Reabertura de Ormuz inunda mercados com petróleo e pressiona preços globais

Refinarias asiáticas já estão bem abastecidas até agosto
Analista explica por que o petróleo liberado pelo Estreito de Ormuz não encontra demanda na Ásia.

Petróleo bruto angolano atinge maiores descontos em uma década, negociado até US$ 10 abaixo do Brent, refletindo excesso súbito de oferta. Demanda chinesa enfraquecida e liberação de estoques estratégicos amplificam pressão nos preços, com refinarias asiáticas oferecendo cargas para venda.

  • Petróleo bruto angolano negociado até US$ 10 abaixo do Brent, maiores descontos em uma década
  • Brent caiu abaixo de US$ 75 por barril, revertendo alta de US$ 140 em abril
  • Irã enviou 30 milhões de barris para a Ásia após acordo; EUA concedeu licença de 60 dias
  • Estoques de petróleo bruto dos EUA no nível mais baixo desde 1984
  • Seis superpetroleiros com 12 milhões de barris dos Emirados Árabes Unidos e Omã a caminho da Europa

A reabertura do Estreito de Ormuz após acordo EUA-Irã causa inundação de oferta de petróleo nos mercados globais, derrubando preços do Brent abaixo de US$ 75 e criando excesso de oferta em mercados-chave.

Em apenas alguns meses, o mercado global de petróleo passou de uma crise de escassez para um problema oposto: demasiada oferta. A reabertura do Estreito de Ormuz, selado pela guerra entre os EUA e o Irã, abriu as comportas. Agora, carregamentos de petróleo bruto inundam os mercados europeus e asiáticos, e os compradores — acostumados a pagar prêmios por cada barril — se veem subitamente com opções demais e preços em queda livre.

O Brent, a referência global de preços, caiu abaixo de US$ 75 por barril na quarta-feira, revertendo meses de alta. Em abril, havia ultrapassado US$ 140, impulsionado pelo pânico de refinarias em todo o mundo respondendo à guerra. Agora, o índice está próximo do patamar em que se encontrava quando o conflito começou. O petróleo bruto angolano, normalmente muito procurado pela China, sofreu ainda mais: está sendo vendido com descontos de mais de uma década, negociado a quase US$ 10 abaixo do preço de referência global. Em um sinal de inversão drástica dos fluxos normais, algumas refinarias chinesas estão oferecendo cargas de petróleo para venda em vez de comprá-las.

A oferta começou a crescer bem antes do acordo formal entre Washington e Teerã. Liberações estratégicas de estoques, o colapso na demanda chinesa e um número substancial de petroleiros saindo clandestinamente do Golfo Pérsico já haviam criado um pequeno excesso em mercados-chave. Os Emirados Árabes Unidos, em particular, intensificaram embarques discretos durante a guerra, e a Agência Internacional de Energia estimou que suas exportações totais atingiram quase 85% dos níveis pré-guerra no início de junho, antes da reabertura formal do estreito.

Depois do acordo, o fluxo acelerou dramaticamente. O Irã enviou 30 milhões de barris para a Ásia nos dias que antecederam a emissão de uma licença de 60 dias concedida pelos EUA, permitindo a venda de petróleo no mercado internacional. Empresas que não haviam transitado anteriormente pela hidrovia — incluindo a gigante saudita de transporte marítimo Bahri — começaram a retirar barris retidos. Os Emirados Árabes Unidos venderam cerca de 60 milhões de barris de petróleo bruto em uma série de licitações para os próximos meses, aumentando ainda mais a pressão. Como resultado, milhões de barris que normalmente seriam destinados à Ásia estão agora a caminho da Europa. Pelo menos seis superpetroleiros, transportando um total de 12 milhões de barris dos Emirados Árabes Unidos e de Omã, devem chegar à Europa no próximo mês. A refinaria Dangote, na Nigéria, recebeu pela primeira vez remessas dos Emirados Árabes Unidos, demonstrando como o aumento da oferta está sendo atendido por novos mercados.

