A Comissão prometeu uma reunião com representantes do setor nos próximos dias, mas não sinalizou qualquer mudança de curso.
O Air France-KLM, que opera 46 voos semanais entre Brasil e União Europeia, reconheceu que "nem tudo está transcorrendo como esperado" e que as filas são "mais longas que o habitual". Latam e TAP, outras grandes operadoras na rota Brasil-Europa, não responderam aos questionamentos. O que está claro é que o sistema foi lançado sem que a infraestrutura dos aeroportos estivesse pronta para absorver o impacto. Agora, com o verão europeu chegando, o setor aéreo bate na porta de Bruxelas pedindo flexibilização urgente — antes que o caos se torne a norma.
Notable Quotes
O EES está causando graves consequências operacionais, prejudicando os passageiros e colocando as autoridades de fronteira, os aeroportos e as companhias aéreas sob uma pressão insustentável— Setor aéreo europeu (ACI Europe, Airlines 4 Europe, Iata) em carta à Comissão Europeia
Nem tudo está transcorrendo como esperado durante a implementação do novo sistema, o que tem resultado em filas mais longas que o habitual no controle de fronteiras— Air France-KLM
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que um sistema de controle biométrico, que deveria ser mais rápido, está causando filas de cinco horas?
Porque foi implementado sem que os aeroportos tivessem infraestrutura suficiente. O EES coleta dados de cada viajante não europeu — brasileiros, americanos, britânicos — e isso requer equipamento, pessoal treinado e espaço físico. Muitos aeroportos não tinham nada disso pronto em abril.
A Comissão Europeia está dizendo que o problema não é do sistema, mas da capacidade dos Estados-membros. Isso é justo?
É uma forma de se esquivar. Sim, alguns aeroportos têm limitações operacionais, mas o EES foi imposto por Bruxelas. Se o sistema foi lançado sem que os Estados-membros tivessem tempo de se preparar, a responsabilidade é compartilhada.
Por que Portugal mobilizou 350 agentes extras e ainda assim as filas continuam?
Porque adicionar pessoal é um curativo. O problema real é o volume de dados que precisa ser processado. Cada pessoa passa por dois pontos de controle agora — um para biometria, outro para o agente de fronteira. Mesmo com mais gente, o gargalo permanece.
O que acontece em julho e agosto?
O setor espera 40 milhões de passageiros adicionais durante as férias. Se as filas já chegam a cinco horas em junho, imagine quando os aeroportos estiverem no pico. Aviões podem sair com assentos vazios porque passageiros não conseguem passar no controle a tempo.
A Comissão vai flexibilizar as regras?
Não há sinais disso. Bruxelas mantém uma postura defensiva, dizendo que o sistema está funcionando bem. Mas a carta do setor aéreo foi clara: se nada mudar, o caos será significativamente pior. É um impasse entre quem faz as regras e quem tem que lidar com as consequências.