Células de cordão umbilical são valiosas contra leucemias e doenças genéticas, mas a chance de uso próprio é mínima: apenas 9 de 26 utilizações em 20 anos foram pelo próprio dono. Bancos públicos, recomendados por médicos, estão inativos desde 2020; nenhuma coleta para uso não aparentado foi realizada em 2024, enquanto bancos privados cobram R$ 4 mil pela coleta e R$ 1 mil anuais.
A promessa e o risco da 'poupança biológica': por que 26 em 165 mil cordões congelados foram usados
Guardar o cordão é aposta, não seguro médico
Por que apenas 26 de 165 mil amostras foram usadas em vinte anos? Parece um fracasso total.
Não é exatamente fracasso — é que a utilidade real é muito mais estreita do que a promessa sugere. A maioria das doenças que o cordão poderia tratar não se beneficia de usar as próprias células do paciente. É um problema biológico, não administrativo.
Então por que as pessoas continuam pagando R$ 4 mil para congelar?
Porque a promessa é poderosa. Você está na sala de parto, emocional, e alguém oferece guardar um "seguro biológico" para a filha. É difícil recusar, mesmo que as chances sejam remotas.
E o sistema público? Por que desapareceu?
Suspendeu em 2020 durante a pandemia e nunca retomou. Agora o Ministério da Saúde diz que o Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea cresceu o suficiente para suprir a demanda. Mas isso deixou um vazio: quem quer doar não encontra onde.
Existe alguma situação em que guardar o cordão realmente faz sentido?
Sim. Se você já tem um filho com uma doença tratável por transplante de medula, guardar o cordão do próximo filho faz sentido médico. Fora disso, é pagar por muitos anos pela possibilidade remota de precisar.
E essas terapias gênicas que mencionam? Podem mudar tudo?
Podem. Se conseguirem corrigir o DNA defeituoso em laboratório antes de devolver as células, o cordão congelado vira matéria-prima valiosa para doenças genéticas. Mas isso ainda está em pesquisa. Por enquanto, é promessa, não realidade.
O Pulso
- De 165 mil amostras coletadas em bancos privados em 20 anos, apenas 26 foram usadas
- Coleta custa R$ 4 mil e manutenção anual é de R$ 1 mil
- Bancos públicos suspensos desde 2020; nenhuma coleta para uso não aparentado em 2024
- Apenas 9 de 26 utilizações foram pelo próprio dono; 17 foram por parentes
Células de cordão umbilical são valiosas contra leucemias e doenças genéticas, mas a chance de uso próprio é mínima: apenas 9 de 26 utilizações em 20 anos foram pelo próprio dono. Bancos públicos, recomendados por médicos, estão inativos desde 2020; nenhuma coleta para uso não aparentado foi realizada em 2024, enquanto bancos privados cobram R$ 4 mil pela coleta e R$ 1 mil anuais.
Atriz Camila Queiroz congelou células do cordão da filha em banco privado, mas dados mostram que de 165 mil amostras guardadas em duas décadas, apenas 26 foram usadas. Especialistas alertam que a utilidade real é limitada e o investimento raramente se justifica.
Camila Queiroz congelou as células do cordão umbilical de sua filha Clara em um banco privado e compartilhou a decisão com seus seguidores no início de julho. O procedimento, descrito como simples e indolor, é de fato tudo isso. Mas os números que cercam essa prática contam uma história bem diferente da promessa que a envolve.
Desde 2003, bancos privados brasileiros coletaram quase 165 mil amostras de sangue de cordão umbilical. Em mais de vinte anos, apenas 26 foram efetivamente utilizadas. Nove delas beneficiaram o próprio dono; dezessete foram usadas por parentes. Em 2024, entre todos os bancos privados do país, uma única bolsa foi para transplante. Ao mesmo tempo, 1.428 famílias cancelaram seus contratos naquele ano, deixando de pagar pela guarda. Desde 2015, foram 9.173 rescisões. A coleta custa em torno de R$ 4 mil, e a manutenção anual fica por volta de R$ 1 mil.
