Abuso sexual em instituição sul-coreana expõe falhas na proteção a pessoas com deficiência

Pelo menos três mulheres com deficiência intelectual foram estupradas sistematicamente por um diretor de instituição, com indicações de assédio sexual a outras 10 moradoras durante quase uma década.
Simplesmente, eu me sinto em paz. Sou feliz todos os dias.
Seo Mi-hyeon reflete sobre sua vida após deixar a instituição onde sofreu abuso por quase uma década.
Mark

Como uma pessoa consegue sofrer abuso por quase dez anos sem que ninguém na instituição perceba ou intervenha?

Mimi

Porque Seo não tinha ninguém para contar. A instituição tinha funcionários, mas ela não confiava que a ajudariam. E havia um desequilíbrio de poder absoluto — Kim controlava onde ela dormia, o que comia, se podia sair.

Luke

Mas a instituição recebia inspeções regulares. Como isso não foi detectado?

Mimi

As inspeções se concentravam em burocracia, não em conversas reais com os moradores. E quando conversavam, só aceitavam respostas em sentenças completas — o que excluía muitas das vítimas.

Mark

Então a investigação policial também teve esse problema?

Mimi

Sim. A polícia encontrou indicações de que Kim pode ter assediado outras dez moradoras, mas a Justiça não analisou essa evidência no julgamento.

Luke

E quanto às petições pedindo leniência para Kim? Quem as apresentou?

Mimi

Treze petições no total. Uma delas, de uma organização de bem-estar social, pediu que a Justiça considerasse "a contribuição do réu para o setor de bem-estar".

Mark

Isso é extraordinário. Como alguém defende um diretor que estuprou sistematicamente?

Luke

Grupos de defesa condenaram essas organizações, argumentando que "os serviços do passado no setor de bem-estar não eximem ninguém de responsabilidade". Mas o fato de que essas petições foram apresentadas mostra uma falha cultural mais profunda.

Mimi

E o juiz reconheceu isso na sentença, dizendo que o delito foi "particularmente repreensível" porque Kim explorou o desequilíbrio de poder apesar de sua obrigação profissional de proteger.

Mark

Qual é o próximo passo para Seo e para as outras vítimas?

Mimi

O governo está desenvolvendo planos individuais de apoio à vida independente para todos os 33 moradores. Mas esse processo ainda está em andamento, e Saekdongwon apresentou uma ação administrativa questionando a revogação de sua licença.

  • Por quase dez anos, Seo Mi-hyeon suportou abusos noturnos em silêncio porque não havia nenhum adulto na instituição disposto ou capaz de ouvi-la.
  • Foi um copo arremessado contra sua cabeça — e a recusa da instituição em mostrar as câmeras de segurança à sua mãe — que finalmente rompeu o ciclo de violência e silêncio.
  • A investigação revelou pelo menos três vítimas confirmadas e indícios de assédio a outras dez moradoras, mas a Justiça deixou parte das evidências sem análise durante o julgamento.
  • A sentença de 15 anos gerou críticas imediatas: grupos de defesa dos direitos questionaram por que a capacidade de resistência física da vítima ainda influencia o veredito em casos de abuso contra pessoas com deficiência.
  • O governo sul-coreano inspecionou 1.507 residências assistidas e anunciou fiscalizações mais rigorosas, mas ativistas alertam que inspeções burocráticas nunca foram suficientes para alcançar o que acontece à noite.

Durante quase uma década, mulheres com deficiência intelectual foram sistematicamente violadas dentro de uma instituição criada para protegê-las, em Incheon, na Coreia do Sul. O silêncio foi sustentado não pela ausência de palavras, mas pela ausência de quem estivesse disposto a ouvi-las. A condenação do diretor Kim a 15 anos de prisão encerra um capítulo judicial, mas abre uma pergunta mais ampla sobre o que significa proteger aqueles que o Estado declara sob sua tutela.

