A urgência do ajuste fiscal antes que a dívida pública dispare

Sem queda do juro real, não há queda da dívida pública
O economista explica por que superávit primário sozinho não resolve o problema da dívida crescente.
Mark

Por que exatamente a dívida vai crescer mais rápido nos próximos quatro anos se nada mudar?

Mimi

Porque três coisas acontecem ao mesmo tempo. A dívida já é maior, os juros que o governo paga sobre ela subiram bastante, e o crescimento econômico será menor. É como ter uma dívida pessoal maior, com juros mais altos, enquanto seu salário cresce menos.

Luke

Mas essas projeções de crescimento menor — elas vêm de onde? Quem está fazendo essas previsões?

Mimi

O texto não especifica a fonte das projeções de crescimento. Ele apenas afirma que será menor do que foi de 2023 a 2026, baseado no fato de que o desemprego não pode cair mais.

Mark

E essa proposta de ajuste fiscal de 2% do PIB — é viável politicamente?

Mimi

A proposta existe e foi publicada por economistas respeitados, mas o texto não discute viabilidade política. Apenas apresenta as medidas: reduzir gastos tributários, desvinculação de benefícios do salário mínimo, reindexação de pisos constitucionais.

Luke

Quando ele diz que os pisos de saúde e educação seriam indexados pelo arcabouço fiscal, isso significa que cresceriam menos do que crescem agora?

Mimi

Sim, exatamente. Atualmente crescem com o salário mínimo ou por outras fórmulas. O arcabouço fiscal tem um limite de crescimento de gastos. Seria uma redução real do crescimento desses orçamentos.

Mark

E se o governo não fizer nada disso? Qual é o cenário mais pessimista?

Mimi

O texto não desenha um cenário pessimista explícito. Apenas diz que sem essas medidas, o juro real não cai, e sem juro real mais baixo, a dívida não estabiliza mesmo com superávit primário.

Luke

Espera — ele está dizendo que superávit primário de 2% do PIB não é suficiente?

Mimi

Não é suficiente se o juro real não cair. O juro real cai quando o gasto primário cresce mais lentamente do que a economia. Se o gasto continuar acelerado, os juros sobem, e aí o superávit primário não consegue frear a dívida.

Mark

Então qual é a mensagem central?

Mimi

Que o Brasil precisa não apenas de superávit fiscal, mas de uma mudança estrutural em como gasta. Sem isso, estamos em uma trajetória insustentável.

  • Dívida pública crescerá acima de 4% do PIB anuais no próximo quadriênio sem ajuste fiscal adicional, comparado a 2,8% no mandato atual
  • Dívida é 12% do PIB maior que no final de 2022
  • Taxa de desemprego caiu de 8,5% em 2023 para 5,5% em 2025
  • Proposta de ajuste fiscal: 2% do PIB de superávit primário em quatro anos, com um terço por receitas e dois terços por redução de gastos

Dívida pública crescerá acima de 4% do PIB anuais no próximo quadriênio sem esforço fiscal adicional, comparado a 2,8% no mandato atual. Três fatores explicam piora: dívida 12% maior que 2022, custos de refinanciamento elevados e crescimento econômico menor previsto para próximos anos.

Brasil enfrenta deterioração da dinâmica da dívida pública nos próximos quatro anos, com crescimento acelerado devido a dívida maior, mais cara e menor crescimento econômico, exigindo ajuste fiscal de 2% do PIB.

A trajetória da dívida pública brasileira está prestes a mudar de velocidade, e não para melhor. Durante os quatro anos do terceiro mandato do presidente Lula, a dívida cresceu a uma taxa de 2,8% do produto interno bruto a cada ano. Mas se o governo não tomar medidas fiscais além daquelas já previstas no arcabouço atual, esse ritmo acelerará significativamente nos próximos quatro anos, saltando para mais de 4% do PIB anuais. A diferença pode parecer modesta em números, mas representa uma mudança estrutural na dinâmica das contas públicas.

