Nos meses após 11 de Setembro, muçulmanos e árabes enfrentaram perseguição sistemática; Uday Menon foi preso por sotaque ao comprar ingressos de teatro; Muhammad Rafiq Butt morreu em detenção. Zohran Mamdani, primeiro prefeito muçulmano de Nova York eleito em 2025, enfrenta campanhas de desinformação que o associam falsamente ao terrorismo, refletindo islamofobia persistente.
25 anos após 11 de Setembro, Nova York elege primeiro prefeito muçulmano
O cheiro de Nova York, agora, é o da mudança.
Como é possível que uma cidade que prendeu um homem por um sotaque ao telefone tenha elegido um prefeito muçulmano apenas 25 anos depois?
Porque Nova York, apesar de tudo, tem uma capacidade extraordinária de se reinventar. Mas não é uma história linear. A islamofobia não desapareceu — apenas mudou de forma.
Mas precisamos ser precisos: Mamdani foi eleito em 2025, e a petição contra sua presença nas cerimônias reuniu 110 mil assinaturas. Isso não é exatamente um consenso.
Verdade. Mas o fato de ele ter sido eleito democraticamente, apesar dessa oposição, é o que importa. Ele venceu.
E quanto aos documentos que seu governo divulgou? Isso muda algo sobre como entendemos aquele período?
Muda, mas com ressalvas. Sabemos que autoridades tinham alertas sobre a poeira tóxica e que não foram transparentes. Mas quantas pessoas morreram especificamente por isso? O material divulgado deixa isso claro?
Não completamente. Sabemos que milhares foram expostos e que vários morreram anos depois, mas a causalidade direta é difícil de estabelecer. O que os documentos fazem é corrigir a narrativa de Giuliani, que foi celebrado como herói.
Então Mamdani está, de certa forma, limpando o legado de Giuliani?
Não limpando — corrigindo. Mostrando o que Giuliani não mostrou. É uma forma de verdade que a democracia permite.
Mas há um risco aqui: a história da caneta e do advogado mostra como fatos podem ser deformados. Quantas pessoas acreditam na versão falsa?
Muitas, provavelmente. Mas o que importa é que a verdade está disponível para quem quiser procurar.
Il Polso
- Uday Menon foi preso por policiais e agentes do FBI ao tentar comprar ingressos de teatro, menos de um mês após o 11 de Setembro
- Muhammad Rafiq Butt, paquistanês de 55 anos, morreu de ataque cardíaco em detenção em Nova Jersey, sem acusação de terrorismo
- Zohran Mamdani eleito primeiro prefeito muçulmano de Nova York em novembro de 2025
- Governo Mamdani divulgou 170 mil páginas sobre qualidade do ar pós-ataques, corrigindo narrativa de Giuliani
- Petição contra participação de Mamdani nas cerimônias dos 25 anos reuniu mais de 110 mil assinaturas
Nos meses após 11 de Setembro, muçulmanos e árabes enfrentaram perseguição sistemática; Uday Menon foi preso por sotaque ao comprar ingressos de teatro; Muhammad Rafiq Butt morreu em detenção. Zohran Mamdani, primeiro prefeito muçulmano de Nova York eleito em 2025, enfrenta campanhas de desinformação que o associam falsamente ao terrorismo, refletindo islamofobia persistente.
Coluna analisa transformação de Nova York 25 anos após ataques de 2001, contrastando islamofobia imediata com eleição do primeiro prefeito muçulmano, Zohran Mamdani, enquanto documenta legado de injustiças e mudanças sociais.
Menos de um mês após o colapso das torres gêmeas, Uday Menon atendeu ao chamado do prefeito Rudolph Giuliani para que os nova-iorquinos retomassem a vida normal. Consultou de tecnologia do JPMorgan, nascido na Índia e residente nos Estados Unidos desde 1986, ligou para comprar ingressos de teatro. Quando perguntou quantas fileiras o separavam do palco, a atendente interpretou seu nome estrangeiro e sotaque como sinais de ameaça de bomba. Na noite seguinte, quando chegou ao teatro com a esposa grávida de sete meses, foi cercado por quatro policiais e três agentes do FBI, derrubado no chão e algemado. Quinze anos de vida sem nem uma multa de trânsito não resistiram a um sotaque.
O episódio de Menon não foi isolado. Muhammad Rafiq Butt, paquistanês de 55 anos, foi denunciado por um pastor vizinho no Queens. O FBI descobriu em 24 horas que não havia indício de envolvimento nos ataques, mas Butt permaneceu preso por questões migratórias. Morreu de ataque cardíaco num centro de detenção em Nova Jersey pouco mais de um mês depois. A islamofobia não foi um efeito colateral distante do 11 de Setembro — surgiu quase imediatamente, alimentada pelo medo, pela ignorância e pela confusão deliberada entre uma religião seguida por cerca de 2 bilhões de pessoas e a ideologia fundamentalista da Al Qaeda, organização responsável pelos ataques executados pelos 19 sequestradores.
