De volta da Assembleia Geral da ONU, José Pio Borges, presidente do conselho curador do Cebri, oferece uma leitura que inverte a cartografia convencional do perigo: não são Rússia ou China que mais ameaçam a ordem mundial, mas os próprios Estados Unidos — sequestros, ultimatos e a erosão do multilateralismo como evidências. Num momento em que 14 países latino-americanos aderem ao Escudo das Américas e o G-20 se prepara para um ano de presidência americana, o Brasil escolhe o equilíbrio como estratégia, sustentado por uma lei de reciprocidade que funciona menos como espada e mais como aviso.
'A grande ameaça no mundo são os EUA', diz presidente do Cebri
O Brasil tem saudade da negligência benigna que Trump não oferece
Borges está dizendo que os EUA são a maior ameaça global. Isso não soa como uma posição extrema para um líder de think tank?
Ele não está sendo ideológico. Está apontando ações concretas — o sequestro do presidente venezuelano, as ameaças ao Irã declaradas publicamente na ONU. Para ele, são fatos que falam por si.
Mas "maior ameaça" é uma comparação. Ele está dizendo que Rússia e China não ameaçam? Ou apenas que os EUA ameaçam mais neste momento específico?
Acho que é o segundo. Ele não nega que Rússia e China existem como potências. Mas está argumentando que, em 2026, sob Trump, a ação americana é mais disruptiva.
E quanto ao Escudo das Américas? Por que ele questiona a adesão?
Porque não faz sentido se defender de uma ameaça usando um escudo construído pela própria ameaça. Os países que aderiram são aliados de Trump — estão tentando agradá-lo, não se defender.
Mas ele não diz quantos países aderiram além dos 14 mencionados, ou qual é o tamanho real dessa iniciativa. É um escudo que importa ou é mais simbólico?
Boa pergunta. Ele não detalha. Mas o ponto dele é lógico: se você está ameaçado por A, não se junta a A para se defender.
E a China? Ele parece otimista com o relacionamento Brasil-China.
Sim. A China compra 30% das exportações brasileiras. É um número que cresceu enquanto o comércio com EUA caiu. Para Borges, a China está investindo no relacionamento de forma consistente.
Mas ele está assumindo que a China não vai mudar de postura. E se Pequim decidir usar essa dependência comercial como alavanca política?
É um risco que ele não aborda. Ele está falando do presente — da realidade atual das trocas comerciais.
O G-20 sob presidência americana vai ser um fracasso, segundo ele?
Ele diz que será um hiato. Nada de relevante sairá. Trump não acredita em multilateralismo, prefere negociar bilateralmente.
Mas ele também diz que o Brasil apelou à OMC e que isso é importante mesmo sem resultado prático. Não há uma contradição? Se o multilateralismo está morto, por que apelar?
Não, porque ele não diz que está morto. Diz que está paralisado. Há diferença. Apelar é um ato de fé de que pode ser revivido.
O Pulso
- A declaração de que os EUA — e não Rússia ou China — representam a maior ameaça global rompe com o consenso ocidental e recoloca o debate sobre segurança hemisférica em bases radicalmente diferentes.
- O Escudo das Américas, aderido por 14 países latino-americanos, perde coerência quando o suposto protetor é apontado como a principal fonte de risco — deixando exposta a lógica de agradar Washington em troca de uma proteção questionável.
- A China avança silenciosamente: compra 30% de tudo que o Brasil exporta, dobra os americanos no comércio bilateral e apresenta ao mundo uma postura de aceitação da multipolaridade que contrasta com a resistência de Washington.
- A presidência americana do G-20 em 2026 é vista como um hiato deliberado — o governo Trump prefere negociar país a país, isolando parceiros e extraindo concessões, enquanto o Reino Unido já se prepara para reativar o grupo em 2027.
- O Brasil responde com medida: recorreu à OMC, aprovou lei de reciprocidade e evita provocações — guardando munição para um eventual endurecimento americano, enquanto revisita com nostalgia a antiga negligência benigna de Washington.
De volta da Assembleia Geral da ONU, José Pio Borges, presidente do conselho curador do Cebri, oferece uma leitura que inverte a cartografia convencional do perigo: não são Rússia ou China que mais ameaçam a ordem mundial, mas os próprios Estados Unidos — sequestros, ultimatos e a erosão do multilateralismo como evidências. Num momento em que 14 países latino-americanos aderem ao Escudo das Américas e o G-20 se prepara para um ano de presidência americana, o Brasil escolhe o equilíbrio como estratégia, sustentado por uma lei de reciprocidade que funciona menos como espada e mais como aviso.
José Pio Borges voltou de Nova York — uma semana entre eventos climáticos e a Assembleia Geral da ONU — com uma conclusão que desafia o senso comum: a maior ameaça ao mundo não vem de Moscou nem de Pequim, mas de Washington. A provocação ganhou forma quando ele foi questionado sobre a adesão de 14 países latino-americanos ao Escudo das Américas. Escudo contra quem, pergunta Borges. Os signatários são aliados de Trump e buscam agradá-lo, mas a lógica desmorona quando o suposto protetor sequestra presidentes, ameaça Cuba e declara na plenária da ONU que aniquilaria o Irã. O Brasil, na sua avaliação, acertou em ficar de fora.
