THE REGISTER
permite que outras pessoas criem deepfakes — Google News
Ferramenta da Meta permite que terceiros gerem deepfakes com fotos do Instagram sem consentimento prévio do usuário.
O ônus de desativar a função recai sobre quem publicou a foto — não sobre quem quer usá-la.
Quem tem o perfil do Instagram aberto ao público acordou esta semana numa posição que não escolheu: as fotos que publicou podem ser usadas por qualquer pessoa para criar imagens geradas por inteligência artificial — sem pedir permissão, sem avisar. A ferramenta é da Meta. Desativá-la exige que o usuário procure a opção nas configurações do aplicativo.
A reportagem descreve o mecanismo e mostra o caminho para quem quiser sair. Mas o gesto que ela exige já diz algo sobre a estrutura: a função foi habilitada por padrão. Quem não agir permanece dentro.
Essa inversão de ônus — a plataforma habilita, o usuário precisa recusar — não é nova no ecossistema das redes sociais, mas raramente aparece tão exposta. A matéria, publicada esta semana, descreve como a inteligência artificial da Meta "“permite que outras pessoas criem deepfakes” (Google News)" (Google News) com imagens de perfis públicos. O verbo é da fonte. O peso é do leitor que reconhece a própria foto nessa frase.
Não há, nos artigos disponíveis, registro de casos concretos de uso indevido vinculados a esta função específica. O que existe é a mecânica descrita: acesso habilitado, opt-out necessário, caminho nas configurações. A história é sobre uma posição estrutural, não sobre um incidente isolado.
Enquanto a discussão sobre imagem e consentimento digital ocupa o centro desta edição, outros eventos pesam no fio da manhã.
No Golfo Pérsico, o Estreito de Ormuz — passagem por onde circula cerca de um quinto do petróleo mundial — voltou a ser mencionado como alvo de bloqueio. O Irã respondeu a uma segunda noite de bombardeios com novos ataques a bases americanas na região, segundo a reportagem. O funeral do aiatolá Khamenei foi usado como ponto de inflexão política no ciclo de retaliações. A escalada segue aberta.
No Brasil, um ataque de ransomware a uma empresa de saúde resultou no sequestro de dados de 500 mil pacientes. A empresa está sob investigação federal. Dois em cada quatro artigos sobre o caso nomearam o custo humano — os outros dois descreveram o ataque em termos técnicos e institucionais. Os pacientes aparecem no número, nem sempre na frase.
Na Copa do Mundo de 2026, a eliminação do Brasil gerou uma cobertura que misturou análise tática e relato emocional. Uma das matérias descreveu as primeiras horas após a derrota — terapia, silêncio, o after do vazio. França e Marrocos seguem para as quartas de final. O torneio continua; o luto brasileiro também.
Uma foto tirada numa tarde qualquer. Postada sem cerimônia, num perfil aberto porque é assim que se participa. Agora disponível — não para quem a tirou, mas para qualquer pessoa com acesso à ferramenta certa e tempo suficiente. A reportagem diz que há como impedir. O que ela não diz, porque não é seu trabalho dizer, é quantas pessoas vão encontrar o caminho antes que alguém use a foto no lugar delas.
O que une esta manhã é o ônus que recai sobre quem não pediu para estar numa posição de risco — seja num perfil público, num prontuário médico ou numa região de conflito.