O colorismo dá e tira vantagens. Qual é meu lugar na luta?
Colorismo é um mecanismo de organização social que estratifica pessoas negras conforme proximidade com fenótipos brancos, criando vantagens e desvantagens dentro da própria comunidade negra. O impacto é mais cruel para mulheres negras de pele escura, sistematicamente preteridas em oportunidades de trabalho e vida afetiva, enquanto homens negros sofrem menos danos pela associação da pele escura com força.
- Termo colorismo foi cunhado por Alice Walker nos EUA no início dos anos 1980
- Livro de Devulsky tem 208 páginas e é resultado de 4 anos de pesquisa
- Mulheres negras de pele escura são sistematicamente preteridas em oportunidades de trabalho e vida afetiva
- Colorismo funciona como mecanismo de hierarquização dentro da própria comunidade negra
Alessandra Devulsky publica 'Colorismo', obra que analisa como a hierarquização dos tons de pele perpetua o racismo no Brasil, mostrando impactos diferenciados em homens e mulheres.
Quando Meghan Markle falou sobre as preocupações da família real com a cor da pele de seu filho, e quando um participante do Big Brother Brasil usou a palavra "sujinho" para questionar a negritude de um colega, dois momentos aparentemente distantes convergiram em torno de um mesmo problema: o colorismo. Alessandra Devulsky, advogada mato-grossense que vive em Montreal dirigindo uma organização de desenvolvimento comunitário, observa com certa surpresa que levou tanto tempo para o tema ganhar essa repercussão. Mas ela está prestes a aprofundar a discussão com seu livro "Colorismo", lançado pela coleção "Feminismos plurais" coordenada por Djamila Ribeiro. Fruto de quatro anos de pesquisa, a obra de 208 páginas destrincha o conceito a partir de sua herança colonial e mostra como afeta de maneiras distintas homens e mulheres.
O termo colorismo foi cunhado pela escritora Alice Walker nos Estados Unidos no início dos anos 1980, embora o conceito de pigmentocracia já circulasse na África do Norte e Europa para descrever a miscigenação sob o Império Britânico. Devulsky define colorismo como a hierarquização de pessoas segundo seus fenótipos visíveis, associados ao que se chama de europeinidade ou africanidade. É, em sua essência, um braço do racismo usado para organizar sociedades altamente miscigenadas como a brasileira. O mecanismo funciona de forma simples e devastadora: quanto mais próximo do fenótipo considerado branco, mais aceitação e oportunidades uma pessoa recebe. Quanto mais próximo de características associadas à africanidade—cabelo crespo, lábios grossos, nariz largo, pele muito pigmentada—menos vantagens se obtém. Nenhuma sociedade com o nível de desigualdade do Brasil seria viável sem criar mecanismos de hierarquização das pessoas de acordo com critérios da supremacia branca, e o colorismo é um exemplo central disso.
O impacto do colorismo recai de forma particularmente cruel sobre as mulheres. Quando se elogia uma mulher negra, frequentemente leva-se em consideração o exótico ou a presença de traços finos—um mecanismo que reduz a humanidade daquelas cujas características remetem, na visão racista, à não-civilização, à barbárie, ao tribal e ao africano. Mulheres negras de pele escura são sistematicamente preteridas pelas de pele clara, tanto na vida profissional quanto na afetiva. Para os homens, a dinâmica é diferente. Pesquisadores norte-americanos e africanistas indicam que a pele escura, para o homem, é frequentemente sinônimo de força e virilidade. Por conta do arquétipo masculino valorizado socialmente, ter pele escura é menos danoso para um homem do que é para uma mulher em uma sociedade colorista.
No ambiente de trabalho, o colorismo opera de forma particularmente insidiosa. Uma empresa pode abrir a possibilidade de evolução na carreira para pessoas negras, mas dentro desse segmento, estratifica apenas aquelas de pele clara para posições de gerência. Enquanto isso, a mulher negra de pele escura continua servindo o café na multinacional, "priorizada" para o trabalho precarizado. É uma forma de manter a hierarquia racial enquanto aparenta estar combatendo o racismo.