O procedimento em si é rápido. Na sala de parto, após o nascimento, o obstetra pinça o cordão, o separa do bebê e o leva para uma mesa ao lado. Uma equipe de terapia celular aspira 80 mililitros de sangue de uma veia do cordão para uma bolsa e corta cerca de dez centímetros do próprio cordão, guardados à parte. A mãe, muitas vezes, mal percebe o movimento. O material viaja em um contêiner com temperatura controlada, nunca passando pela esteira de raio-X do aeroporto porque a radiação danifica as células. Precisa chegar ao laboratório em até 48 horas.
No laboratório, o sangue é lavado, contado célula a célula e recebe um anticongelante que impede a formação de cristais de gelo. Uma máquina resfria o material um grau por minuto até 120 graus negativos, ponto a partir do qual desce aos tanques de nitrogênio a 196 graus negativos. Ali, sob pressão positiva e dupla barreira contra bactérias, cada torre guarda cerca de quatro mil amostras. São milhares de vidas em pausa, à espera de um futuro que talvez nunca chegue.
As células-tronco do sangue de cordão são as fábricas originais do sangue: multiplicam-se e se transformam em glóbulos vermelhos, brancos e plaquetas. O que as torna valiosas é a juventude. Colhidas no exato momento em que o feto ainda as produz em ritmo intenso, elas se multiplicam melhor do que as células adultas da medula óssea. Por serem imunologicamente imaturas, toleram alguma incompatibilidade entre doador e receptor sem desencadear a rejeição grave que inviabilizaria um transplante convencional. Seu uso comprovado é principal e único: servir de fonte de células para o transplante de medula óssea em leucemias, linfomas, síndromes mielodisplásicas, aplasia de medula, anemias hereditárias como a falciforme e a talassemia, imunodeficiências e alguns erros metabólicos raros.
Mas a promessa implícita na "poupança biológica" esbarra em uma realidade biológica incômoda. Nas leucemias, o próprio cordão traz uma desvantagem: o novo sistema de defesa não reconhece e destrói as células cancerosas que resistiram à quimioterapia, efeito que seria crucial. Nas doenças genéticas como a anemia falciforme, as células do cordão carregam o mesmo defeito e, usadas como estão, não corrigem nada. O transplante precisa vir de um doador saudável, de preferência um irmão compatível. Há ainda o limite prosaico do volume: um cordão rende poucas células, muitas vezes insuficientes para o peso de um adolescente ou de um adulto.
O sistema público, que deveria ser a porta de entrada dessas células, está inerte. A rede BrasilCord, coordenada pelo Instituto Nacional de Câncer, suspendeu as coletas de doação não aparentada em 2020, no início da pandemia de Covid-19, e nunca as retomou. Em 2024, nenhum dos 15 bancos públicos coletou uma única bolsa destinada ao uso não aparentado. Em janeiro de 2025, o Inca comunicou oficialmente à Anvisa a decisão de não abrir novos bancos nem ampliar o acervo existente, sob a justificativa da queda no uso desse tipo de transplante e do elevado custo de manutenção. Meses depois, uma portaria do Ministério da Saúde retirou as referências à BrasilCord do regulamento técnico dos transplantes. O efeito para quem está grávida é direto: a gestante que quisesse doar o cordão do filho a um banco público, para que servisse a qualquer paciente compatível do país, não encontraria onde fazê-lo.
Existe um cenário em que a matemática muda. As terapias gênicas que retiram células do paciente, corrigem em laboratório o trecho defeituoso do DNA com ferramentas como o CRISPR e as devolvem ao corpo já são realidade aprovada para anemia falciforme e beta-talassemia em alguns países. As células do cordão, por serem jovens e vigorosas, seriam matéria-prima ideal para essa engenharia. Mas essa ponte ainda está em pesquisa. Até lá, guardar o cordão é o que os especialistas descrevem como uma aposta, não um seguro.
Citações Notáveis
A chance de utilização é muito pequena, e, para uso próprio, esse investimento não se justifica— Marta Lemos, coordenadora de hemoterapia do A.C.Camargo Cancer Center
Prefiro ver esse esforço direcionado ao banco público, onde o cordão fica disponível para qualquer paciente do SUS que precise dele— Marta Lemos