Seo Mi-hyeon tem deficiência intelectual e se comunica por gestos e frases curtas — mas suas recordações dos abusos sofridos em Saekdongwon, uma residência assistida em Incheon, eram claras o suficiente para abrir uma investigação criminal. Desde sua chegada à instituição, em 2016, o diretor Kim passou a visitá-la à noite para estuprá-la. Isso se repetiu por quase dez anos. Ela não tinha para quem falar.

O silêncio se quebrou em fevereiro de 2025, quando Kim arremessou um copo contra ela durante uma tentativa de abuso. A instituição a levou ao hospital sem avisar a mãe. Quando a mãe pediu as imagens das câmeras de segurança, foi recusada. Ela retirou Seo do local — e foi só então, sabendo que não precisaria voltar, que Seo revelou tudo.

A investigação identificou pelo menos duas outras vítimas confirmadas e indícios de assédio sexual a outras dez moradoras. Em outubro, um tribunal em Seul condenou Kim a 15 anos de prisão — cinco anos abaixo do pedido dos promotores. Em relação a uma terceira vítima, o juiz considerou que não havia evidências de força suficiente para caracterizar estupro, uma decisão que provocou críticas imediatas de grupos de defesa dos direitos das pessoas com deficiência.

O caso chocou a Coreia do Sul porque ocorreu após reformas legais de 2011 que endureceram as penas para crimes sexuais contra pessoas com deficiência. Ainda assim, as inspeções regulares em Saekdongwon não detectaram nada: um funcionário público admitiu à BBC que as vistorias se concentravam em burocracia, e que os moradores raramente eram entrevistados. Famílias que suspeitavam de abusos hesitavam em denunciar porque retirar um familiar da instituição significava assumir integralmente os cuidados — e encontrar vagas alternativas é extremamente difícil.

O governo inspecionou 1.507 residências assistidas em abril deste ano, identificando 33 casos suspeitos. Saekdongwon foi ordenada a fechar, mas o encerramento aguarda a realocação dos 33 moradores restantes. Quando perguntada sobre a maior mudança desde que saiu, Seo respondeu com simplicidade: 'Eu me sinto em paz. Sou feliz todos os dias.' Mas ela fez questão de dizer que pessoas com deficiência ainda precisam de um lugar onde possam se sentir seguras.

Seo Mi-hyeon tinha palavras para descrever o que lhe aconteceu, mesmo que precisasse delas em fragmentos. "Eu estava ferida por dentro", disse ela à polícia sul-coreana, e aquelas palavras abriram uma investigação que expôs quase uma década de violência sexual sistemática em uma instituição estatal destinada a protegê-la.

Seo tem deficiência intelectual. Ela se comunica através de gestos e frases breves, mas suas recordações dos abusos que sofreu em Saekdongwon, uma residência assistida na cidade de Incheon, a oeste de Seul, são claras e precisas. Ela chegou à instituição em 2016, totalmente subsidiada pelo Estado, que abrigava cerca de 33 moradores. Logo depois de sua chegada, o diretor da casa, identificado apenas pelo sobrenome Kim, começou a visitá-la à noite e nas primeiras horas da manhã para estuprá-la. Isso continuou por quase dez anos. Seo não tinha para quem falar. Nenhum adulto na instituição parecia disponível ou disposto a ouvir. Ela simplesmente aguentou.

O silêncio se quebrou em fevereiro de 2025, quando Seo sofreu um ferimento na cabeça durante uma das tentativas de abuso. Ela bloqueou Kim com as mãos, e ele atirou um copo contra ela. A instituição a levou ao hospital, mas só informou sua mãe depois que os pontos já tinham sido aplicados. Quando a mãe pediu as imagens das câmeras de segurança para entender o que havia acontecido, a instituição recusou, alegando não ter autorização para liberá-las. A mãe retirou Seo do local. E apenas quando soube que não precisaria voltar, Seo finalmente revelou os abusos à sua mãe, que levou a denúncia à polícia.

