Dezessete anos de afeto — uma das relações mais longas de sua vida
Há algo de universal no luto que se instala quando um ser amado parte — mesmo que esse ser seja um cão. Lucélia Santos, após quase dezessete anos de convivência com Asdrubal, enfrenta a morte do animal como se enfrenta qualquer perda profunda: com o corpo, com a memória e com a pergunta silenciosa sobre o que significa amar. O que ela narra não é apenas a história de um cão, mas a condição humana diante da impermanência — aquela fratura entre o instante em que algo existe e o instante seguinte, em que já não existe mais.
- Um diagnóstico de câncer agressivo chegou sem aviso, deixando apenas dias entre a descoberta e a despedida.
- Lucélia passou noites sem dormir ao lado do cão, recorrendo a práticas budistas para suportar o que nenhum ensinamento consegue eliminar por completo: a dor de ver sofrer quem se ama.
- A recusa à eutanásia revelou uma tensão entre o desejo de controle e a aceitação do curso natural da vida — uma escolha que custou caro emocionalmente.
- Com a partida de Asdrubal, desmoronou também a estrutura inteira de uma rotina construída em torno de cuidá-lo, deixando um vazio concreto e imediato.
- O luto abriu caminho para memórias antigas — um cachorro chamado Gordo, uma janela de sobrado, uma despedida vista de longe — revelando que algumas perdas atravessam décadas.
- Dias depois, através de yoga e respiração, a dor começa lentamente a se dissolver, mas o amor que a originou permanece intacto.
Há uma semana, Lucélia Santos perdeu Asdrubal, um cão que viveu quase dezessete anos em sua casa. Ele nasceu ali, filho de uma chau chau chamada Princesa, e durante o longo período de pandemia tornou-se seu melhor amigo e sua principal ocupação diária. Quando o câncer foi descoberto — agressivo, avançado, sem tempo para reação — a veterinária foi direta: não havia muito a fazer.
Os dias seguintes foram de vigília. Lucélia permaneceu ao lado dele, noites sem dormir, aplicando tudo que suas práticas budistas lhe haviam ensinado sobre acompanhar a morte. Ela conhecia os ensinamentos, havia lido o Livro Tibetano do Viver e Morrer, sabia da impermanência. Mas saber e estar ali são coisas diferentes. Recusou a eutanásia, decidida a deixar que as coisas seguissem seu curso. No domingo, dia 15, Asdrubal partiu.
O luto a atingiu com força bruta. Toda a energia investida em anos de cuidado, toda a estrutura de sua rotina, desaguou em impotência. Diante do corpo do cão, ela se descobriu frágil e profundamente humana. No dia seguinte, o vazio era concreto — dezessete anos de afeto, uma das relações mais longas de sua vida, simplesmente ausentes.
A dor a levou de volta à infância, a um cachorro chamado Gordo, que foi dado enquanto ela estava na escola. Ela o viu partir pela janela do sobrado e chorou. Anos depois, usaria essa memória para chorar em cena ao interpretar Escrava Isaura — a técnica da memória emotiva de Stanislavski. O fio afetivo que começou com Gordo atravessou décadas e chegou até Asdrubal. Agora, dias depois, através de yoga e respiração, a trava no peito começa a ceder. E o desejo que fica é simples e imenso: que todos os seres sejam saudáveis, felizes e livres do sofrimento.
Há uma semana, Lucélia Santos perdeu Asdrubal, um cão que viveu quase 17 anos dentro de sua casa. Ele nasceu ali, filho de uma chau chau chamada Princesa que originalmente pertencia ao filho dela, Pedro, mas foi Lucélia quem acabou cuidando. Durante o último ano e meio de pandemia, quando ficar em casa deixou de ser opção e virou necessidade, Asdrubal se tornou seu melhor amigo — e seu trabalho diário.
O cão envelheceu com problemas de saúde que exigiam atenção constante. Lucélia o mantinha próximo, oferecendo cuidados que a mantinham ocupada quando sair de casa era perigoso. Havia uma escolha voluntária naquilo, um retiro compartilhado que ela acredita deveria ter sido recomendado pelos governos desde março de 2020, se houvesse compaixão no país. Então, há uma semana, descobriram o câncer — agressivo, avançado, o tipo que se desenvolve rápido demais para deixar tempo de reação. A veterinária foi clara: não havia muito a fazer.