Naquele momento, Giuliani encarnava aos olhos de boa parte da população a melhor resposta possível à catástrofe. Caminhava pelas ruas, informava os nova-iorquinos, confortava famílias e transmitia a sensação de que ainda havia governo em meio ao caos. Sua popularidade disparou. O prefeito de Nova York virou o "prefeito da América". O contraste com o personagem atual dificilmente poderia ser maior. Giuliani tornou-se uma caricatura do líder que foi, subordinou sua biografia a Donald Trump e emprestou reputação e conhecimento jurídico à tentativa de reverter o resultado da eleição presidencial de 2020. Foi expulso da Ordem dos Advogados de Nova York e condenado a indenizar duas funcionárias eleitorais que difamou.
Agora Giuliani reaparece para sustentar que Zohran Mamdani, atual prefeito de Nova York, não deveria participar das cerimônias dos 25 anos do atentado. Mamdani nasceu em Uganda, é filho de indianos e foi criado nos Estados Unidos. Em novembro de 2025, tornou-se o primeiro muçulmano eleito para o cargo. Essa vitória teria sido difícil de imaginar naquele longínquo 2001 em que Menon foi algemado por tentar assistir a um espetáculo e Butt foi mantido preso sem qualquer acusação relacionada ao terrorismo. É também a demonstração mais recente da extraordinária capacidade de Nova York de se reinventar.
A islamofobia, porém, não desapareceu. Sem qualquer base factual, Mamdani já foi chamado de terrorista, acusado de querer impor a sharia, ameaçado de deportação e associado ao 11 de Setembro. Uma petição reuniu mais de 110 mil assinaturas para exigir que o prefeito não comparecesse à cerimônia no Marco Zero nesta sexta-feira. Um episódio é emblemático de como um fato pode ser deformado até adquirir o sentido oposto. Mamdani pediu que uma das canetas usadas para assinar decretos relacionados à memória do 11 de Setembro fosse entregue a Ramzi Kassem, chefe de sua assessoria jurídica. Passou-se a afirmar que o objeto fora dado ao "advogado de um dos terroristas" responsáveis pelos ataques. Não foi. Kassem nunca defendeu nenhum dos 19 sequestradores. Representou Ahmed al-Darbi, integrante da Al Qaeda que se declarou culpado por sua participação no planejamento de outro atentado contra um petroleiro francês no Iêmen em 2002. Al-Darbi havia sido preso em junho de 2002 e, portanto, já estava detido quando o atentado ocorreu, em outubro. A defesa judicial de um acusado, por mais repulsivo que seja o crime atribuído a ele, não significa endossar seus atos, mas preservar uma das garantias que distinguem o Estado de Direito do terrorismo que se pretende combater.
Alvo de acusações de antissemitismo, que rejeita, e defensor de propostas controversas como o congelamento de aluguéis, a criação de supermercados subsidiados e a tarifa zero no transporte público, Mamdani mantém elevada popularidade na cidade. Seu governo acaba de prestar um serviço importante, tornando públicas cerca de 170 mil páginas sobre a qualidade do ar depois da queda das torres, como parte de um acordo que encerrou duas longas disputas judiciais pelo acesso aos registros. Segundo a prefeitura, parlamentares e entidades que representam as vítimas, o material reforça as evidências de que autoridades dispunham de alertas sobre os riscos da poeira tóxica levantada naquela manhã enquanto estimulavam moradores, trabalhadores e empresas a retornar ao sul de Manhattan. Milhares de bombeiros, policiais, socorristas e civis foram expostos e muitos desenvolveram doenças relacionadas. Vários morreram anos depois. O acervo também lança nova luz sobre a gestão Giuliani, que celebrada por liderar a reação imediata à tragédia comandou uma administração que não foi transparente sobre os perigos enfrentados por quem respirava o ar do Marco Zero.
Mamdani tinha nove anos no 11 de Setembro. Vivia em Manhattan, onde cursava o ensino fundamental, e acompanhou da própria cidade o ataque que transformaria Nova York. Um quarto de século depois, ocupa a cadeira do homem convertido em herói naquela manhã e traz a público documentos que ajudam a corrigir a narrativa produzida durante a gestão desse mesmo herói. A história raramente oferece simetrias tão perfeitas. A cidade continua carregando seus mortos, seus doentes e as contradições daquele período, produzindo teorias conspiratórias, preconceito e oportunismo político. Mas foi capaz de eleger democraticamente um muçulmano apenas uma geração depois de um atentado cometido por terroristas que alegavam agir em nome do islã. O cheiro de Nova York, agora, é o da mudança.
Citazioni salienti
Quinze anos de vida nos EUA sem nem sequer uma multa de trânsito não haviam resistido a um sotaque.— Uday Menon, sobre sua prisão ao comprar ingressos de teatro
A defesa judicial de um acusado, por mais repulsivo que seja o crime atribuído a ele, não significa endossar seus atos, mas preservar uma das garantias que distinguem o Estado de Direito do terrorismo que se pretende combater.— Análise sobre a representação de Ahmed al-Darbi por Ramzi Kassem