43% no Norte e Centro-Oeste ignoram sangue nas fezes, levando a diagnósticos tardios de câncer colorretal

Pacientes com câncer colorretal chegam à FCecon com doença avançada, reduzindo chances de cura e aumentando complexidade do tratamento.
Se descoberto e tratado cedo, as chances de cura podem chegar à quase 100%
Médico especialista explica o impacto do diagnóstico precoce no prognóstico do câncer colorretal.
Mark

Por que as pessoas no Norte e Centro-Oeste esperam tanto para procurar ajuda quando notam sangue nas fezes?

Mimi

Não é preguiça ou negligência simples. A região tem parasitoses intestinais muito comuns, associadas a problemas de saneamento. Quando alguém vê sangue, o primeiro pensamento é hemorroida ou parasita — coisas que parecem menos assustadoras. Além disso, o nível de escolaridade afeta como as pessoas interpretam seus próprios sintomas.

Mark

Então é um problema de educação em saúde?

Mimi

Parcialmente. Mas também é sobre contexto. Se você vive em uma área onde parasitas são normais, você naturalmente associa certos sintomas a eles. Ninguém quer pensar em câncer. É mais fácil esperar o sintoma passar.

Mark

E quanto aos que chegam à FCecon — qual é o estado deles?

Mimi

A maioria já está em estágio avançado. Isso muda tudo sobre o tratamento. Quando o câncer é pego cedo, as chances de cura chegam a quase 100%. Quando chega avançado, o tratamento é mais complexo, mais agressivo, com menos esperança.

Mark

O que mais preocupa você nessa história?

Mimi

O fato de que 68% das pessoas nunca ouviram falar do teste de sangue oculto nas fezes. Esse é um exame simples que poderia detectar a doença cedo. Mas ninguém sabe que existe. É um vazio de informação que custa vidas.

Mark

E o crescimento entre pessoas mais jovens?

Mimi

Isso é novo e ainda não totalmente explicado. Mas provavelmente tem a ver com como vivemos agora — muita comida ultraprocessada, pouco movimento, muito álcool. Pessoas jovens não esperam ter câncer colorretal, então quando sentem algo estranho, também demoram para procurar ajuda.

Mark

Qual seria o primeiro passo para mudar isso?

Mimi

Informação clara e acessível. As pessoas precisam saber que sangue nas fezes não é normal, que deve ser investigado, e que existem testes simples. E precisam saber que a idade não as protege. Depois, é preciso garantir que esses testes estejam disponíveis e acessíveis.

  • 43% dos moradores do Norte e Centro-Oeste ignoram sangue nas fezes e apenas esperam o sintoma passar
  • Apenas 39% procuram atendimento médico imediatamente ao notar sangue nas fezes na região
  • 380 novos casos de câncer de intestino estimados para o Amazonas em 2026
  • 68% dos entrevistados do Norte e Centro-Oeste nunca ouviram falar da pesquisa de sangue oculto nas fezes
  • Crescimento médio anual de 7,6% em casos de câncer colorretal em pessoas com menos de 50 anos entre 2000 e 2023

Pesquisa revela que apenas 39% procuram atendimento imediato ao notar sangue nas fezes no Norte e Centro-Oeste, o menor índice do país. Fatores sociais, baixa escolaridade e confusão com parasitoses e hemorroidas atrasam a busca por diagnóstico médico na região amazônica.

43% dos moradores do Norte e Centro-Oeste ignoram sangue nas fezes, contribuindo para diagnósticos tardios de câncer colorretal. Maioria dos pacientes chega à FCecon com doença em estágio avançado.

No Amazonas, quando uma pessoa nota sangue nas fezes, há uma chance considerável de que simplesmente espere o sintoma desaparecer. Uma pesquisa do A.C.Camargo Cancer Center revelou que entre moradores do Norte e Centro-Oeste que já perceberam esse sinal de alerta, apenas 39% procuraram atendimento médico imediatamente. Os outros 43% fizeram nada — o maior percentual de inação registrado em qualquer região do Brasil. Essa hesitação tem consequências diretas e graves: a maioria dos pacientes que chega à Fundação Centro de Controle de Oncologia do Estado do Amazonas (FCecon) já apresenta câncer colorretal em estágio avançado, quando as opções de tratamento se tornam mais limitadas e complexas.