Três forças convergem para piorar esse cenário. A primeira é simples: a dívida acumulada é hoje 12% do PIB maior do que era no final de 2022. A segunda é mais técnica mas igualmente importante. Durante o mandato que termina em 2026, o governo pagou juros relativamente baixos em parte de sua dívida porque havia contraído empréstimos durante a pandemia, quando as taxas de juros globais estavam deprimidas. Agora essa dívida vence e precisa ser refinanciada, mas com juros substancialmente mais altos. A terceira razão é macroeconômica: o crescimento econômico esperado para os próximos quatro anos será menor do que o registrado no período que se encerra agora.

Os economistas cometeram erros significativos ao prever o desempenho da economia entre 2022 e 2025, mas não exatamente da forma que se costuma lembrar. É verdade que subestimaram o crescimento econômico. Menos lembrado é que também erraram completamente na previsão do desemprego. Ninguém imaginava que a taxa de desocupação cairia de 8,5% em 2023 para 5,5% em 2025. Os erros foram sistemáticos, mas a notícia boa e a notícia ruim se entrelaçaram. O crescimento foi maior que o previsto e o desemprego caiu mais do que esperado. Porém, essa aceleração do crescimento não trouxe consigo uma aceleração da produtividade. O país cresceu de forma extensiva, reduzindo a ociosidade dos fatores de produção, não tornando-os mais eficientes.

Para os próximos quatro anos, a taxa de desemprego não descerá de 5,5% para 2,5%. Provavelmente até subirá um pouco. Isso significa que o crescimento econômico será menor, porque não há mais margem para reduzir o desemprego da forma como houve nos anos anteriores. A combinação de dívida maior, mais cara e crescimento menor cria uma dinâmica muito mais adversa do que a que o país enfrentou entre 2023 e 2026.

Diante desse quadro, economistas como Felipe Salto e Josué Pellegrini propuseram um ajuste fiscal que geraria 2% do PIB de superávit primário ao longo de quatro anos. Um terço viria de aumento de receitas e dois terços de redução de gastos. Na frente de receitas, sugerem uma redução linear de 23,5% nos gastos tributários, argumentando que não faz sentido manter, por exemplo, o desconto total de gastos com saúde no Imposto de Renda Pessoa Física. Na frente de gastos, propõem desvinculação do piso dos benefícios previdenciários e de outros benefícios sociais do salário mínimo, além de indexar os pisos constitucionais de gasto em saúde e educação pelo mesmo indexador usado no arcabouço fiscal.

Essas duas medidas são críticas porque atacam o cerne do problema: reduzir a taxa de crescimento dos gastos primários obrigatórios. Sem essa redução, o juro real não cairá. E sem queda do juro real, não há queda da dívida pública, mesmo que o país atinja um superávit primário de 2% do PIB. A taxa básica de juros brasileira é determinada, em última análise, pelo impacto que o setor público tem sobre o equilíbrio entre oferta e demanda na economia. Sempre que o gasto primário cresce mais rápido do que o crescimento potencial da economia, o setor público injeta demanda numa velocidade superior à capacidade produtiva da economia de absorvê-la. Os juros sobem como resposta.

O debate público, porém, segue desconectado dessa realidade. A uma semana de eleições, a conversa girava em torno de escândalos bancários, decisões do Supremo Tribunal Federal e questões religiosas. O conflito distributivo real, aquele que determinará a trajetória das contas públicas nos próximos anos, permanecia invisível. A pergunta que deveria dominar o debate — como o governo pretende ajustar seus gastos e receitas — mal era mencionada.

O crescimento dos últimos anos tem sido extensivo: crescemos mais pois reduzimos a ociosidade
— Análise do texto sobre dinâmica econômica 2023-2026
Sem queda do juro real, não haverá queda da dívida pública, mesmo se o superávit primário for de 2% do PIB
— Argumento central sobre sustentabilidade fiscal
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