A Colômbia de Gaitán renasce com Petro e muda sua política externa

Décadas de violência política, assassinatos de líderes camponeses e guerra civil entre partidos deixaram cicatrizes profundas na sociedade colombiana.
Primeiro presidente democrático comprometido com paz após oito décadas de violência
Gustavo Petro vence eleição histórica na Colômbia, rompendo ciclo de guerra civil e domínio oligárquico.

Petro vence eleição histórica com vice-presidenta negra premiada, superando fake news e polarização política na Colômbia. País encerra mais de oito décadas de violência, guerra civil e domínio de grupos paramilitares desde assassinato de Gaitán em 1948.

  • Gustavo Petro eleito primeiro presidente democrático da Colômbia em 2022
  • Vice-presidenta negra premiada internacionalmente por trabalho ambiental
  • Colômbia encerra mais de oito décadas de violência política desde assassinato de Gaitán em 1948
  • Petro promete integração ao bloco latino-americano de política externa independente dos EUA

Gustavo Petro é eleito primeiro presidente democrático da Colômbia comprometido com paz e fim do neoliberalismo, derrotando a direita oligárquica e abrindo caminho para política externa independente dos EUA.

A Colômbia acordou em junho de 2022 para uma possibilidade que parecia improvável semanas antes. Gustavo Petro havia vencido a eleição presidencial, tornando-se o primeiro presidente democrático do país comprometido explicitamente com a paz e com o rompimento com as políticas neoliberais que marcaram décadas anteriores. A vitória era notável não apenas pelo que representava, mas pelo que havia sido superado para chegar até ali.

O país carregava consigo um peso histórico quase insuportável. Desde o assassinato de Jorge Eliecer Gaitán em 1948, a Colômbia havia sido sinônimo de violência política. Aquele crime desencadeou o Bogotaço, reações populares massivas que marcaram o início de um período conhecido simplesmente como 'A Violência', que se estendeu de 1946 a 1958 e além. Durante esses anos, uma guerra civil verdadeira dividiu o país entre os partidos Conservador e Liberal, fragmentando famílias inteiras conforme suas lealdades políticas. Mas esse período nunca terminou realmente. Décadas depois, mesmo com acordos de paz entre o governo e guerrilhas como as Farc, o ELN e o M-19, a implementação permanecia incompleta. Líderes camponeses continuavam sendo assassinados. As forças paramilitares nunca se desarmaram completamente e seguiam operando contra movimentos populares.

A eleição de 2022 representava uma ruptura com essa lógica. O uribismo — a continuação dos governos oligárquicos e violentos da direita colombiana — havia sido derrotado. Seu candidato não conseguiu nem chegar ao segundo turno. Seu lugar foi tomado por um prefeito de uma pequena cidade que tentou se posicionar como alternativa à polarização entre direita e esquerda, mas que acabou canalizando os votos da direita, agrupados defensivamente contra Petro.

O segundo turno foi contaminado por desinformação em larga escala. Circularam resultados eleitorais falsos, supostamente antecipados, com dados de todas as províncias do país mostrando uma vantagem apertada para o candidato de direita. Apesar disso, Petro venceu. Sua chapa trazia como vice-presidenta uma mulher negra, líder popular reconhecida internacionalmente por seu trabalho em meio ambiente. A combinação era simbolicamente poderosa: não apenas a derrota da direita oligárquica comprometida com paramilitares e neoliberalismo, mas a ascensão de uma liderança que representava setores historicamente marginalizados.

A tarefa imediata de Petro era clara e monumental: impor a paz de forma definitiva no país. Isso significava desmantelar a ação dos grupos paramilitares e criar as condições para uma convivência democrática que a Colômbia praticamente nunca havia experimentado — pelo menos não nos mais de oito décadas desde o final dos anos 1940. Mas a paz, embora fundamental, era apenas o ponto de partida. Petro havia prometido reformas estruturais que modernizassem e democratizassem a sociedade, promovendo direitos para a população em massa através de legislação e políticas sociais robustas. Sua política econômica seria explicitamente anti-neoliberal, buscando reverter as desigualdades que haviam se aprofundado sob aquele modelo.

No plano internacional, a mudança era igualmente significativa. A Colômbia de Petro se integraria aos processos de integração regional latino-americana, alinhando-se ao bloco crescente de países que afirmavam políticas externas soberanas e independentes em relação aos Estados Unidos. Isso significava diversificar as relações internacionais, intensificando intercâmbios não apenas com vizinhos regionais, mas com a Ásia, a África e a Europa. A Colômbia deixaria de ser um satélite automático da política norte-americana.

Com essa eleição, a Colômbia se somava a um bloco que já incluía Argentina, México, Bolívia, Chile, Honduras, Peru, Venezuela, Nicarágua e Cuba — países que haviam escolhido caminhos próprios. Faltava ainda a eleição mais importante do continente, marcada para outubro no Brasil, que poderia consolidar ou desafiar essa tendência regional de rejeição ao modelo anterior.

A Colômbia vai se somar aos processos de integração regional, aos países que afirmam políticas externas independentes em relação aos EUA
— Emir Sader, comentarista
The Hearth Conversation Another angle on the story
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Por que a eleição de Petro é descrita como tão historicamente significativa? Não é apenas mais uma mudança de governo?

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Porque a Colômbia estava presa a um ciclo de violência política que durava mais de oito décadas. Desde 1948, o país conhecia apenas guerra civil, paramilitarismo e governos oligárquicos. Petro é o primeiro presidente que chega ao poder com um mandato explícito para romper com tudo isso.

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E quanto à desinformação que circulou durante a campanha? Como Petro conseguiu vencer apesar disso?

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A fake news foi massiva — resultados eleitorais falsos, dados de todas as províncias mostrando vantagem para o outro lado. Mas a mobilização popular foi maior. As pessoas votaram pela mudança, e nenhuma mentira conseguiu conter isso.

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Qual é o significado da vice-presidenta negra na chapa?

Model

Ela é uma líder popular premiada internacionalmente por trabalho ambiental. Sua presença não é apenas simbólica — representa a inclusão de setores que foram historicamente excluídos do poder na Colômbia. É parte da transformação estrutural que Petro promete.

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A paz será fácil de implementar?

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Não. Os acordos anteriores com as Farc, ELN e M-19 nunca foram completamente implementados. Líderes camponeses continuam sendo assassinados. Os paramilitares nunca se desarmaram. Petro terá que impor a paz de forma definitiva, o que é uma tarefa colossal.

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E a política externa? Por que isso importa tanto?

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Porque a Colômbia sempre foi alinhada incondicionalmente aos Estados Unidos. Petro promete diversificar as relações, integrando-se ao bloco latino-americano de países com políticas soberanas. Isso muda a posição geopolítica da Colômbia na região.

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Qual é o próximo passo crítico?

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As reformas estruturais — modernizar a economia, implementar políticas sociais, superar o neoliberalismo. E consolidar a paz. Se conseguir fazer isso, a Colômbia terá finalmente a chance de ser um país democrático de verdade.

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