Abstenção crescente pode definir eleição presidencial com cenário apertado

A ausência de eleitores tende a penalizar Lula porque ele tem menos votos entre os menos escolarizados
Cientista político explica por que o crescimento da abstenção pode afetar desproporcionalmente a campanha do petista.
Mark

Por que a abstenção crescente importa tanto desta vez, se o Brasil sempre teve uma taxa de comparecimento relativamente alta?

Mimi

Porque a eleição está muito apertada. Lula tem 42% e Flávio tem 38% em votos totais — uma diferença pequena. Se a abstenção sobe e atinge principalmente a base de Lula, pode virar o resultado.

Luke

Mas a pesquisa do Datafolha mostra que 17% dos eleitores têm baixa disposição para votar, e esse grupo tem mais jovens e menos escolarizados — sim, base de Lula. Mas também tem mais gente no Sudeste, não no Nordeste. Então não é automático que Lula perde.

Mark

E qual é o perfil típico de quem se abstém?

Mimi

Principalmente menos escolarizados, de menor renda, e eleitores em áreas remotas. Em 2022, analfabetos tiveram 52% de abstenção. Maiores de 70 anos também: 58,8%.

Luke

Certo, mas o Tribunal Superior Eleitoral forneceu esses números. A questão é: quanto desse padrão se repete em 2026? As circunstâncias mudam. Lula tem menos apoio entre menos escolarizados agora do que tinha em 2022 — isso é atribuído a insatisfação com a economia, não é um número medido.

Mark

Então a economia está puxando a abstenção?

Mimi

Não exatamente. A abstenção cresce desde 2006, é uma tendência de longo prazo. Mas a insatisfação econômica pode estar amplificando isso entre a base de Lula especificamente.

Luke

E há outro fator: esta é a primeira eleição em décadas sem debate entre os principais candidatos. O engajamento está no menor nível desde a redemocratização. Mas ninguém sabe ainda se isso vai se traduzir em abstenção maior ou em votos brancos e nulos. É tudo especulação neste ponto.

Mark

Os pesquisadores conseguem prever quem será penalizado?

Mimi

Lavareda acha que Lula sai prejudicado. Mas Luciana Chong, do Datafolha, diz que é difícil ser categórico. Depende de como a abstenção se distribui regionalmente.

Luke

Exato. E Bruno Reis lembra que, mesmo com toda essa preocupação, 80% dos eleitores brasileiros comparecem. O voto é obrigatório, mas a penalidade é simbólica — custa cinco reais regularizar. Então a abstenção pode ser decisiva, mas não vai ser massiva.

  • Com Lula em 42% e Flávio Bolsonaro em 38% no primeiro turno, e empate técnico no segundo, qualquer variação no comparecimento pode inverter o resultado.
  • Especialistas alertam que a base tradicional de Lula — eleitores de baixa renda e menor escolaridade — é exatamente o grupo com maior taxa de abstenção, chegando a 52% entre analfabetos em 2022.
  • O desengajamento político se aprofunda: esta é a primeira eleição em décadas sem debate entre os candidatos principais, e o interesse do eleitorado está no nível mais baixo desde a redemocratização.
  • O padrão regional divide as apostas — o Nordeste, reduto de Lula, mostra maior disposição para votar, enquanto o Sudeste registra índices mais altos de possível abstenção.
  • Apesar das preocupações, cerca de 80% dos brasileiros ainda comparecem às urnas mesmo com punições mínimas pelo não voto, o que alguns cientistas políticos leem como sinal de saúde democrática.

A cada eleição desde 2006, mais brasileiros optam pelo silêncio das urnas vazias — e em 2026, com Lula e Flávio Bolsonaro separados por uma margem que cabe dentro do erro estatístico, esse silêncio pode ter voz decisiva. A abstenção, que atingiu 20,79% em 2022, não é apenas um dado técnico: é o retrato de um desencanto que recai de forma desproporcional sobre os menos escolarizados e os mais distantes dos centros de poder, justamente aqueles que historicamente sustentaram o projeto petista. O Brasil vai às urnas carregando uma pergunta que nenhuma pesquisa consegue responder com certeza — não quem vai votar em quem, mas quem vai votar.

Há vinte anos, a abstenção nas eleições presidenciais brasileiras cresce de forma silenciosa e constante. Entre 2006 e 2022, o índice subiu quatro pontos percentuais, chegando a 20,79% no primeiro turno — 32,2 milhões de brasileiros que não foram às urnas. Em 2022, a disputa entre Bolsonaro e Lula já era acirrada, mas o que se desenha para 2026 é ainda mais tenso: dois candidatos competitivos, intenções de voto praticamente empatadas dentro da margem de erro, e a abstenção como possível fiel da balança.

A última pesquisa Datafolha antes da votação mostrava Lula com 42% no primeiro turno contra 38% de Flávio Bolsonaro. No segundo turno, 48% a 45% — dentro da margem de erro. Antônio Lavareda, presidente da Associação Brasileira de Pesquisas Eleitorais, aponta que o crescimento da abstenção tende a prejudicar Lula: seus eleitores históricos, de menor renda e escolaridade, são exatamente os que mais se abstêm. A correlação entre baixa instrução e não comparecimento é de -0,97 — quase absoluta. Entre analfabetos, a abstenção chegou a 52% no primeiro turno de 2022. Entre eleitores com ensino superior, foi de apenas 12,4%.

Nem todos os especialistas, porém, veem o impacto como inequívoco para Lula. Luciana Chong, diretora do Datafolha, lembra que parte dos eleitores menos escolarizados apoia Flávio Bolsonaro, e que o padrão regional complica qualquer previsão: o Nordeste, onde Lula é mais forte, apresenta eleitores mais dispostos a votar, enquanto o Sudeste mostra maior tendência à abstenção.

