Cirurgia bariátrica segue essencial apesar do avanço das canetas emagrecedoras

Milhares de brasileiros aguardam cirurgia bariátrica no SUS com demora no acesso; crescimento da obesidade afeta saúde de adultos brasileiros.
Medicamentos e cirurgia, em muitos casos, devem ser complementares
O presidente da SBCBM refuta a ideia de que as canetas emagrecedoras tornaram a cirurgia bariátrica obsoleta.

No Brasil, onde a obesidade cresceu 118% em menos de duas décadas, uma nova geração de medicamentos emagrecedores trouxe esperança — mas também uma narrativa perigosa: a de que a cirurgia bariátrica se tornou obsoleta. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica alerta que essa crença, amplificada pelas redes sociais, ignora a complexidade da doença e os limites reais dos fármacos. Enquanto o debate se polariza, milhares de pacientes aguardam na fila do SUS por um procedimento que, para muitos, ainda é o único caminho consistente.

  • A chegada dos análogos de GLP-1 criou a ilusão de que a cirurgia bariátrica é coisa do passado — e essa crença está mudando decisões médicas de forma preocupante.
  • Em 2024, os procedimentos bariátricos caíram 18%, enquanto o uso clandestino de medicamentos emagrecedores sem prescrição médica cresce sem controle.
  • Os medicamentos funcionam, mas têm limites sérios: custo proibitivo, resultados que desaparecem quando o uso é interrompido e eficácia variável entre pacientes.
  • Milhares de brasileiros aguardam cirurgia no SUS enquanto a doença avança — e o sistema de saúde enfrenta descontrole tanto nas filas quanto no rastreamento do uso irregular de fármacos.
  • A Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica defende que medicamento e cirurgia são complementares, não rivais, e que o tratamento precisa ser individualizado, não ditado por tendências digitais.

As canetas emagrecedoras mudaram a conversa sobre obesidade no Brasil. Nas redes sociais e nos consultórios, instalou-se a ideia de que os novos medicamentos — especialmente os análogos de GLP-1 — tornaram a cirurgia bariátrica desnecessária. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica discorda com firmeza. Não porque os medicamentos não funcionem, mas porque essa interpretação é equivocada e já está produzindo consequências visíveis.

O presidente da entidade, Dr. Juliano Canavarros, é direto: a narrativa está errada. A obesidade é uma doença complexa, cada paciente é diferente, e em muitos casos medicamento e cirurgia são complementares, não excludentes. O problema é que os fármacos têm limitações que raramente aparecem no debate público: custo proibitivo para a maioria dos brasileiros, resultados dependentes do uso contínuo e eficácia variável. Muitos pacientes abandonam tratamentos tradicionais acreditando que as medicações resolverão a obesidade de forma definitiva — e essa crença está gerando problemas reais.

Há ainda o crescimento do uso clandestino: medicamentos adquiridos sem prescrição, importados sem controle, usados sem acompanhamento. A automedicação atrasa diagnósticos e tratamentos adequados. Enquanto isso, os números da cirurgia caem — 18% em 2024 — e milhares de brasileiros continuam na fila do SUS esperando por um procedimento que, para muitos, segue sendo o único tratamento com resultados consistentes a longo prazo disponível na rede pública.

O pano de fundo é grave: dados do Ministério da Saúde mostram que a obesidade entre adultos brasileiros cresceu 118% entre 2006 e 2024, acompanhada de aumento nos casos de diabetes, hipertensão e excesso de peso. Enquanto o debate nas redes se polariza entre medicamento ou cirurgia, a população fica mais pesada e mais doente. Para Canavarros, a caneta emagrecedora é um avanço real — mas não é a solução única, e tratar o tema como tal tem um custo humano que os números já começam a revelar.

As canetas emagrecedoras chegaram e mudaram a conversa. Nas redes sociais, nos consultórios, nas mesas de bar — de repente, todos falavam como se a cirurgia bariátrica tivesse se tornado obsoleta, um procedimento do passado que os novos medicamentos, especialmente os análogos de GLP-1, finalmente tornavam desnecessário. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica vê isso com preocupação. Não porque os medicamentos não funcionem. Funcionam. Mas porque essa interpretação é equivocada, e as consequências estão começando a aparecer nos números.

O presidente da entidade, Dr. Juliano Canavarros, é direto: existe uma narrativa errada instalada nos consultórios e nas redes sociais. A ideia de que os análogos de GLP-1 e outros fármacos tornaram a cirurgia bariátrica desnecessária não corresponde à realidade clínica. A obesidade é uma doença complexa. Cada paciente é diferente. Em muitos casos, medicamentos e cirurgia não são excludentes — são complementares. O tratamento precisa ser individualizado, não padronizado por tendência de rede social.

