Lula lidera com 53% entre eleitores com Ensino Fundamental, mas esse segmento comparece menos às urnas historicamente, criando risco para vitória no primeiro turno. Em 2018, apenas 49,2% dos analfabetos votaram contra 88,4% dos eleitores com curso superior, diferença de 40 pontos percentuais que pode ser decisiva em eleição apertada.
Abstenção de eleitores menos escolarizados pode impedir vitória de Lula no 1º turno
Para vencer no primeiro turno, Lula precisava que seus eleitores saíssem de casa
Por que a abstenção é um problema específico para Lula se ele lidera nas pesquisas?
Porque Lula lidera justamente entre os eleitores que historicamente votam menos. Ele tem 53% de intenção entre quem cursou só o ensino fundamental, mas esse grupo comparece muito menos às urnas que eleitores com ensino superior.
Mas quanto menos, exatamente? Os números mostram 49% de comparecimento entre analfabetos contra 88% entre quem tem curso superior. Isso é uma diferença enorme, mas quantos analfabetos havia no eleitorado de 2018?
Apenas 4,5% do eleitorado apto. Então, embora o percentual de abstenção seja alto, o peso relativo desse grupo é pequeno.
Então a abstenção talvez não seja tão decisiva assim?
Depende. Se a margem entre Lula e Bolsonaro for apertada—e as pesquisas mostravam votos válidos indistinguíveis de 50%—então qualquer fração de votos importa. Meirelles deixa isso claro.
Exatamente. E há outro fator: se eleitores de Ciro Gomes e Simone Tebet não comparecerem, o número de votos válidos que Lula precisa para vencer no primeiro turno fica menor.
Então a abstenção poderia ajudá-lo?
Poderia, mas ninguém conseguia prever qual seria o padrão de abstenção em 2022. Os institutos de pesquisa eram claros sobre isso.
E Lula estava tão preocupado que conclamou seus eleitores por vídeo a comparecerem. Bolsonaro, por sua vez, temia que seus apoiadores deixassem de votar pela chance de derrota.
Então tudo dependia de quem realmente sairia de casa no dia 2 de outubro.
Sim. E ninguém podia garantir isso com antecedência.
Le Pouls
- Lula tinha 53% de intenção de voto entre eleitores com ensino fundamental, mas apenas 34% entre quem tinha ensino superior
- Em 2018, 49,2% dos analfabetos votaram contra 88,4% dos eleitores com curso superior—diferença de 40 pontos percentuais
- Abstenção em 2018 foi de 20,3%, o nível mais alto desde 1998, quando foi de 21,5%
- Entre eleitores de Ciro Gomes, 34% não tinham vontade de votar; entre os de Simone Tebet, 40%
Lula lidera com 53% entre eleitores com Ensino Fundamental, mas esse segmento comparece menos às urnas historicamente, criando risco para vitória no primeiro turno. Em 2018, apenas 49,2% dos analfabetos votaram contra 88,4% dos eleitores com curso superior, diferença de 40 pontos percentuais que pode ser decisiva em eleição apertada.
Pesquisas indicam que Lula pode vencer no primeiro turno das eleições presidenciais de 2022, mas alta abstenção entre eleitores menos escolarizados—seu principal eleitorado—pode forçar segundo turno.
As pesquisas que circulavam no final de setembro de 2022 mostravam Luiz Inácio Lula da Silva com possibilidades reais de vencer a eleição presidencial já no primeiro turno, marcado para 2 de outubro. Mas havia um problema embutido nessa vantagem: os eleitores que mais apoiavam o ex-presidente eram justamente aqueles que historicamente deixavam de comparecer às urnas.
Os números revelavam o padrão com clareza. Entre eleitores com ensino superior, Lula tinha cerca de 34% de intenção de voto. Mas entre aqueles que cursaram apenas o ensino fundamental, sua intenção subia para 53%. O problema era que esse segundo grupo, mais pobre e menos escolarizado, votava em proporções muito menores. O cientista político Jairo Nicolau havia analisado os dados de 2018 e encontrado uma diferença brutal: apenas 49,2% dos analfabetos compareceram às urnas, enquanto 88,4% dos eleitores com curso superior votaram. Uma diferença de quase 40 pontos percentuais.