Devulsky reconhece que alguns argumentam que discutir colorismo pode ir contra décadas de esforço do Movimento Negro Unificado para unir o povo negro numa mesma luta. Mas ela sustenta que existem momentos históricos que demandam medidas estratégicas. Durante a ditadura, era necessário reconhecer que o racismo existia e obter dados reais sobre a população negra para reivindicar políticas públicas. Posteriormente, o país progrediu no sistema normativo, mas a cultura ficou estagnada. Entender o colorismo não significa subtrair de indivíduos sua condição negra. É reconhecer que o colorismo existe, que dá e tira vantagens, e que pessoas negras de pele clara têm responsabilidade de usar as poucas vantagens que tiveram para elevar suas irmãs negras de pele escura que não as tiveram.
A questão sobre quem tem o direito de descrever a cor da pele de alguém é fundamental. Somente o indivíduo sabe as circunstâncias que o levam a entender que é negro. Embora pessoas de pele negra clara sofram uma natureza diferente de racismo daquelas de pele mais pigmentada, ninguém é chamado de "vem cá, o negro clarinho" ou "vem cá, o pardo". A injúria racial para negros de pele clara é a mesma usada para negros de pele escura. Quando se trata de representatividade nas artes, Devulsky reconhece a tensão entre estabelecer critérios rígidos de casting e reconhecer que em uma sociedade de maioria negra, seria natural haver representatividade em todas as profissões. O número pequeno de negros em posições de destaque, e ainda menor daqueles de pele escura, indica que o racismo não só existe como é visível. Mas pecar no furor de fazer tudo 100% correto pode deixar de lado pessoas que, mesmo sem preencher todos os critérios, seriam as mais indicadas. O que surpreende Devulsky é como passamos tanto tempo sem discutir colorismo. Qualquer forma de indicar o problema—seja no reality show ou na fofoca da família real britânica—é válida, porque mostra como ter o elemento negro no fenótipo não imuniza ninguém do racismo, nem mesmo quando se é rico, famoso e membro da realeza por casamento.
Notable Quotes
Nenhuma sociedade com o nível de desigualdade do Brasil seria viável sem que se criassem mecanismos de hierarquização das pessoas de acordo com critérios da supremacia branca— Alessandra Devulsky
Qual é o meu lugar como negra de pele clara na luta antirracista? É usar as poucas vantagens que tive para elevar as minhas irmãs negras de pele escura que não as tiveram— Alessandra Devulsky
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que o colorismo demorou tanto para virar assunto de debate público no Brasil?
Porque o racismo estrutural depende de invisibilidade. Se você consegue organizar a hierarquia dentro da própria comunidade negra, você não precisa ser tão explícito sobre o racismo. É mais eficiente, mais silencioso.
Mas se o colorismo afeta principalmente mulheres negras de pele escura, por que não é um assunto só de mulheres?
Porque é estrutural. Afeta homens também, só de forma diferente. E porque entender como funciona é essencial para qualquer pessoa negra que queira combater o racismo de verdade.
Você mencionou que pessoas negras de pele clara têm responsabilidade. Isso não é um peso muito grande?
É um peso, sim. Mas é um peso que vem com vantagens que outras pessoas não tiveram. Não é sobre culpa. É sobre reconhecer onde você está e o que você pode fazer a partir daí.
E quanto àqueles que acham que falar de colorismo divide o movimento negro?
Entendo o argumento. Mas a cultura não mudou só porque o sistema normativo avançou um pouco. Precisamos ser estratégicos. Às vezes, unidade significa também reconhecer as diferenças dentro do grupo.
No trabalho, você vê isso acontecendo?
O tempo todo. Uma empresa contrata um negro para parecer progressista, mas é sempre um negro de pele clara. A mulher negra de pele escura continua invisível, servindo café. É o racismo com cara de inclusão.
Então não há saída fácil?
Não. Seria muita inocência pensar que isso se resolve naturalmente. Mas reconhecer o problema é o primeiro passo.