Na quinta-feira 15 de outubro, o presidente Lula reafirmou sua convicção de que o crescimento econômico nasce da circulação do dinheiro entre o povo — uma intuição que ecoa o princípio keynesiano da demanda efetiva. Essa lógica tem fundamento histórico e teórico, mas carrega uma condição silenciosa: ela só funciona quando há capacidade ociosa à espera de ser ativada. O debate que emerge não é sobre a validade de Keynes, mas sobre se o Brasil de hoje ainda habita o mundo que Keynes descrevia — ou se já o ultrapassou.
A microeconomia de Lula e os limites de Keynes
Crescimento do ar, crescimento da ociosidade
Então Lula está errado em tudo isso?
Não. Ele está descrevendo corretamente como funciona uma economia com desemprego e máquinas paradas. O problema é que essa descrição pode não se aplicar mais ao Brasil de 2026.
Mas como sabemos que chegamos ao ponto de plena ocupação? A inflação pode ter outras causas — câmbio, custos de importação, choques de oferta.
Verdade. Keynes mesmo reconhecia que a estrutura econômica é rígida. Não é só ociosidade ou plena ocupação — há gargalos específicos.
Então qual é o argumento do colunista?
Que quando você tem inflação persistente e juros altos, é sinal de que o gasto público não está mais gerando crescimento, está gerando preços. É o sinal de que mudou a situação.
Mas isso assume que a inflação brasileira vem principalmente do gasto público. E se vier de outras fontes?
Ótima pergunta. O colunista não detalha isso. Ele está fazendo uma analogia com 1937, não uma análise completa das causas da inflação brasileira.
Então Lula deveria parar de gastar?
Não necessariamente. Mas talvez devesse direcionar o gasto para onde há gargalos específicos, não para estímulo geral.
E isso é o que Keynes estava dizendo em 1937 — que a construção perto da capital não resolvia desemprego nas áreas deprimidas. Estrutura rígida.
Então a microeconomia de Lula é verdadeira, mas incompleta.
Exatamente. Funciona em certas circunstâncias. Quando essas circunstâncias mudam, a receita muda também.
O Pulso
- Lula defende publicamente que concentrar riqueza empobrece o país, enquanto distribuí-la gera crescimento — uma visão que orienta decisões de gasto do governo federal.
- A tensão surge porque a inflação persistente e os juros elevados sinalizam que a economia pode ter esgotado sua folga produtiva, tornando o estímulo fiscal um combustível para preços, não para empregos.
- Economistas alertam que o próprio Keynes, em 1937, advertiu que o gasto público perde eficácia quando não há mais ociosidade generalizada — exatamente o cenário que o Brasil parece ter alcançado.
- O governo navega entre a narrativa política do crescimento inclusivo e a realidade macroeconômica de uma economia que pode estar operando perto de sua capacidade máxima.
- O impasse aponta para uma encruzilhada: continuar o estímulo e arriscar mais inflação, ou reconhecer os limites da teoria que guia a política econômica do presidente.
Na quinta-feira 15 de outubro, o presidente Lula reafirmou sua convicção de que o crescimento econômico nasce da circulação do dinheiro entre o povo — uma intuição que ecoa o princípio keynesiano da demanda efetiva. Essa lógica tem fundamento histórico e teórico, mas carrega uma condição silenciosa: ela só funciona quando há capacidade ociosa à espera de ser ativada. O debate que emerge não é sobre a validade de Keynes, mas sobre se o Brasil de hoje ainda habita o mundo que Keynes descrevia — ou se já o ultrapassou.
Na quinta-feira 15 de outubro, em entrevista à Globo, o presidente Lula sintetizou sua filosofia econômica com clareza: o crescimento vem da microeconomia, e microeconomia significa fazer o dinheiro circular nas mãos do povo. Quando a riqueza se concentra em poucos, o Brasil permanece pobre. A parábola é simples — dinheiro na mão de uma pessoa comum gera consumo, que gera pedidos à indústria, que gera empregos, que gera mais consumo. Crescimento nascido da ociosidade.
Essa lógica tem nome e pedigree: é o princípio da demanda efetiva de John Maynard Keynes. Quando há máquinas paradas e trabalhadores desempregados em larga escala, o gasto público pode de fato transformar capacidade ociosa em crescimento real. Muitos economistas brasileiros abraçaram uma versão radical dessa ideia — a de que a ociosidade é o estado permanente de uma economia de mercado, e portanto o estímulo público sempre funciona. O próprio Keynes escreveu coisas que parecem apoiar essa leitura, sugerindo que o objetivo deveria ser eliminar as recessões, não as expansões, mantendo a economia em estado de quase boom contínuo.
