Num momento em que o mundo negocia um tratado global sobre plásticos no Canadá, um estudo publicado na Science Advances oferece uma verdade matemática difícil de ignorar: cada ponto percentual de aumento na produção de plástico corresponde a um ponto percentual a mais de poluição no ambiente. Cinquenta e seis empresas — lideradas pela Coca-Cola, PepsiCo e Nestlé — são responsáveis por mais de metade da poluição plástica rastreável a uma marca, documentada por mais de 200 mil voluntários em 84 países ao longo de cinco anos. A ciência desloca o peso da responsabilidade dos indivíduos para as cor
56 empresas são responsáveis por mais de metade da poluição por plástico global
Quanto mais plástico é produzido, mais plástico é encontrado no ambiente
Porque é que este estudo é diferente de tudo o que já sabíamos sobre plástico?
Porque quantifica algo que era intuitivo mas nunca tinha sido provado de forma tão clara. A relação 1:1 entre produção e poluição é reveladora. Não é uma questão de como gerimos os resíduos. É uma questão de quanto produzimos.
Mas as empresas diriam que não são responsáveis pelo que as pessoas fazem com os seus produtos depois de os comprar.
É verdade que o consumidor tem um papel. Mas este estudo mostra que o padrão é global, em 84 países diferentes, com sistemas de gestão de resíduos completamente diferentes. A constante é a produção. Quando a Coca-Cola produz mais garrafas, mais garrafas aparecem no lixo em todo o mundo.
Porque é que a reciclagem não resolve isto?
Porque a reciclagem é um sistema de fim de vida. Trata do que já foi produzido. Mas se continuamos a produzir mais plástico todos os anos, a reciclagem nunca consegue acompanhar. É como tentar esvaziar uma banheira enquanto a torneira está aberta.
O que é que as empresas poderiam fazer amanhã?
Começar a desenhar produtos sem plástico ou com menos plástico. Investir em embalagens reutilizáveis. Parar de produzir itens de utilização única que não são essenciais. Não é impossível. É uma escolha de negócio.
E o tratado global? Pode forçar isto?
Se for ambicioso, sim. Mas há países que produzem plástico e petroquímicos que se opõem a restrições na produção. Querem que o tratado se centre apenas em gerir melhor os resíduos. Este estudo é munição para os países que defendem que o tratado tem de ir à raiz — a produção.
Qual é o risco se o tratado não for forte?
Que continuamos a produzir mais plástico todos os anos, e a poluição continua a aumentar na mesma proporção. Os voluntários continuam a encontrar garrafas de Coca-Cola em praias de todo o mundo. Nada muda.
El Pulso
- A correlação 1:1 entre produção e poluição elimina qualquer margem para a indústria argumentar que reciclagem ou gestão de resíduos são respostas suficientes.
- Apenas cinco empresas — Coca-Cola, PepsiCo, Nestlé, Danone e Altria/Philip Morris — respondem por um quarto de todo o plástico de marca encontrado no planeta, concentrando a crise num punhado de decisões corporativas.
- No Canadá, as negociações do tratado global enfrentam a resistência de grandes produtores de petroquímicos como a Arábia Saudita, o Irão e a China, que querem limitar o acordo à gestão de resíduos e não à redução da produção.
- Mais de 60 países, agrupados na Coligação de Alta Ambição, pressionam por um pacto que regule a produção, exija transparência e controle os químicos utilizados nas embalagens.
- Mesmo com dados robustos — 1576 auditorias em 84 países — 52% do plástico encontrado não tem marca identificável, revelando que a escala real da responsabilidade corporativa ainda está subavaliada.
Num momento em que o mundo negocia um tratado global sobre plásticos no Canadá, um estudo publicado na Science Advances oferece uma verdade matemática difícil de ignorar: cada ponto percentual de aumento na produção de plástico corresponde a um ponto percentual a mais de poluição no ambiente. Cinquenta e seis empresas — lideradas pela Coca-Cola, PepsiCo e Nestlé — são responsáveis por mais de metade da poluição plástica rastreável a uma marca, documentada por mais de 200 mil voluntários em 84 países ao longo de cinco anos. A ciência desloca o peso da responsabilidade dos indivíduos para as corporações, e chega num instante em que a humanidade ainda debate se quer, de facto, travar o problema na sua origem.
Um novo estudo publicado na Science Advances estabelece uma equação incómoda: cada aumento de 1% na produção de plástico resulta em 1% mais poluição no ambiente. A relação é direta, proporcional e, segundo os investigadores, não deixa espaço para soluções que não passem pela redução do que é produzido.
A investigação baseou-se em mais de 1500 limpezas de lixo realizadas em 84 países — incluindo Portugal — com a participação de mais de 200 mil voluntários ao longo de cinco anos. Os dados apontam 56 empresas globais como responsáveis por mais de metade da poluição plástica rastreável a uma marca. A Coca-Cola lidera com 11% dos resíduos identificados; PepsiCo, Nestlé, Danone e Altria/Philip Morris completam um grupo de cinco que, sozinho, responde por um quarto de todo o plástico de marca encontrado no planeta. O padrão é claro: são empresas de alimentos, bebidas e tabaco — os gigantes do consumo rápido e das embalagens descartáveis.
A autora Sybil Bullock sublinha que a responsabilidade não recai sobre os consumidores, mas sobre as empresas que escolhem produzir tanto plástico. Em Portugal, marcas como Unilever, Super Bock e Luso figuram entre as mais registadas, ainda que em menor escala. Um dado preocupante: 52% de todo o plástico encontrado não tem marca visível, degradado pelo sol, água e tempo — o que leva os investigadores a exigir normas internacionais de marcação e uma base de dados global de transparência corporativa.
