Zelensky ausenta-se de conferência na Polónia em meio a crise diplomática

Dezenas de milhares de polacos foram mortos por combatentes do UPA durante e após a Segunda Guerra Mundial na região da atual Ucrânia Ocidental.
Um erro é pior do que um crime, em política
Donald Tusk avisa sobre os custos de envolver-se em conflitos políticos entre Polónia e Ucrânia.

Entre aliados que partilham uma fronteira e um inimigo comum, a história ressurgiu como ferida aberta: a decisão de Zelensky de batizar uma unidade militar com o nome de um grupo responsável por massacres de polacos durante a Segunda Guerra Mundial desencadeou uma crise diplomática que afastou o presidente ucraniano da conferência de Gdansk e levou Varsóvia a revogar a sua mais alta condecoração. O episódio lembra que as nações, mesmo unidas pelo presente, carregam o peso de passados que não foram inteiramente reconciliados — e que Moscovo observa, com interesse, cada fissura que se abre entre elas.

  • O decreto de Zelensky batizando uma unidade especial com o nome do UPA — grupo que matou dezenas de milhares de polacos durante a Segunda Guerra Mundial — acendeu uma crise que nenhum dos dois lados esperava gerir em plena guerra contra a Rússia.
  • A reação polaca foi imediata e simbólica: o presidente Nawrocki revogou a Ordem da Águia Branca concedida a Zelensky, e até Lech Walesa, histórico apoiante de Kiev, arrancou publicamente o alfinete com a bandeira ucraniana.
  • Zelensky devolveu a condecoração com palavras de agradecimento ao povo polaco, mas o gesto não bastou para dissipar a tensão — e a sua ausência em Gdansk transformou uma conferência de recuperação num palco de fraturas diplomáticas.
  • Bruxelas alertou que a escalada serve apenas os interesses de Moscovo, enquanto Tusk advertiu que envolver-se neste conflito político custará caro a ambos os países em negócios, geopolítica e reputação.
  • A delegação ucraniana será liderada pela primeira-ministra Svyrydenko, numa presença que sinaliza continuidade de compromisso mas também o peso do impasse entre dois aliados que precisam urgentemente um do outro.

A 23 de junho, a primeira-ministra ucraniana Yuliia Svyrydenko confirmou que substituirá Zelensky na Conferência de Recuperação da Ucrânia em Gdansk — encerrando semanas de incerteza sobre uma ausência que se tornou, ela própria, um símbolo da crise entre Kiev e Varsóvia.

Tudo começou a 26 de maio, quando Zelensky assinou um decreto batizando uma unidade das forças especiais com o nome do Exército Insurgente Ucraniano, o UPA. Para os ucranianos, o grupo representa a luta pela independência; para os polacos, representa o massacre de dezenas de milhares de compatriotas na atual Ucrânia Ocidental durante e após a Segunda Guerra Mundial. A reação foi transversal: o presidente Nawrocki revogou a Ordem da Águia Branca — a mais alta condecoração polaca — que Zelensky recebera três anos antes, e Lech Walesa retirou publicamente o alfinete com a bandeira ucraniana.

Zelensky devolveu a medalha com palavras de gratidão ao povo polaco, mas o gesto não resolveu o diferendo. O ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano Sybiha tentou explicar que o batismo da unidade visava homenagear quem lutou contra Moscovo imperial e a repressão bolchevique — não ofender a Polónia. A explicação não convenceu.

Donald Tusk, primeiro-ministro e rival político de Nawrocki, começou por dizer que compreendia a decisão presidencial, mas no domingo endureceu o tom: envolver-se neste conflito político seria um erro estratégico que custaria caro a ambos os lados. Nawrocki, por sua vez, anunciou que também não compareceria em Gdansk, por falta de convite. Bruxelas observava com preocupação crescente, alertando que a escalada só beneficia a Rússia — minando a coesão ocidental num momento em que a Ucrânia mais precisa dos seus aliados.

A primeira-ministra ucraniana Yuliia Svyrydenko confirmou no dia 23 de junho que será ela, e não o presidente Volodymyr Zelensky, a encabeçar a delegação de Kiev na Conferência de Recuperação da Ucrânia, marcada para quinta e sexta-feira em Gdansk. O anúncio encerra semanas de especulação sobre se Zelensky compareceria, dado o clima de tensão que se instalou entre os dois países vizinhos e aliados na guerra contra a Rússia.