A investigação expandiu-se rapidamente. A polícia identificou pelo menos duas outras vítimas confirmadas: Lee Mi-na, que também foi estuprada por Kim. Uma universidade contratada para avaliar os moradores encontrou indicações de que Kim pode ter assediado sexualmente pelo menos outras dez moradoras da instituição. Mas a Justiça não analisou essa conclusão durante o julgamento. No início de outubro, um tribunal em Seul condenou Kim a 15 anos de prisão pelo estupro de Lee e Seo — uma sentença cinco anos menor do que o pedido original dos promotores. Ele negou todas as acusações e recorreu da decisão. Em relação à terceira vítima, Kim foi considerado culpado apenas de violência social, não de estupro, porque o juiz determinou que não havia evidências conclusivas de "força ou ameaças que impossibilitassem a vítima de resistir".

Essa decisão provocou críticas imediatas. Um comitê de resposta conjunto, composto por grupos defensores dos direitos das pessoas com deficiências, argumentou que a capacidade de uma vítima resistir não deveria influenciar o veredito. O comitê também apontou falhas na investigação: a polícia teve dificuldades para determinar os detalhes dos abusos ao entrevistar as moradoras porque a maioria apresentava graves deficiências e dificuldades de comunicação. Alguns pesquisadores aceitaram apenas os relatos de pessoas que conseguiram descrever os abusos em sentenças completas. Ativistas questionam essa abordagem. "Se as vítimas expressarem suas experiências de forma diferente do esperado, o Estado não deveria se esforçar mais para ouvir suas vozes?", perguntou Baek In-seong, do centro de aconselhamento Hansahoe.

O caso chocou a Coreia do Sul porque ocorreu após mudanças legais realizadas em 2011, que fortaleceram a legislação para proteger pessoas com deficiências contra violência sexual. Aquelas leis incluíram categorias mais específicas de delitos sexuais, penalidades mais duras para funcionários e diretores, e a retirada do estatuto de limitações para alguns tipos de estupro. Mas em Saekdongwon, os abusos persistiram apesar das inspeções regulares. Um funcionário público local admitiu à BBC que essas inspeções se concentravam principalmente em burocracia e que os moradores só eram entrevistados quando surgiam questões específicas. Famílias suspeitavam de abusos, mas não se sentiam capazes de falar sobre suas preocupações. Remover alguém de uma instituição significava que a família precisaria assumir todas as responsabilidades de cuidados, já que é difícil encontrar locais alternativos. Uma pesquisa mostrou que cerca de seis a cada dez moradores esperaram pelo menos três anos para conseguir um lugar em uma residência assistida.

O caso de Saekdongwon não é isolado. Em 2023, um profissional foi condenado a oito anos de prisão por estuprar duas mulheres com deficiência intelectual em uma instituição em Yeongcheon. Em outro caso, um profissional foi condenado a seis anos por estuprar repetidas vezes uma moradora em Anseong. Em abril deste ano, o governo da Coreia do Sul inspecionou 1.507 residências para pessoas com deficiências em todo o país, identificando 33 casos suspeitos de abuso, com investigações abertas em oito delas. O governo também anunciou que fortaleceria as inspeções e realizaria vistorias conjuntas envolvendo autoridades locais, polícia e agências de defesa dos direitos das pessoas com deficiências. Ganghwa ordenou o fechamento de Saekdongwon, mas o fechamento foi postergado até que os 33 moradores restantes sejam realocados e que providências para sua moradia independente sejam concluídas.

Quando perguntada qual foi a maior mudança desde que saiu de Saekdongwon, Seo respondeu: "Simplesmente, eu me sinto em paz. Sou feliz todos os dias." O que ela mais queria agora era cortar por completo os laços com o diretor e nunca mais ter nada a ver com ele. Mas ela destaca que as pessoas com deficiências ainda precisam de um lugar onde possam se sentir seguras.

Eu estava ferida por dentro e, por isso, vim contar a minha história.
— Seo Mi-hyeon, à polícia sul-coreana
Se as vítimas expressarem suas experiências de forma diferente do esperado, o Estado não deveria se esforçar mais para ouvir suas vozes?
— Baek In-seong, centro de aconselhamento Hansahoe
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