Mas Keynes era um pensador mais cauteloso do que seus leitores mais entusiastas. Em janeiro de 1937, escrevendo para o Times de Londres, ele observou que a Inglaterra se aproximava de um ponto em que novo estímulo geral já não traria grande vantagem — a estrutura econômica havia se tornado rígida, e a demanda adicional encontrava recursos já ocupados, não ociosos. Dois meses depois, voltou ao tema com precisão cirúrgica: quando a demanda crescente eleva preços em vez de produção e emprego, isso é inflação, não crescimento. Não havia mais ociosidade para explorar.
A pressão inflacionária persistente no Brasil e os juros elevados que a acompanham sugerem que a economia brasileira se assemelha hoje à Inglaterra de 1937. Os recursos estão sendo plenamente utilizados. O gasto público pode estar gerando preços mais altos em vez de empregos novos. A parábola de Lula continua válida como descrição de como economias com folga produtiva se comportam — mas pode ter deixado de descrever o Brasil de hoje. O Keynes que o presidente conhece ensinou como estimular uma economia adormecida; o Keynes que ele ainda não encontrou ensinou quando parar.
Na quinta-feira 15 de outubro, durante entrevista à Globo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva resumiu sua visão de economia em duas frases diretas: o crescimento vem da microeconomia, e microeconomia significa fazer o dinheiro circular nas mãos do povo. Quando o dinheiro fica concentrado em poucas mãos, argumentou, o Brasil permanece pobre. É uma lógica que o presidente repete há anos — uma parábola simples sobre como o gasto público funciona. Você coloca dinheiro na mão de uma pessoa comum, ela vai à venda e gasta, o dono da venda faz mais pedidos para a indústria, os estoques caem, a indústria contrata trabalhadores que estavam desempregados, as máquinas que estavam paradas começam a funcionar, e a produção sobe. Crescimento do ar, crescimento da ociosidade.
Essa lógica tem um nome na história do pensamento econômico: é o que John Maynard Keynes chamou de princípio da demanda efetiva. Quando há máquinas paradas e trabalhadores desempregados em larga escala, o gasto público ou transferências de renda podem de fato estimular a demanda e gerar crescimento econômico real. A parábola do presidente funciona nessas circunstâncias. Se o governo aumenta o gasto imprimindo papel, não há aumento da dívida pública onerosa — o crescimento vem da capacidade ociosa que estava ali, não utilizada. Muitos economistas brasileiros abraçaram uma leitura radical dessa ideia: que o estado normal de uma economia de mercado é a ociosidade permanente, e portanto o gasto público sempre gera mais crescimento. O próprio Keynes escreveu coisas que parecem apoiar essa visão. Na Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, ele sugeriu que o remédio correto para o ciclo econômico não era eliminar as expansões, mas eliminar as recessões, mantendo a economia permanentemente em um estado de quase boom. Tudo indica que Lula é um economista keynesiano puro-sangue.
Mas Keynes era um autor complexo, e viu algo que muitos de seus leitores brasileiros parecem ter perdido de vista: havia momentos em que a economia atingia a plena ocupação de sua capacidade instalada. Em janeiro de 1937, escrevendo para o Times de Londres, Keynes observou que a Inglaterra estava se aproximando — ou talvez já tivesse alcançado — um ponto em que não havia grande vantagem em aplicar um novo estímulo geral na economia. Enquanto os recursos excedentes estavam amplamente distribuídos entre setores e regiões, não importava muito onde o impulso da demanda crescente era aplicado. Mas havia crescentes evidências de que a estrutura econômica era rígida, e que a atividade de construção perto da capital era menos eficaz do que se poderia esperar para reduzir o desemprego nas áreas deprimidas. Era uma descrição de uma situação em que deixava de haver ociosidade generalizada.
Dois meses depois, em março de 1937, Keynes voltou ao Times com uma observação ainda mais direta. Quando a demanda crescente já não era capaz de elevar significativamente a produção e o emprego, esgotando-se principalmente na elevação dos preços, era propriamente inflação. Nesse ponto, a nova demanda apenas competia com a demanda existente pelo uso de recursos que já estavam sendo plenamente utilizados. Não havia mais ociosidade para explorar. O gasto público não geraria mais crescimento — geraria apenas preços mais altos.
A pressão inflacionária permanente que o Brasil enfrenta, e os juros elevados que a seguem, sugerem que a economia brasileira se parece hoje com a economia inglesa de 1937. A ociosidade generalizada pode ter desaparecido. Os recursos estão sendo plenamente utilizados. O gasto público não está mais gerando crescimento — está gerando inflação. A parábola do presidente ainda funciona como descrição de como uma economia com capacidade ociosa se comporta, mas deixou de descrever a economia brasileira atual. Alguém precisa ensinar esse outro Keynes para Lula: o Keynes que entendia os limites de sua própria teoria.
Citações Notáveis
O que faz a economia crescer é a microeconomia. É fazer o dinheiro rodar na mão do povo.— Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em entrevista à Globo
É quando a demanda crescente já não é capaz de elevar significativamente a produção e o emprego, esgotando-se principalmente na elevação dos preços, que se pode propriamente falar em inflação.— John Maynard Keynes, Times de Londres, março de 1937