Após quase três décadas de negociações, o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia começa a reconfigurar os fluxos de comércio do Brasil com o mundo. Em seus primeiros cinco meses de vigência, o tratado elevou as exportações brasileiras para a Europa em 30%, enquanto o governo Lula celebra a abertura de 700 novos mercados como cumprimento de uma promessa de mandato. O momento revela não apenas uma virada econômica, mas também um esforço político deliberado de aproximação com o agronegócio — setor historicamente distante do atual governo.
Acordo UE-Mercosul eleva 30% exportações do Brasil desde maio
O acordo sozinho respondeu por uma expansão de 30% em cinco meses
Esses números de 30% de crescimento em cinco meses — como o governo chegou a essas cifras? São dados oficiais ou estimativas?
O ministro Mauro Vieira citou esses números em um evento oficial no Ministério da Agricultura. São comparações entre maio-setembro de 2026 e o mesmo período de 2025. A cifra de US$ 44,17 bilhões de aumento entre janeiro e setembro também vem de dados que o governo apresenta como oficiais.
Mas aí está a questão: esses números refletem apenas o efeito do acordo, ou incluem outras variáveis? Um crescimento de 30% em cinco meses é extraordinário. Quanto disso é realmente atribuível ao acordo UE-Mercosul e quanto pode ser flutuação cambial, recuperação geral da economia ou outros fatores?
E os 700 novos mercados — o que isso significa na prática?
Significa que autoridades sanitárias em 99 destinos diferentes autorizaram a entrada de produtos brasileiros que antes não tinham essa permissão. Pode ser carne, grãos, frutas, qualquer coisa que exija certificação. A ApexBrasil estima que desde 2023 já foram exportados US$ 5,8 bilhões para esses novos mercados.
Mas "novos mercados" é um termo amplo. Alguns desses podem ser mercados muito pequenos. E a projeção de US$ 80 bilhões nos próximos quatro anos — é uma projeção conservadora ou otimista? Quem fez essa estimativa e com base em quê?
Por que o governo fez questão de destacar o agronegócio neste evento?
Porque o setor é politicamente importante. Flávio Bolsonaro, senador da oposição, tem forte apoio do agronegócio. O governo está mostrando que também defende e investe no setor. Os números que André de Paula apresentou — 26% de crescimento acumulado versus 3,5% no governo anterior — são uma forma de dizer que o Lula está entregando para a agricultura.
Mas crescimento do PIB do agro e crescimento de exportações são coisas diferentes. O PIB do agro inclui produção para o mercado interno também. Não fica claro se o crescimento de 26% é resultado direto das políticas do governo Lula ou se é consequência de preços internacionais altos, clima favorável ou outros fatores externos.
The Pulse
- O acordo UE-Mercosul, em vigor desde maio após 27 anos de impasse diplomático, já gerou um salto de 30% nas exportações brasileiras para a Europa em apenas cinco meses.
- O governo Lula cumpriu a promessa de abrir 700 novos mercados em 99 destinos, com projeção ambiciosa de US$ 80 bilhões em exportações nos próximos quatro anos.
- O agronegócio, setor com forte base política adversária ao governo, foi o protagonista celebrado no evento — com ministros destacando crescimento acumulado de 26% no PIB agrícola sob Lula, contra 3,5% na gestão anterior.
- Tensões com os Estados Unidos foram reconhecidas, mas o governo sinalizou que permanecerá no diálogo, enquanto critica o que chamou de condução 'equivocada' da política externa na era Bolsonaro.
- O Brasil acumula alta de 20% nas exportações totais entre janeiro e setembro de 2026, consolidando uma narrativa de recuperação econômica que o Palácio do Planalto busca transformar em capital político.
Após quase três décadas de negociações, o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia começa a reconfigurar os fluxos de comércio do Brasil com o mundo. Em seus primeiros cinco meses de vigência, o tratado elevou as exportações brasileiras para a Europa em 30%, enquanto o governo Lula celebra a abertura de 700 novos mercados como cumprimento de uma promessa de mandato. O momento revela não apenas uma virada econômica, mas também um esforço político deliberado de aproximação com o agronegócio — setor historicamente distante do atual governo.
O acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, que entrou em vigor provisoriamente em 1º de maio após quase 27 anos de negociações, já apresenta resultados que o governo Lula exibe como evidência de seu impacto. Entre maio e setembro de 2026, as exportações brasileiras para o bloco europeu cresceram 30% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, em evento no Ministério da Agricultura.