Essa disparidade não era um detalhe técnico. Em uma eleição onde o candidato precisa de maioria absoluta dos votos válidos para vencer no primeiro turno, pequenas variações no comparecimento podiam mudar tudo. Se o padrão de 2018 se repetisse, Lula enfrentaria uma situação paradoxal: lideraria entre seus potenciais eleitores, mas poderia perder votos porque muitos deles simplesmente não iriam votar. Nicolau era direto: para que Lula assegurasse a vitória no primeiro turno, era fundamental que seus eleitores de baixa escolaridade e baixa renda saíssem de casa no dia 2 de outubro.
Os diretores dos principais institutos de pesquisa concordavam com essa lógica, mas faziam ressalvas importantes. Luciana Chong, do Datafolha, apontava que se a abstenção mantivesse o padrão de 2018, isso "desfavoreceria Lula, uma vez que o perfil dessa abstenção é próximo ao perfil dos eleitores dele". Felipe Nunes, da Quaest, e Márcia Cavallari, do Ipec, ecoavam a mesma preocupação. Nenhum deles, porém, conseguia prever com segurança qual seria o nível de abstenção em 2022. Historicamente, ela havia variado: 20,3% em 2018 (o mais alto desde 1998), 18,1% em 2010, 16,7% em 2006 e 17,7% em 2002, quando Lula se tornou presidente pela primeira vez.
Havia, contudo, outras variáveis em jogo. Segundo o Datafolha, quase 90% dos apoiadores de Lula e Bolsonaro tinham vontade de votar. Mas entre os eleitores de Ciro Gomes, 34% não tinham "nenhuma vontade" de ir às urnas, e entre os de Simone Tebet, essa taxa era de 40%. Isso poderia, paradoxalmente, ajudar Lula: se esses eleitores não comparecessem, o número de votos válidos que ele precisaria para vencer no primeiro turno seria menor.
Fernando Meirelles, pesquisador de pós-doutorado em ciência política no Cebrap, oferecia uma perspectiva diferente. Ele argumentava que, embora o eleitorado de Lula comparecesse menos, isso não significava necessariamente que suas chances de vitória no primeiro turno diminuíssem. O que importava era o peso relativo de cada segmento. Os analfabetos, por exemplo, representavam apenas 4,5% do eleitorado apto em 2018 e, mesmo com sua taxa de comparecimento de 49,2%, seu peso relativo caiu apenas para 2,8% do eleitorado que votou—uma diferença de 1,7 ponto percentual. Meirelles usava a matemática para mostrar que, para afetar substantivamente a votação de qualquer candidatura, as diferenças nas taxas de comparecimento precisavam ser muito grandes, o que não havia ocorrido nas últimas eleições.
Mas a realidade era que, com as pesquisas mostrando votos válidos estimados indistinguíveis de 50% para Lula, qualquer fração de votos a mais ou a menos importava. Meirelles reconhecia que, em caso de margem apertada, a taxa de comparecimento seria decisiva, assim como o voto útil e o movimento de indecisos na véspera. O fato era que o comparecimento eleitoral se tornara uma preocupação central para ambas as campanhas. Lula havia conclamado seus eleitores por vídeo a comparecerem às urnas, enquanto a campanha de Bolsonaro temia que parte de seus apoiadores deixasse de votar pela chance de derrota. Tudo dependeria do que aconteceria no domingo.
Citations marquantes
Para que o petista assegure a vitória ainda no primeiro turno, é fundamental que seus potenciais eleitores compareçam para votar— Jairo Nicolau, cientista político
Se a abstenção seguir o padrão normal, sim, pode dificultar Lula vencer no 1º turno— Felipe Nunes, diretor do instituto Quaest