Sharabi foi capturado no kibutz Be'eri em 7 de outubro de 2023 e permaneceu em túneis do Hamas por 491 dias, acorrentado e com acesso limitado a comida e informações. O livro detalha a luta pela sobrevivência psicológica e física entre reféns, incluindo momentos de tensão, divisões entre prisioneiros e pequenas alegrias como compartilhar uma garrafa de refrigerante.
A guerra vista de um túnel: o relato de 491 dias de cativeiro em Gaza
É incrível como quatro pessoas conseguem dividir-se em facções
O que torna esse relato diferente de outros testemunhos de cativeiro que conhecemos?
A precisão. Sharabi não dramatiza. Uma garrafa de refrigerante é realmente uma garrafa de refrigerante — e é tudo o que precisa ser para mostrar o que era aquela vida.
Mas quanto disso ele realmente lembra com clareza depois de 491 dias? A memória sob trauma é complicada.
Verdade. Ele escreve pouco depois da libertação, então há urgência, mas também há distância. O livro não pretende ser um registro perfeito — é uma reconstrução.
E a parte mais difícil de ler?
Provavelmente saber o que o leitor sabe desde o início e Sharabi descobre apenas no final. Aquela assimetria de informação.
Ele diz explicitamente que pensava que poderiam estar mortas? Ou estou inferindo?
Ele admite ter pensado nisso. Mas não podia saber. Essa incerteza foi parte do que o manteve vivo — a possibilidade.
E agora, depois de tudo isso, ele consegue estar no kibutz?
Não. Ele diz que não pretende retomar a vida lá. Está tentando reconstruir em outro lugar.
O livro diz para onde ele foi?
Não. Apenas que não volta ao kibutz. O resto fica em aberto.
The Pulse
- Eli Sharabi foi capturado no kibutz Be'eri em 7 de outubro de 2023
- Permaneceu em cativeiro por 491 dias, acorrentado nos túneis do Hamas
- Sua esposa Lianne e filhas Noiya e Yahel foram mortas no dia do ataque
- Sharabi descobriu a morte delas apenas após sua libertação em fevereiro de 2025
Sharabi foi capturado no kibutz Be'eri em 7 de outubro de 2023 e permaneceu em túneis do Hamas por 491 dias, acorrentado e com acesso limitado a comida e informações. O livro detalha a luta pela sobrevivência psicológica e física entre reféns, incluindo momentos de tensão, divisões entre prisioneiros e pequenas alegrias como compartilhar uma garrafa de refrigerante.
Eli Sharabi relata seus 491 dias como refém do Hamas em Gaza no livro 'Refém', descrevendo a vida nos túneis, o desespero compartilhado com outros prisioneiros e a descoberta tardia da morte de sua família.
Uma garrafa de Fanta laranja deixada para trás pelos captores se torna, num dos momentos de transferência entre esconderijos, um tesouro compartilhado. Eli Sharabi e os outros reféns a escondem, esperam o silêncio da noite, e então dividem aqueles goles de algo doce — um luxo quase inimaginável nas profundezas de um túnel carregado de medo e ansiedade. É nessa precisão de detalhes que o livro "Refém" revela a dimensão real do cativeiro: não na dramatização, mas na textura miúda de 491 dias vividos embaixo da terra.
Sharabi foi arrancado de sua casa no kibutz Be'eri na manhã de 7 de outubro de 2023, durante o ataque liderado pelo Hamas contra Israel. Deixou para trás a mulher Lianne e as filhas Noiya e Yahel. O que o leitor sabe desde as primeiras páginas — que as três foram mortas naquele dia — Sharabi não sabia. Seu livro se desenrola inteiramente dentro desse intervalo de ignorância, entre o que aconteceu no mundo acima e os fragmentos de informação que chegavam até ele: explosões abafadas, comentários dos captores, notícias esparsas e incertas.
Durante a maior parte do cativeiro, seu universo foram os túneis do Hamas. Pouca ventilação. Escuridão quase total. Cheiros que se tornaram insuportáveis. Colchões finos no chão. Os homens permaneciam acorrentados pelas mãos e pelos pés. A comida era principalmente pão pita, ocasionalmente sopa ou macarrão. Quando Sharabi finalmente se viu num espelho, não reconheceu o homem que o olhava de volta.
Quase sempre o mais velho entre os prisioneiros, Sharabi assumiu a responsabilidade de organizar a convivência, acalmar os mais frágeis, impedir que o desespero consumisse o grupo. Nem sempre conseguiu. Os homens discutiam pela divisão da comida, pelo espaço para dormir. Em determinado momento, apenas quatro prisioneiros conseguiram se separar em grupos rivais por um motivo que Sharabi descreve como fútil. "Formamos partidos", escreve. "É incrível como quatro pessoas presas em condições impossíveis ainda assim conseguem dividir-se em facções." Há humor nessa constatação, mas nenhum alívio. Os captores controlavam tudo: a comida, os movimentos, a informação. Obrigavam os reféns a gravar vídeos e ler mensagens destinadas a Israel. Os maus-tratos tinham um limite perverso: era preciso mantê-los vivos porque eram moeda de troca.
O livro foi escrito pouco depois da libertação de Sharabi, em fevereiro de 2025, e carrega a urgência de quem precisa colocar a experiência no papel antes de conseguir deixá-la para trás. A narrativa é bem construída e se lê com a tensão de quem também espera a abertura de uma porta ou uma notícia do lado de fora. Há momentos em que o ritmo diminui, capítulos que parecem mais lentos — é difícil saber quanto disso é um problema da estrutura narrativa e quanto reproduz a própria monotonia do cativeiro, onde um dia de fome, medo e espera começava a se parecer com o seguinte. O ritmo logo volta, porém, e a leitura recupera sua urgência.
Sharabi admite ter pensado que a mulher e as filhas poderiam estar mortas. Mas não podia saber. Precisava sair de Gaza para descobrir. Durante 491 dias, sobreviveu agarrado também a essa possibilidade — a de que ainda estivessem vivas. Quando finalmente foi libertado, em fevereiro de 2025, soube que Lianne, Noiya e Yahel haviam sido assassinadas no 7 de outubro. O leitor de "Refém" conhece essa verdade desde as primeiras páginas. Sharabi precisou sobreviver 491 dias para conhecê-la. Hoje tenta reconstruir uma vida que não pretende retomar no kibutz. No túnel, porém, reconstruir a vida ainda não era uma opção. Era preciso primeiro sobreviver.
Notable Quotes
É algo doce para beber, no fundo do subterrâneo, de um túnel carregado de medo e ansiedade— Eli Sharabi, descrevendo o momento em que compartilharam a garrafa de Fanta
Formamos partidos. É incrível como quatro pessoas presas em condições impossíveis ainda assim conseguem dividir-se em facções— Eli Sharabi, sobre as divisões entre os prisioneiros