Mas os medicamentos têm limitações que ninguém está falando. São extraordinários, sim, mas ainda não são democráticos. O custo é proibitivo para a maioria dos brasileiros. E funcionam enquanto a pessoa está usando. Quando a pessoa para de usar, os resultados tendem a desaparecer. Muitos pacientes estão abandonando tratamentos tradicionais acreditando que as medicações resolverão definitivamente a obesidade sem necessidade de acompanhamento contínuo. Essa crença está gerando problemas reais.

Há outro problema que preocupa ainda mais os especialistas: o crescimento do uso clandestino. Medicamentos adquiridos sem prescrição, vindos de outros países, usados sem qualquer acompanhamento médico. A automedicação traz riscos importantes à saúde e pode atrasar o diagnóstico e tratamento adequado de obesidade e das doenças que a acompanham. Não há dados precisos sobre as filas para cirurgia no país. Há descontrole no que se refere ao uso de medicamentos clandestinos. A doença avança enquanto o sistema fica confuso.

Os números da cirurgia bariátrica estão caindo. Em 2024, houve queda de 18% em relação ao ano anterior. Embora a SBCBM não tenha estudado a causalidade com rigor, a preocupação é clara: muitos pacientes estão optando por terapias não cirúrgicas sem compreender totalmente todas as opções disponíveis. Enquanto isso, milhares de brasileiros aguardam pelo procedimento no Sistema Único de Saúde, enfrentando demora no acesso ao tratamento especializado. A fila existe. O tempo passa. A doença avança.

E a doença realmente está avançando. Dados do Ministério da Saúde mostram crescimento expressivo da obesidade entre adultos brasileiros nas últimas décadas. A pesquisa Vigitel 2025 revela que o número de adultos com obesidade cresceu 118% entre 2006 e 2024. No mesmo período, também aumentaram os casos de diabetes, hipertensão e excesso de peso. Enquanto o debate sobre qual tratamento é melhor ocupa as redes sociais, a população fica mais pesada, mais doente.

Para Canavarros, a conclusão é inevitável: a cirurgia bariátrica é hoje o único tratamento efetivamente disponível para obesidade dentro da rede pública de saúde e o único capaz de apresentar resultados consistentes a longo prazo. Os benefícios vão muito além da perda de peso. Incluem impacto direto na redução de doenças associadas e até nos custos do sistema de saúde. A caneta emagrecedora é um avanço. Mas não é a solução única. E enquanto a conversa fica polarizada entre medicamento ou cirurgia, os pacientes que precisam de cirurgia continuam esperando.

Existe uma narrativa errada que se instalou nos consultórios e nas redes sociais de que a cirurgia bariátrica perdeu sua vez. Isso não é verdade.
— Dr. Juliano Canavarros, presidente da SBCBM
Os novos medicamentos são extraordinários, mas ainda não são democráticos e funcionam enquanto a pessoa está utilizando
— Dr. Juliano Canavarros
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que os médicos estão tão preocupados se os medicamentos funcionam?

Model

Porque funcionam de forma incompleta. Funcionam enquanto você toma. Param de funcionar quando você para. E custam caro demais para a maioria das pessoas.

Inventor

Mas não é melhor evitar uma cirurgia se possível?

Model

Seria, se os medicamentos resolvessem o problema de verdade. Mas a cirurgia oferece algo que o medicamento não oferece: uma mudança estrutural que persiste. A pessoa não precisa tomar nada para sempre.

Inventor

Então por que as pessoas estão escolhendo os medicamentos?

Model

Porque parecem mais fáceis. Não é uma cirurgia. Não há recuperação. Você só toma uma injeção. Mas fácil não é a mesma coisa que efetivo a longo prazo.

Inventor

E quanto àqueles que não podem pagar pelos medicamentos?

Model

Exatamente. Eles ficam sem nada. Não têm acesso aos medicamentos caros. E agora estão esperando mais tempo pela cirurgia porque as filas caíram. É um vazio crescente.

Inventor

Qual é o risco real do uso clandestino?

Model

Você está tomando um medicamento potente sem ninguém monitorando. Sem saber se está funcionando bem, se está causando danos, se está interagindo com outras doenças que você tem. É como dirigir de olhos fechados.

Inventor

Então a solução é voltar a fazer mais cirurgias?

Model

A solução é parar de pensar em ou-ou. Alguns pacientes precisam de cirurgia. Alguns podem se beneficiar de medicamentos. Alguns precisam dos dois. O problema é que ninguém está tendo essa conversa honesta.

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