No campo comercial, a China se move com consistência. As exportações brasileiras para Pequim superam em mais do dobro as destinadas aos EUA, e a China absorve 30% de tudo que o Brasil vende ao exterior — número que cresceu especialmente em carnes. Desde o primeiro governo Trump, os americanos perderam espaço e os chineses avançaram. Borges destaca ainda uma diferença de postura: Pequim aceita a multipolaridade, enquanto Washington ainda luta contra ela.
O G-20 sob presidência americana em 2026 será, na visão de Borges, um hiato. O governo Trump não acredita em multilateralismo — prefere negociar país a país, isolando parceiros e extraindo vantagens. As exigências ao Canadá chegaram ao ponto de humilhação. O Reino Unido, que presidirá o grupo em 2027, já se mobiliza para reativá-lo, reconhecendo o vazio que se aproxima.
A resposta brasileira tem sido equilibrada. A lei de reciprocidade funciona como aviso, não como provocação. O tarifaço americano afeta apenas uma fração das exportações brasileiras, e 60% dos produtos seguem isentos. Borges nota uma ironia: o Brasil costumava se queixar da negligência benigna americana. Agora sente falta dela. Toda atenção de Trump tende para o lado negativo. O Brasil recorreu à OMC — um gesto simbólico, mas deliberado: não para obter resultado imediato, mas para sinalizar que as instituições multilaterais não estão mortas, apenas dormindo, e que vale a pena lutar pela sua reforma.
José Pio Borges, presidente do conselho curador do Cebri, voltou de uma semana em Nova York — passada entre eventos climáticos e a Assembleia Geral da ONU — com uma avaliação que desafia a narrativa convencional sobre as ameaças globais. Não são a Rússia ou a China que representam o maior risco ao mundo, afirmou. São os Estados Unidos.
A provocação surgiu quando Borges foi questionado sobre a adesão de 14 países latino-americanos ao Escudo das Américas, uma iniciativa que ele vê como problemática em sua própria concepção. Escudo contra quem, pergunta ele. Os países que aderiram são aliados da administração Trump e buscam agradá-la, mas a lógica da defesa coletiva desmorona quando o suposto protetor é aquele que mais ameaça. Borges aponta fatos concretos: o sequestro do presidente da Venezuela, as ameaças contra Cuba, a declaração de Trump na plenária da ONU de que aniquilaria o Irã caso não chegasse a um acordo. Nenhum desses eventos, em sua visão, vem de Moscou ou Pequim. O Brasil, portanto, tem razão em ficar fora do escudo. O que acontecerá após as próximas eleições, num eventual governo Bolsonaro, permanece incerto.
No tabuleiro das relações comerciais, a China tem se movido com consistência. Exportações brasileiras para Pequim superam em mais do dobro aquelas destinadas aos Estados Unidos. A China compra 30% de tudo que o Brasil vende ao exterior — um número que cresceu especialmente em carnes. Desde o primeiro governo Trump, os americanos perderam espaço no comércio bilateral, cedendo terreno aos chineses. Borges não acredita que Pequim abandone seus parceiros. Além disso, a China apresenta ao mundo uma postura diferente da americana: aceita a multipolaridade, enquanto Washington ainda luta contra ela.
O G-20 sob presidência americana em 2026 será, na avaliação de Borges, um hiato. Nada de relevante sairá dali. O Cebri acompanha essas discussões desde a presidência brasileira do grupo, quando coordenou o T-20 — uma iniciativa que reuniu 117 think tanks e organizações da sociedade civil. Agora, tentando contato com organizações americanas como o Atlantic Council, CSIS e Council on Foreign Relations, a impressão é de uma atuação meramente burocrática. O governo Trump não acredita em iniciativas multilaterais. Prefere negociar país a país, extraindo vantagens de cada um isoladamente. As exigências ao Canadá, por exemplo, chegaram ao ponto de humilhação — como a proibição do uso da língua francesa. A Grã-Bretanha, que presidirá o G-20 em 2027, já começou a se mobilizar para reativar o grupo, reconhecendo que ele não teve atuação relevante sob comando americano.
Quanto à resposta brasileira, Borges vê equilíbrio. O Brasil passou uma lei de reciprocidade que funciona como respaldo — um aviso de que pode reagir de forma mais agressiva se necessário. Mas a reação até agora tem sido medida, não provocativa. O tarifaço americano afeta apenas uma pequena parcela das exportações brasileiras; 60% dos produtos estão isentos. Borges nota uma ironia: o Brasil costumava se queixar de negligência benigna por parte dos EUA. Agora tem saudade disso. Toda atenção que Trump dedica ao Brasil tende para o lado negativo. Não é conveniente provocar demais neste momento, embora o governo tenha munição para fazê-lo se a administração americana intensificar suas ações.
No plano multilateral, o Brasil apelou à OMC contra as tarifas americanas — um gesto que Borges considera importante mesmo que não tenha resultado prático imediato. A China também apelou. Embora os órgãos de apelação da OMC estejam paralisados, recorrer a essas instituições sinaliza que elas não estão mortas, apenas dormindo. O que interessa não é sua morte, mas sua reforma. É um ato de fé na possibilidade de que o multilateralismo, ainda que abalado, possa ser reconstruído.
Citações Notáveis
Hoje a grande ameaça que existe no mundo não é a Rússia ou a China: são os Estados Unidos— José Pio Borges, presidente do conselho curador do Cebri
O Brasil tem saudade desse benign neglect, porque toda atenção que Trump dá pende para o lado negativo— José Pio Borges