YMCA: do hino gay ao improvável símbolo de Trump nos comícios

Estamos vendo o autêntico Trump em toda sua confusão
Um especialista em música e política reflete sobre as escolhas musicais aparentemente aleatórias do presidente eleito.

YMCA foi lançada em 1978 como celebração da vida noturna gay, mas agora é tocada repetidamente em eventos de Trump, que dança ao som enquanto apoiadores cantam. A nostalgia pelos anos 1970 e a idealização de uma masculinidade americana estereotipada explicam a apropriação da música por conservadores, segundo antropólogos.

  • "YMCA" foi lançada em 1978 pelo Village People como celebração da vida noturna gay
  • A música é tocada repetidamente em comícios de Trump, que dança ao som enquanto apoiadores cantam
  • Victor Willis, coautor, inicialmente proibiu Trump de usar a música em 2020, mas recuou em dezembro de 2024 após "benefícios financeiros"
  • Estima-se que "YMCA" arrecade vários milhões de dólares em eventos de Trump

A música 'YMCA' do Village People, abraçada pela cultura gay desde 1978, tornou-se trilha sonora dos comícios de Donald Trump, gerando ironia e contradições políticas.

Em 1978, quando o Village People lançou "YMCA", ninguém imaginava que a música animada sobre frequentar a Associação Cristã de Moços se tornaria um dos maiores sucessos pop do século. A banda — homens jovens vestidos como cowboy, policial, índio, motociclista, pedreiro e soldado — apresentou a canção em uma performance que logo seria abraçada pela cultura gay como uma ode cifrada aos encontros noturnos nesses espaços. A letra, a coreografia dos movimentos de braço, a mistura de fanfarra, violino e funk criada pelo produtor francês Jacques Moralis e pelo cantor Victor Willis: tudo se tornou parte de um fenômeno cultural que atravessaria décadas.

Mas em 2025, a música ganhou uma vida política que seus criadores provavelmente nunca previram. Donald Trump a toca repetidamente em seus comícios, dança ao som enquanto apoiadores cantam, e a canção se tornou trilha sonora de eventos para arrecadar fundos em Mar-a-Lago. O próprio Village People foi anunciado para se apresentar em vários eventos da posse presidencial. A ironia é tão densa que parece quase proposital: uma música nascida da cultura gay, celebrada por décadas como hino de uma comunidade historicamente marginalizada, agora ressoa em comícios de um político cuja base frequentemente se opõe aos direitos LGBTQIA+.

A jornada de "YMCA" da pista de dança para a política começou de forma discreta. Em março de 2020, a Biblioteca do Congresso dos EUA certificou a música como "culturalmente, historicamente ou esteticamente significativa" — um reconhecimento que a reposicionou de algo potencialmente subversivo para uma celebração universal. Um mês depois, durante protestos contra a quarentena da pandemia de covid-19, manifestantes começaram a cantar a música, mas trocando as letras: em vez de "YMCA", gritavam "MAGA", o lema de Trump. A ligação pegou. Logo a canção se tornou clássica nos comícios pró-Trump, oferecendo o clima de show de rock que o presidente eleito cultiva em seus eventos.

Para entender por que essa apropriação funciona, é preciso olhar para a nostalgia que alimenta o movimento Trump. Jamie Saris, professor de antropologia da Universidade Maynooth na Irlanda, explica que os apoiadores de Trump buscam uma releitura do passado, querendo reviver momentos que idealizaram sem lidar com as contradições daqueles tempos. "A era das discotecas era considerada problemática na sua época, mas agora as mesmas pessoas que costumavam se sentir desconfortáveis com ela estão dizendo: 'Os anos 1970 foram ótimos!'" A nostalgia, porém, frequentemente se transforma em algo mais caricatural — trabalhadores de escritório nos comícios de Trump se vestem como Navy Seals, veteranos de guerra e operários, um cosplay que Saris compara ironicamente ao do próprio Village People, que fetichiza profissões supostamente másculinas ao vestir uniformes de policial, soldado, cowboy e motociclista.