O contexto político amplifica a incerteza. Sem debates entre os candidatos e com o menor índice de interesse eleitoral desde a redemocratização, o desengajamento é palpável. Jairo Nicolau, do CPDOC da FGV, observa que a insatisfação com a política ainda não se traduziu plenamente em abstenção nas últimas eleições — mas o clima atual é diferente, e ninguém sabe ao certo em que se converterá. Bruno Reis, da UFMG, prefere destacar que 80% dos brasileiros ainda comparecem mesmo com penalizações mínimas pelo não voto — um sinal, segundo ele, de vitalidade do sistema eleitoral. A questão que permanece aberta é como esses votos se distribuirão entre os dois candidatos.

Há vinte anos, a abstenção nas eleições presidenciais brasileiras vinha crescendo de forma constante. Entre 2006 e 2022, o índice subiu quatro pontos percentuais, até chegar a 20,79% no primeiro turno — o equivalente a 32,2 milhões de brasileiros que não compareceram às urnas. Naquele pleito entre Jair Bolsonaro e Lula, as pesquisas apontavam uma disputa menos acirrada do que a que se desenha agora. Desta vez, com apenas dois candidatos competitivos e suas intenções de voto praticamente empatadas dentro da margem de erro, a abstenção pode ser o fator que define quem vai vencer.

A última pesquisa Datafolha, divulgada na quinta-feira anterior à votação, mostrava Lula com 42% das intenções de votos totais no primeiro turno, contra 38% de Flávio Bolsonaro. No segundo turno, o cenário era ainda mais apertado: 48% para Lula e 45% para Flávio, dentro da margem de erro. Essa proximidade torna cada voto potencial crucial. E é justamente aí que entra a questão do não comparecimento: quem deixa de ir às urnas pode mudar completamente o resultado.

Segundo Antônio Lavareda, presidente da Associação Brasileira de Pesquisas Eleitorais, o crescimento da abstenção tende a prejudicar Lula especificamente. Lavareda observa que os eleitores que se abstêm são predominantemente menos escolarizados e de menor renda — exatamente o público que historicamente mais vota no petista. A correlação entre baixa escolaridade e abstenção é quase absoluta, de -0,97, o que significa que quanto menor a instrução, maior a tendência de não comparecer. Além disso, Lula tem menos votos entre esse segmento em 2026 do que tinha em 2022, e há uma insatisfação generalizada com a economia e a percepção de que ela não melhorará nos próximos anos.

Os dados do Tribunal Superior Eleitoral confirmam essa tendência. Entre analfabetos, a abstenção chegou a 52% no primeiro turno de 2022 e 49,3% no segundo. Entre eleitores com ensino superior completo, foi apenas 12,4%. Eleitores mais velhos também apresentam taxas elevadas: entre maiores de 70 anos, a abstenção foi de 58,8% no primeiro turno e 54,7% no segundo, já que o voto é facultativo para esse grupo. As cidades com maior abstenção estão localizadas em áreas remotas da região Norte, em zonas de fronteira e em municípios pequenos, onde as dificuldades logísticas para chegar às urnas são maiores.

Mas nem todos os especialistas concordam que a abstenção penalizará Lula de forma inequívoca. Luciana Chong, diretora do Datafolha, afirma ser difícil prever qual candidato será mais afetado. Segundo ela, embora os menos escolarizados liderem as taxas de abstenção e votem predominantemente em Lula, há também uma parcela desse segmento que apoia Flávio Bolsonaro. Além disso, o padrão regional importa: o Nordeste, onde Lula tem forte apoio, apresenta eleitores com maior disposição para votar, enquanto o Sudeste mostra índices maiores de possível abstenção.

O cenário político também contribui para o desengajamento. Esta é a primeira eleição em décadas sem debate entre os principais candidatos, e o grau de interesse medido nas pesquisas é baixo — o menor desde a redemocratização. Jairo Nicolau, pesquisador do CPDOC da Fundação Getulio Vargas, observa que a recusa à política manifestada pelo eleitorado nos últimos anos ainda não se transformou completamente em abstenção, brancos e nulos. Em 2013 houve grande insatisfação, mas as urnas não registraram mudanças significativas em 2014. Depois veio a Lava Jato, que canalizou a insatisfação para o bolsonarismo. Na eleição anterior, a abstenção até caiu no segundo turno. Agora, com esse clima estranho, é incerto em que se traduzirá.

Apesar das preocupações com a abstenção crescente, Bruno Reis, professor de ciência política da Universidade Federal de Minas Gerais, considera que o comparecimento dos eleitores brasileiros permanece alto — em torno de 80%. Ele vê isso como um sintoma positivo do sistema eleitoral. O voto é obrigatório no Brasil, mas na prática a penalização é mínima: com cinco reais, qualquer eleitor regulariza sua situação em dois minutos numa seção eleitoral. Ainda assim, cerca de quatro em cada cinco brasileiros comparecem. A questão agora é se esse padrão se mantém e, mais importante, como os votos que chegam às urnas se distribuem entre os dois candidatos.

A abstenção vai prejudicar Lula porque ele tem menos votos entre os menos escolarizados do que tinha em 2022. Há uma insatisfação com a economia e a percepção de que ela não melhorará.
— Antônio Lavareda, presidente da Associação Brasileira de Pesquisas Eleitorais
Não dá para ser tão categórico. O menos escolarizado lidera a abstenção e vota em Lula, mas também há uma fatia que está com Flávio, e o Sudeste tem menos chance de votar do que o Nordeste.
— Luciana Chong, diretora do Datafolha
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