A crise começou a 26 de maio, quando Zelensky assinou um decreto batizando uma unidade das forças especiais ucranianas com o nome do Exército Insurgente Ucraniano, ou UPA. O grupo lutou pela independência ucraniana durante e após a Segunda Guerra Mundial. Mas na Polónia, a UPA é recordada de forma muito diferente: como responsável pela morte de dezenas de milhares de polacos na região que hoje é a Ucrânia Ocidental, então sob ocupação nazi. A reação foi imediata e transversal. Lech Walesa, antigo presidente polaco e apoiante histórico de Kiev, retirou publicamente o seu alfinete com a bandeira ucraniana em protesto.

O presidente polaco Karol Nawrocki respondeu na última sexta-feira com um gesto simbólico de grande peso: revogou a Ordem da Águia Branca, a mais alta condecoração da Polónia, que Zelensky havia recebido três anos antes do então chefe de Estado Andrzej Duda. No dia seguinte, Zelensky devolveu a condecoração, agradecendo ao povo polaco pelo apoio contínuo durante a invasão russa. A troca de gestos deixou claro que o diferendo não seria facilmente resolvido.

O primeiro-ministro polaco Donald Tusk, rival político de Nawrocki, começou por dizer que compreendia a decisão do presidente, embora sugerisse que teria agido de forma diferente. Mas no domingo, o tom mudou drasticamente. Tusk escreveu nas redes sociais que envolver-se em conflitos políticos entre polacos e ucranianos era um erro estratégico que custaria caro a ambos os lados — nos negócios, na geopolítica, na reputação. "Em política, como se sabe, um erro é pior do que um crime", acrescentou.

O ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano Andrii Sybiha tentou acalmar as águas, garantindo ao seu homólogo polaco que os soldados que pediram o batismo da unidade como UPA não tinham qualquer intenção anti-polaca. Segundo Sybiha, o objetivo era homenagear aqueles que, há muitos anos, também lutaram contra Moscovo imperial, a ocupação bolchevique-comunista e a repressão. A explicação, porém, não dissipou a controvérsia.

Na segunda-feira, Nawrocki anunciou que não compareceria na conferência de Gdansk por falta de convite. Bruxelas observava a situação com crescente preocupação. Os funcionários europeus alertaram que esta escalada de tensões só beneficiava a Rússia, minando a coesão entre aliados ocidentais num momento crítico da guerra na Ucrânia. A ausência de Zelensky e a não comparência de Nawrocki transformaram um evento de recuperação num símbolo das fraturas que a história e a política contemporânea continuam a abrir entre dois países que precisam um do outro.

Envolver-se no conflito político entre os políticos da Polónia e da Ucrânia é um erro estratégico que custará caro a ambos os lados
— Donald Tusk, primeiro-ministro polaco
Os soldados ucranianos que solicitaram o batismo da sua unidade como UPA não tinham absolutamente nenhuma intenção anti-polaca
— Andrii Sybiha, ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que é que um nome de unidade militar desencadeou uma crise diplomática tão profunda?

Model

Porque na Polónia, a UPA não é apenas um grupo histórico — é o símbolo de um trauma coletivo. Dezenas de milhares de polacos foram mortos. Quando Zelensky batizou uma unidade com esse nome, foi como se ignorasse completamente essa dor.

Inventor

Mas Zelensky estava a tentar honrar combatentes pela liberdade ucraniana, certo?

Model

Sim, e é aí que reside a tragédia. Ambos os lados têm razão histórica. A UPA lutou contra ocupantes. Mas também cometeu atrocidades contra civis polacos. Zelensky não viu o problema; a Polónia não conseguiu ver nada mais.

Inventor

Tusk parece estar a tentar apaziguar a situação. Conseguirá?

Model

Tusk compreende o que está em jogo — a Rússia adora quando os aliados ocidentais se debatem entre si. Mas o seu apelo à razão chega tarde. Nawrocki já retirou a condecoração, Zelensky já a devolveu. Estes gestos têm peso próprio.

Inventor

E agora? Zelensky não vai a Gdansk, Nawrocki também não. Que significa isto para a guerra?

Model

Significa que a Ucrânia perde apoio político crucial num momento em que precisa de toda a solidariedade europeia. A Polónia é vizinha, é porta de entrada para armas e ajuda. Quando essa relação se deteriora, todos perdem.

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