Daan Struyven, co-chefe de commodities globais do Goldman Sachs, descreveu a situação em entrevista à Bloomberg TV: "Na verdade, se consegue um desconto comprando um barril agora em vez de um barril amanhã, devido à fragilidade da demanda asiática por petróleo do Oriente Médio. A reabertura está indo bem e rapidamente." O mercado do Oriente Médio está sendo negociado em uma estrutura de contango baixista, sinalizando excesso de oferta. O mercado do Mar do Norte também está sendo negociado com desconto em relação aos futuros do Brent — um sinal de que a oferta na região, que define a referência global, é abundante.

June Goh, analista sênior do mercado de petróleo da Sparta Commodities, explicou a dinâmica: "As refinarias asiáticas já estão bem abastecidas até agosto, e os barris liberados imediatamente pelo Estreito de Ormuz simplesmente aumentam a oferta, sem que a China consiga suprir a demanda." A queda reacendeu a perspectiva de um significativo excesso de oferta que se esperava dominar os mercados de petróleo este ano. A Agência Internacional de Energia previu, na semana passada, um excedente considerável em 2027.

Mas há uma complicação: grande parte do sucesso do mercado em solucionar o problema da interrupção do fornecimento pelo Estreito de Ormuz ocorreu à custa de estoques que precisarão ser reabastecidos, absorvendo potencialmente parte desse excesso de oferta. Os estoques de petróleo bruto dos EUA, incluindo as reservas estratégicas, estão atualmente no nível mais baixo desde 1984. Os estoques no principal centro de precificação de Cushing também estão próximos dos níveis mínimos operacionais. Esses níveis perigosamente baixos tornam o mercado extremamente vulnerável a choques e novas perturbações, mesmo enquanto a oferta global transborda.

Se consegue um desconto comprando um barril agora em vez de um barril amanhã, devido à fragilidade da demanda asiática por petróleo do Oriente Médio. A reabertura está indo bem e rapidamente.
— Daan Struyven, co-chefe de commodities globais do Goldman Sachs
As refinarias asiáticas já estão bem abastecidas até agosto, e os barris liberados imediatamente pelo Estreito de Ormuz simplesmente aumentam a oferta, sem que a China consiga suprir a demanda.
— June Goh, analista sênior do mercado de petróleo da Sparta Commodities
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Como um acordo entre dois países consegue inundar mercados globais tão rapidamente?

Model

O Estreito de Ormuz é um gargalo. Quando estava fechado, o petróleo tinha de encontrar rotas alternativas — mais caras, mais lentas, mais arriscadas. Quando reabre, toda a oferta que estava represada ou sendo desviada pode fluir livremente de novo. Mas também há o efeito psicológico: operadores que estavam comprando em pânico agora veem que não precisam mais.

Inventor

Por que a China, o maior comprador, está oferecendo petróleo para venda em vez de comprá-lo?

Model

Porque suas refinarias já estão cheias. Durante a escassez, elas compraram tudo o que podiam. Agora, com oferta abundante e demanda fraca, não há razão para manter estoques caros. É mais barato vender o que têm do que pagar para armazenar.

Inventor

O petróleo angolano caiu US$ 10 por barril. Isso é um colapso?

Model

Para um produtor, sim. Mas é também um sinal de que o mercado mudou de regime. Quando há escassez, até o petróleo de qualidade média recebe prêmio. Quando há excesso, até o bom petróleo é vendido com desconto. A Angola está descobrindo que sua vantagem desapareceu.

Inventor

Os EUA têm estoques muito baixos. Isso não deveria estar sustentando os preços?

Model

Deveria, e em certa medida está — os preços nos EUA são mais altos do que no resto do mundo. Mas o mercado global é maior. A Europa e a Ásia têm oferta abundante, então o preço global cai. Os EUA ficam isolados, com demanda restrita porque seus preços são altos.

Inventor

Então o mercado está vulnerável?

Model

Paradoxalmente, sim. Há oferta abundante agora, mas estoques estratégicos muito baixos. Se qualquer coisa der errado — outro conflito, um desastre em uma refinaria — não há amortecedor. O mercado pode virar de novo.

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