Os dias que se seguiram foram intensos. Lucélia permaneceu ao lado dele, noites sem dormir, aplicando tudo que sabia de suas práticas budistas — preces, orações, meditação. O budismo a havia preparado para isso, ou pelo menos tentara. Ela conhecia os ensinamentos sobre a morte, havia lido o Livro Tibetano do Viver e Morrer de Sogyal Rinpoche, que treina as pessoas para acompanhar esse momento dramático que todos enfrentaremos. Mas conhecimento teórico é diferente de estar ali, vendo o sofrimento, desejando libertar alguém que se ama de uma dor que você não consegue aliviar. Ela recusou a eutanásia, determinada a deixar que as coisas seguissem seu curso natural.
No domingo à noite, dia 15, Asdrubal partiu. E com ele, algo em Lucélia também se foi. Ela começou a refletir sobre como é possível amar tanto um animal — às vezes, pensou, amamos mais um animal do que um ser humano. Xuxa havia dito isso uma vez para ela. Pensou nas relações kármicas que o budismo descreve, em como a vida é breve e como é estranho e mágico o momento em que algo deixa de existir. Um instante antes, havia. No próximo, não havia mais.
Toda a energia que ela havia investido durante anos, meses, horas — toda a forma como ela havia organizado seu tempo, suas expectativas, seu controle sobre a agenda — desaguou em uma sensação de impotência total. Diante do corpo do seu cão, ela se descobriu tão humana, tão frágil, tão vulnerável. Havia desejado que ele partisse, que fosse liberado do sofrimento, e ainda assim o luto a atingiu com força bruta.
No dia seguinte, ao acordar, o vazio era concreto. Sua vida havia sido estruturada em torno de cuidar dele 24 horas por dia, de estar atenta a qualquer necessidade. Dezessete anos de afeto — uma das relações mais longas e profundas de sua vida. Isso a levou de volta à infância, a um cachorro chamado Gordo, um de cinco filhotes que nasceram na casa de sua mãe. A mãe, traumatizada porque Lucélia trazia todos os cães vadios para casa, foi dando os filhotes um a um. Lucélia pediu, por favor, para que não dessem o Gordo. Mas quando voltou da escola, viu uma mulher no portão levando o cachorro embora. Chorou vendo pela janela do sobrado aquela cena de despedida.
Anos depois, quando interpretava Escrava Isaura, ela usaria essa memória para chorar em cena — era uma técnica que aprendera, a memória emotiva do método Stanislavski. O universo afetivo inteiro que começou com Gordo continuou através de Asdrubal, e agora partiu novamente. Tudo que ela sentia — o imenso amor pela natureza, pelos animais, pela floresta — estava condensado naquele aperto no peito, naquela dor brutal, naquela trava muscular que só agora, dias depois, começava a dissolver através de yoga e respiração. Ela deseja que todos os seres sejam saudáveis e felizes, que todos tenham a oportunidade de se iluminar, que todos se libertem do sofrimento. Todos, sem exceção.
Notable Quotes
Creio que às vezes a gente ama mais um animal do que um ser humano— Lucélia Santos
Fiquei refletindo sobre as relações que nós construímos com os animais nessa vida— Lucélia Santos
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que você acha que o luto por um animal é tão profundo quanto o luto por uma pessoa?
Porque não há hierarquia no afeto. Dezessete anos de presença diária, de cuidado, de companhia — isso cria uma relação que transcende a espécie. Asdrubal estava ali quando ninguém mais podia estar.
Você mencionou que recusou a eutanásia. Como foi tomar essa decisão?
Não era uma decisão racional. Era sobre deixar que ele tivesse seu próprio tempo, sua própria morte. Mesmo sabendo que significava mais sofrimento, para ele e para mim.
A prática budista ajudou?
Preparou minha mente, mas não meu coração. Conhecer os ensinamentos sobre a morte é diferente de estar ali, impotente, vendo alguém que você ama partir.
Você voltou à memória de Gordo. Por que aquela cena ainda te marca?
Porque foi a primeira vez que entendi que amar significa também perder. E porque aquela dor infantil se tornou ferramenta — usei para chorar em cena, para expressar algo verdadeiro.
O que muda agora, sem a rotina de cuidar dele?
Tudo. Minha vida estava estruturada em torno dessa presença. Agora preciso aprender a viver no vazio que ficou, e talvez descobrir que o vazio também é uma forma de amor.