A questão financeira, contudo, oferece uma explicação mais prosaica para a persistência da música. Trump enfrenta uma lista impressionante de artistas que reclamaram do uso de suas canções em comícios: Beyoncé, Rihanna, Céline Dion, REM, Aerosmith e Jack White, que mandou um recado direto no Instagram quando Trump tentou usar "Seven Nation Army". Victor Willis, coautor de "YMCA", também entrou nessa lista. Em junho de 2020, ele anunciou que não queria que Trump tocasse suas músicas. Em 2023, enviou um mandado judicial para impedir o uso após ver um grupo vestido como Village People se apresentando em Mar-a-Lago.

Mas em dezembro de 2024, Willis mudou de ideia. "Os benefícios financeiros foram ótimos", escreveu no Facebook. "Estima-se que 'YMCA' arrecade vários milhões de dólares. Portanto, estou feliz por permitir que o presidente eleito continuasse a usar 'YMCA'." Willis também afirmou que a letra nunca foi escrita com duplo sentido e que sua esposa processaria qualquer veículo de notícias que descrevesse a música como um hino gay — uma declaração que apenas aprofunda a ironia de toda a situação.

O que torna essa história particularmente reveladora é o que ela diz sobre Trump e suas escolhas. James Garratt, autor de "Music and Politics: A Critical Introduction", observa que as seleções musicais de Trump revelam alguém que não se importa se suas escolhas parecem caóticas, aleatórias ou ideologicamente inconsistentes. Diferentemente de outros políticos, Trump oscila ecleticamente em suas alianças e sua playlist. "Não acho que ele esteja pregando uma peça nos progressistas ao usar 'YMCA'", diz Garratt. "Muito pelo contrário, estamos vendo o autêntico Trump em toda sua confusão." Uma música sobre jovens rapazes passando tempo juntos quando estão sem dinheiro, agora tocada por um presidente eleito de 78 anos que dança desajeitadamente enquanto seus apoiadores cantam — talvez seja exatamente o tipo de contradição que define este momento político.

Os benefícios financeiros foram ótimos. Estima-se que 'YMCA' arrecade vários milhões de dólares. Portanto, estou feliz por permitir que o presidente eleito continuasse a usar 'YMCA'.
— Victor Willis, coautor de "YMCA", em post no Facebook em dezembro de 2024
Diferentemente de outros políticos, ele não parece se importar se suas escolhas parecem caóticas, aleatórias ou ideologicamente inconsistentes.
— James Garratt, autor de "Music and Politics: A Critical Introduction"
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Como uma música nascida da cultura gay acaba sendo abraçada por conservadores?

Model

Não é tanto uma apropriação consciente quanto uma reinterpretação. A música foi certificada como culturalmente significativa em 2020, o que a deslocou de "subversiva" para "universal". Depois disso, ela se tornou disponível — culturalmente falando — para qualquer um reivindicá-la.

Inventor

Mas os apoiadores de Trump não deveriam estar desconfortáveis com uma música que celebra a vida noturna gay?

Model

Aqui entra a nostalgia. Os apoiadores de Trump idealizam os anos 1970 sem suas contradições. Eles querem a estética — os uniformes, a masculinidade performativa — sem o contexto de marginalização que a acompanhava.

Inventor

O Village People faz a mesma coisa, não é? Fetichizam profissões másculinas.

Model

Exatamente. O Village People faz isso com ironia, como crítica. Trump e seus apoiadores fazem isso sem ironia, como celebração genuína. A diferença é tudo.

Inventor

E Victor Willis? Por que mudou de ideia?

Model

Dinheiro. Ele disse explicitamente que os benefícios financeiros foram ótimos. Estima-se que "YMCA" arrecade vários milhões de dólares para os eventos de Trump. É uma decisão comercial, não política.

Inventor

Isso não o torna cúmplice?

Model

Talvez. Ou talvez apenas humano. Ele criou uma música que transcendeu suas intenções originais. Agora ela pertence a muita gente — incluindo pessoas que ele provavelmente não gostaria de apoiar. Mas o dinheiro fala mais alto que a política.

Inventor

O que isso diz sobre Trump?

Model

Que ele não se importa com coerência ideológica. Ele escolhe o que gosta, e se parecer caótico ou contraditório, tudo bem. É autêntico justamente porque é confuso.

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