Rogério Lima, chefe do Serviço de Cirurgia Oncológica da FCecon, observa que o Amazonas deve registrar 380 novos casos de câncer de intestino em 2026, conforme estimativas do Instituto Nacional de Câncer. A FCecon atende a maioria desses casos não apenas no Amazonas, mas também pacientes encaminhados de outros estados da Amazônia Legal. O problema, segundo Lima, é que o diagnóstico ocorre predominantemente por busca passiva — as pessoas só procuram ajuda quando os sintomas já se tornaram graves. "O indivíduo só busca atendimento quando tem o sintoma e, geralmente, sintomas já graves", descreve o médico.

Vários fatores regionais explicam essa demora. O nível de escolaridade de parte da população influencia diretamente a decisão de procurar ajuda médica. Além disso, na região amazônica, parasitoses intestinais são comuns e associadas a questões de saneamento básico, especialmente no interior. Quando alguém nota sangue nas fezes ou alterações no funcionamento intestinal, é fácil atribuir esses sinais a parasitas, hemorroidas ou problemas alimentares — condições que parecem menos ameaçadoras. A pesquisa mostrou que 76% dos entrevistados do Norte e Centro-Oeste consideram grave ou muito grave a presença de sangue nas fezes ou uma alteração intestinal durando mais de um mês. Porém, apenas 62% associam esses sintomas especificamente ao câncer colorretal, o menor índice entre as regiões do país.

O câncer colorretal se desenvolve no intestino grosso, frequentemente começando como pequenos pólipos que crescem lentamente ao longo dos anos. Quando identificado precocemente, a doença apresenta altas chances de cura. Nos estágios iniciais, pode não provocar sintomas visíveis. Quando aparecem, os sinais incluem sangue nas fezes, alteração persistente do funcionamento intestinal, dor ou desconforto abdominal, sensação de evacuação incompleta, perda de peso sem causa aparente, anemia e cansaço excessivo. Qualquer um desses sinais merecia investigação médica, mas muitos são ignorados ou atribuídos a problemas menores.

Um aspecto preocupante é o crescimento da doença entre adultos mais jovens. Embora a maioria dos casos ainda ocorra em pessoas com mais de 50 anos, dados do A.C.Camargo Cancer Center indicam crescimento médio anual de 7,6% nos casos de câncer colorretal em pessoas com menos de 50 anos entre 2000 e 2023. Na FCecon, Lima confirma que essa mudança também tem sido percebida entre os pacientes atendidos. Fatores relacionados ao estilo de vida provavelmente contribuem para esse aumento: alimentação rica em produtos ultraprocessados e carnes processadas, baixo consumo de fibras, sedentarismo, obesidade, consumo excessivo de bebidas alcoólicas e tabagismo estão entre os principais riscos.

O impacto da demora é mensurável. Quando o tumor é identificado antes de se espalhar para outros órgãos, as chances de controle da doença são maiores e o tratamento pode ser menos complexo. "Se descoberto e tratado cedo, as chances de cura podem chegar à quase 100%", pontua Lima. Em todo o Brasil, o Inca estima 53.810 novos casos de câncer colorretal por ano para o triênio de 2026 a 2028, colocando a doença como o segundo tipo de tumor com maior incidência entre os brasileiros. Apesar dessa prevalência, o desconhecimento sobre exames de rastreamento permanece elevado: 68% dos entrevistados do Norte e Centro-Oeste nunca ouviram falar da pesquisa de sangue oculto nas fezes, um teste que detecta pequenas quantidades de sangue invisíveis a olho nu. Apenas 13% disseram já ter realizado o procedimento.

Lima orienta a população a não esperar que sintomas desapareçam sozinhos. Qualquer sangramento persistente precisa ser avaliado por um profissional de saúde. Além disso, recomenda um estilo de vida saudável: evitar alimentos embutidos e industrializados, aumentar o consumo de alimentos naturais como frutas, verduras, legumes, cereais integrais, feijões, grãos e sementes, abandonar o tabagismo, reduzir o consumo de bebidas alcoólicas e praticar exercícios regularmente. Mesmo pessoas jovens devem procurar avaliação médica caso sinais persistam — a idade, isoladamente, não elimina a possibilidade da doença. O desafio agora é transformar essa orientação em ação, especialmente em uma região onde a hesitação diante de sinais de alerta continua sendo a resposta mais comum.

A maioria dos casos já chegam até a FCecon avançados
— Rogério Lima, chefe do Serviço de Cirurgia Oncológica da FCecon
O diagnóstico desses tumores, em sua maior totalidade, se dá por busca passiva, ou seja, o indivíduo só busca atendimento quando tem o sintoma e, geralmente, sintomas já graves
— Rogério Lima
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