O quadro geral acompanha a tendência: no acumulado de janeiro a setembro, as exportações brasileiras subiram 20%, representando US$ 44,17 bilhões a mais. Para todo o ano de 2026, a alta geral ficou em 10,4% — mas o acordo com a UE, sozinho, respondeu por uma expansão de 30% desde sua entrada em vigor, diferença que Vieira fez questão de sublinhar.
O governo também anunciou a abertura de 700 novos mercados em 99 destinos, meta que era uma promessa de campanha. A ApexBrasil estima que US$ 5,8 bilhões já foram exportados para esses mercados desde 2023, com projeção de US$ 80 bilhões nos próximos quatro anos.
O evento reuniu o vice-presidente Geraldo Alckmin e os ministros André de Paula e Márcio Elias num aceno deliberado ao agronegócio — setor com forte apoio político a adversários do presidente. Os ministros destacaram que o PIB do agro cresceu 26% no acumulado do governo Lula até 2025, contra 3,5% na gestão anterior. Elias descreveu o setor agroindustrial como central para a nova estratégia de industrialização do país, criticou o que chamou de período 'equivocado' na política externa de Bolsonaro e reconheceu tensões com os Estados Unidos, mas garantiu que o Brasil não abandonará o diálogo.
O acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, que entrou em vigor de forma provisória em 1º de maio após quase 27 anos de negociações, já produz números que o governo Lula apresenta como prova de seu impacto econômico. Entre maio e setembro deste ano, as exportações brasileiras para o bloco europeu cresceram 30% em comparação com o mesmo período de 2025, segundo informou nesta terça-feira o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, durante evento no Ministério da Agricultura e Pecuária.
O cenário mais amplo reforça a narrativa de recuperação. No acumulado de janeiro a setembro de 2026, as exportações brasileiras subiram 20%, o que se traduz em um aumento de US$ 44,17 bilhões. Para todo o ano de 2026, a alta geral nas exportações ficou em 10,4%, mas o acordo UE-Mercosul sozinho respondeu por uma expansão de 30% no período desde sua entrada em vigor. Vieira fez questão de destacar essa diferença durante sua fala, ressaltando que o tratado representa uma mudança significativa nas oportunidades comerciais do país.
O governo também anunciou a abertura de 700 novos mercados para produtos brasileiros — um número que reflete autorizações sanitárias concedidas por autoridades de países estrangeiros para a entrada de determinados produtos brasileiros. Esses mercados foram abertos em 99 destinos diferentes, incluindo países individuais e blocos econômicos. A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) estima que desde 2023 foram exportados US$ 5,8 bilhões para esses novos mercados, com projeção de US$ 80 bilhões em exportações nos próximos quatro anos. A entrega de 700 novos mercados até o fim do mandato era uma promessa do governo Lula.
O evento reuniu autoridades de alto escalão — o vice-presidente Geraldo Alckmin, o ministro da Agricultura André de Paula e o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços Márcio Elias — em um aceno deliberado ao agronegócio, setor que possui forte apoio político do senador Flávio Bolsonaro (PL), adversário do presidente Lula nas eleições. Os ministros enalteceram repetidamente o papel do setor na economia brasileira. André de Paula apresentou números que contrastam o desempenho agrícola: no governo anterior, o PIB do agro cresceu 3,5% no acumulado de quatro anos; no governo Lula, esse acumulado até 2025 é de 26%, com planejamento de chegar a 29% em 2026.
Márcio Elias reforçou a importância do setor privado agroindustrial para a nova estratégia de industrialização do Brasil, descrevendo-o como central para a expansão econômica. Ele também fez referência ao que chamou de período "equivocado" na condução das relações exteriores durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Ao mesmo tempo, Elias reconheceu tensões comerciais com os Estados Unidos, mas afirmou que o Brasil não sairá do diálogo e da negociação. Mauro Vieira, por sua vez, fez seu próprio aceno ao agronegócio, afirmando que o Itamaraty "sempre foi" defensor do setor — uma posição que o governo busca reafirmar diante da base política que historicamente apoiou a agricultura brasileira.
Notable Quotes
As exportações brasileiras tiveram uma alta de 10,4% em 2026. Só o acordo Mercosul-União Europeia, de maio até agora, significou uma expansão de 30% das nossas exportações— Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores
Em volume, o PIB do agro cresceu 3,5% no acumulado dos quatro anos do governo anterior. No nosso governo, esse acumulado até 2025 é de 26%. Neste ano, planejamos chegar a 29%— André de Paula, ministro da Agricultura e Pecuária