O estudo chega numa semana decisiva: líderes e cientistas reúnem-se no Canadá para a quarta ronda de negociações de um tratado global sobre plásticos, potencialmente tão histórico quanto o Acordo de Paris. O impasse é profundo — produtores petroquímicos como a Arábia Saudita e a China resistem a qualquer restrição na fase de produção, enquanto mais de 60 países da Coligação de Alta Ambição defendem um pacto que vá à raiz do problema. A ciência de Bullock é agora uma ferramenta nessa batalha: prova que gerir resíduos sem travar a produção é, matematicamente, insuficiente.
Um estudo publicado esta semana na revista Science Advances trouxe números que confirmam o que muitos já suspeitavam: quanto mais plástico as empresas produzem, mais plástico acaba no ambiente. A relação é direta e proporcional — cada aumento de 1% na produção corresponde a um aumento de 1% na poluição. Não é uma coincidência. É matemática.
Os investigadores analisaram resíduos recolhidos em mais de 1500 limpezas de lixo espalhadas por 84 países, incluindo Portugal. Mais de 200 mil voluntários participaram nesta auditoria global ao longo de cinco anos, documentando cada embalagem, cada garrafa, cada pedaço de plástico com marca que encontravam. Os dados são claros: 56 empresas globais são responsáveis por mais de metade de toda a poluição plástica que conseguem rastrear até uma marca. A Coca-Cola lidera sozinha com 11% dos resíduos identificados. A PepsiCo vem depois com 5%, seguida pela Nestlé e Danone com 3% cada uma, e a Altria/Philip Morris International com 2%. Apenas estas cinco empresas responderam por um quarto de todo o plástico de marca encontrado no planeta.
O padrão é revelador: as empresas responsáveis produzem alimentos, bebidas ou tabaco. São os gigantes do consumo rápido, aqueles cujos produtos chegam a bilhões de pessoas todos os dias em embalagens descartáveis. Sybil Bullock, uma das autoras do estudo, sublinha que estas empresas contribuem de forma desproporcionada para a crise. Não é porque vivemos numa sociedade que consome muito. É porque estas 56 empresas escolhem produzir muito plástico. A responsabilidade, diz Bullock, não recai sobre os indivíduos. Recai sobre elas.
Em Portugal, os voluntários encontraram centenas de resíduos plásticos. A Unilever, Super Bock, Fini, Tetra Pak, Luso e Penacova aparecem entre as marcas mais registadas, embora em números menores do que noutros países. Mas há um detalhe importante: 52% de todo o plástico encontrado não tem marca visível. A degradação pela água, sol e ar, o tempo que passa no ambiente, a qualidade da tinta — tudo isto faz desaparecer a identidade do produto. Por isso os investigadores pedem mais transparência. Querem uma base de dados internacional onde as empresas sejam obrigadas a comunicar os seus produtos, embalagens e marcas. Querem normas internacionais para marcar as embalagens de forma que possam ser identificadas mesmo depois de degradadas.
O que torna este estudo particularmente poderoso é a correlação 1:1. Bullock confessa que a equipa não esperava uma relação tão direta. Significa que quando uma empresa dependente de plástico aumenta as suas operações, contribui diretamente com mais resíduos para o ambiente. Não há forma de contornar isto com reciclagem ou gestão de resíduos. A solução tem de vir da produção.
Os autores são claros nas suas recomendações: as empresas precisam de reduzir o plástico nos seus produtos e evitar alternativas que apenas transferem o problema. É preciso eliminar gradualmente os produtos de utilização única que não são essenciais, desenhar produtos seguros e sustentáveis que reduzam a procura global, aumentar a possibilidade de reutilização e reparação. Bullock rejeita as falsas soluções — queimar plástico, reciclagem química — e insiste que o foco tem de ser na redução da produção.
Este estudo chega num momento crítico. Esta semana, líderes globais, cientistas e organizações reúnem-se no Canadá para a quarta ronda de negociações de um tratado global sobre plásticos. O objetivo é criar o primeiro pacto internacional para controlar a poluição dos plásticos, algo que poderia ser tão significativo como o Acordo de Paris de 2015. Mas há obstáculos. Produtores de plástico e petroquímicos — Arábia Saudita, Irão, China — opõem-se a restrições na fase de produção. Querem que o tratado se centre apenas no controlo dos resíduos, não na redução do que é produzido. Do outro lado, mais de 60 países, incluindo EUA, Japão, Austrália, México e Emirados Árabes Unidos, formam a Coligação de Alta Ambição e defendem um tratado forte que aborde a produção, exija transparência e controlo dos químicos utilizados. As negociações desta semana têm o desafio de encontrar consenso entre estas visões opostas. O estudo de Bullock e da sua equipa é uma ferramenta poderosa nessa negociação — prova científica de que reduzir a produção é a única forma real de travar a poluição.
Citas Notables
O ónus para tomar medidas decisivas recai sobre estas 56 empresas globais, não sobre os indivíduos— Lisa Erdle, diretora de Ciência e Inovação do The 5 Gyres Institute
A ciência não podia ser mais clara: reduzir a produção de plástico é essencial para travar a poluição por plásticos— Sybil Bullock, co-autora do estudo e diretora de campanha do Break Free From Plastic